Biden x Sanders: conheça as propostas dos candidatos democratas


Paul LeBlanc Da CNN, em Washington
14 de março de 2020 às 15:18 | Atualizado 15 de março de 2020 às 23:58
Joe Biden e Bernie Sanders

Os democratas Joe Biden (esquerda) e Bernie Sanders disputam a indicação do partido para enfrentar Donald Trump nas eleições dos EUA, em novembro

Foto: CNN (31.jan.2020)

Os resultados da Superterça fizeram do ex-vice-presidente Joe Biden e do senador do estado de Vermont, Bernie Sanders, os principais pré-candidatos na competição pela indicação do Partido Democrata para enfrentar o presidente Donald Trump na eleição presidencial em novembro.

Biden se candidata tendo como base o legado de seus oito anos junto de Barack Obama, enquanto Sanders —um candidato independente— oferece uma plataforma social-democrata, com uma visão radicalmente diferente para os Estados Unidos.

Leia também:

Perfil: Biden, a escolha segura do centro democrata contra Trump

Perfil: socialista, Sanders desafia establishment democrata

Os dois candidatos representarão seus projetos nas próximas primárias, que acontecerão até 7 de junho. No entanto, até o fim de março, o apoio de cerca de dois terços dos delegados já estará definido. O candidato democrata deve reunir 1.991 delegados para obter a nomeação.

Confira as propostas de Joe Biden e Bernie Sanders em pontos-chave:

Sistema de saúde

Biden

Biden propõe um plano que ampliaria o "Affordable Care Act" — que ganhou a alcunha de Obamacare, por ser o principal projeto do ex-presidente para a área de saúde.

O Obamacare impôs regulamentação aos preços de planos de saúde privados e ampliou a parcela da população que pode acessar os planos de saúde pública já existentes, como o Medicare e o Medicaid, que subsidiam cuidados de idosos, deficientes e pessoas de baixa renda.

O projeto de Biden inclui a criação um subsídio massivo ao programa, para reduzir os custos da cobertura para a população. Seu plano também incluiu uma opção em que as pessoas poderiam pagar por um plano de saúde público similar ao Medicare.

- A proposta custaria US$ 750 bilhões ao longo de dez anos, de acordo com a sua campanha;

- Biden propõe que a conta seja paga aumentando o imposto de renda dos mais ricos para 39,6% —atualmente a maior alíquota da taxa é 37%.

Sanders

A proposta de um sistema de saúde universal, chamado de Medicare for All, é a base da plataforma progressista de Sanders. Seu plano deixaria intacta a atual infraestrutura de médicos, hospitais e profissionais de saúde, mas nacionalizaria a indústria dos planos de saúde. Atualmente, autônomos e empresas pagam a empresas privadas quase a mesma quantia que seria paga, sob o projeto de Sanders, ao governo federal.

- Estudos estimam que o custo do Medicare for All seria de mais de US$ 30 trilhões ao longo de uma década —um grande custo para os cidadãos cobrirem;

- Sanders disse que pagaria pelo programa ao reverter o corte nos impostos proposto pelos republicanos em 2017, e impondo mais taxas aos ricos e sobre o rendimento de capitais;

- Outra taxa, cobrada de quem atualmente paga planos de saúde privados, também seria criada para financiar o projeto.

Mudança climática

Biden

Biden propôs um plano para a crise climática em que os Estados Unidos eliminariam até 2050 a emissão de gases que causam o efeito estufa .

Sua proposta abraça temas do Green New Deal e quer ir além das metas climáticas propostas pela gestão de Obama.

Como parte de sua proposta, Biden pede o fim dos subsídios a combustíveis fósseis e a proibição de concessões de óleo e combustíveis em terrenos públicos. Como outros democratas, Biden também colocaria os EUA de volta ao Acordo de Paris, tratado internacional de 2015 de redução de emissão de gases estufa e do qual Trump retirou os país durante seu primeiro ano de mandato.

Biden planeja deixar o Congresso decidir qual seria o mecanismo de fiscalização usado para verificar o cumprimento das metas e penalizar as empresas que descumpri-los.

- A proposta custaria US$ 1,7 trilhão nos primeiros dez anos, incluindo US$ 400 bilhões para pesquisa, divididos entre universidades e o setor privado;

- Biden pagaria esse valor revertendo o corte nos impostos promovido por Trump e congressistas republicanos;

Sanders

Sanders, que atacou Trump abertamente após a saída do acordo de Paris, é um dos líderes do Green New Deal e propõe um plano ambicioso para a crise climática, que inclui uma mobilização extensa para frear e reverter os impactos do aquecimento global dentro de uma década.

Os objetivos principais incluem cumprir a meta de 100% de uso de energia renovável em eletricidade e transporte até 2030; reduzir em 71% a emissão de gases; a criação de um sistema de energia elétrica inteligente que custaria US$ 526 bilhões; um investimento de US$S 200 bilhões no Fundo Verde do Clima; e prioridade ao que os ativistas chamam de "transição justa" para trabalhadores da indústria de combustíveis fósseis, que seriam deslocados durante a transição.

Esse processo, diz a campanha, criaria 20 milhões de novos empregos em diversos ramos, como os de aço, construção, automóveis e em usinas de energia renovável.

- O plano custaria US$ 16,3 trilhões, que Sanders já declarou que "se pagariam em cerca de 15 anos";

- A maior fonte possível de financiamento, com estimativa de US$ 6,4 trilhões, viria da receita advinda da venda de energia limpa —que seria administrada usando estruturas públicas já existentes —entre 2023 e 2035;

- Antes disso, Sanders cortaria gastos militares, usados para proteger interesses energéticos globais, em mais de US$ 1,2 trilhão e também taxaria empresas de combustíveis fósseis em mais de US$ 3 trilhões;

- US$ 2,3 trilhões adicionais, de acordo com a campanha, seriam levantados com os impostos cobrados dos mais de 20 milhões de empregos que a medida criaria.

Imigração

Biden

A proposta de imigração de Biden desenha um novo caminho para a obtenção da cidadania americana e reverteria amplamente os procedimentos aplicados por Trump na fronteira.

- O plano de Biden investiria US$ 4 bilhões na América Central em um esforço para reduzir a violência e reduzir a migração para os Estados Unidos;

- Sua plataforma de campanha também aumentaria o limite de admissão de refugiados nos Estados Unidos, dos atuais 18 mil para 125 mil;

- Em uma entrevista à CNN em julho de 2019, Biden disse que se opõe à descriminalização da travessia da fronteira sem a documentação adequada. "Eu acredito que essas pessoas deveriam entrar na fila, mas se essas pessoas estiverem vindo porque estão buscando asilo, então elas deveriam ter a oportunidade de defenderem seus pontos de vista".

Sanders

O projeto de Sanders para a imigração inclui uma reestruturação em larga escala do sistema, através de ação legislativa e uma série de ordens do Executivo.

- Ele suspenderia as deportações, acabaria com as diligências da ICE (Patrulha da Imigração e Alfândega dos EUA), interromperia a construção do muro na fronteira entre os Estados Unidos e o México, acabaria com a separação de famílias e fecharia centros de detenção com fins lucrativos;

- Sanders também reverteria a lei de Public Charge, aprovada por Trump — que permite que vistos e green cards sejam negados a pessoas que possam se tornar dependentes do governo. Ele também pretende assegurar que que imigrantes não sejam discriminados com base em deficiências ou renda, e estenderia prazos de proteção temporária até que resoluções permanentes estivessem implementadas;

- O plano também reestruturaria o Departamento de Segurança Interna (Homeland Security), fundindo a ICE ao Departamento de Justiça e a Alfândega e Proteção da Fronteira no Departamento do Tesouro;

- Nessa proposta, o governo criaria um programa para recepcionar imigrantes deslocados por conta de mudanças climáticas e colocaria uma meta de aceitar ao menos 50 mil pessoas durante seu primeiro ano de mandato.

Educação

Biden

As propostas de Biden para a educação aumentaria o financiamento para escolas em áreas de baixa renda, ajudaria professores a quitarem dívidas adquiridas com suas formações e dobraria o número de profissionais da área médica trabalhando em escolas.

O plano priorizaria salários competitivos para professores, ampliaria o acesso a pré-escolas para crianças de 3 e 4 anos e o número de distritos que oferecem carga horária escolar expandida.

Depois dessas medidas, o plano de Biden prevê uma consulta aos distritos escolares para classificar as prioridades de gasto com a verba restante.

Ele declarou que a maior parte de seus projetos para a educação poderiam ser aprovados mesmo que os republicanos mantivessem o controle do Senado depois das eleições de 2020.

- Biden não disse quanto as medidas custariam ou como ele pretende custeá-las;

- Um plano separado, focado no ensino superior, propõe dois anos gratuitos em faculdades comunitárias, o que sua campanha diz que custaria US$ 750 bilhões ao ano.

Sanders

A política de Sanders para a educação traça um plano de dez pontos que cria um piso salarial de US$ 60 mil ao ano para professores de escolas públicas, garante refeições gratuitas para todos os alunos e expande a oferta de programas de férias e extracurriculares.

Ele também defende o fim das charter schools (que recebem dinheiro público, mas operam com total autonomia) e a suspensão do financiamento até que uma auditoria nacional dessas instituições seja concluída. 

- Sanders não especificou as fontes de financiamento para seu plano, mas sugeriu que a reversão do corte nos impostos que aconteceu durante o governo Trump ajudaria a fechar as contas.

Para o ensino superior, Sanders propôs um programa ambicioso de "faculdade para todos", que eliminaria as dívidas de financiamento estudantil de todos os americanos e tornaria gratuitas todas as universidades públicas e faculdades comunitárias.

- Sanders declarou que novos impostos para Wall Street levantariam os US$ 2,2 trilhões necessários para pagar pela proposta;

- Esses tributos incluiriam uma taxa de 0,5% em vendas de ações (ou 50 centavos a cada US$ 100 em ações), 0,1% em títulos de crédito, e 0,005% em derivativos. Sanders acredita que isso arrecadaria mais de US$ 2,4 trilhões nos próximos 10 anos.

Armas de fogo

Biden

O plano de Biden para controlar as armas de fogo inclui que donos donos de fuzis de assalto —classificação aplicada a armas semi-automáticas — deveriam vendê-los ou registrá-los junto ao governo.

- O plano inclui um programa de oito anos ao custo de US$ 900 milhões para combater a violência, focado na redução dos índices das 40 cidades com mais ataques armados do país;

- Biden eliminaria os dispositivos legais que impedem que fabricantes de armas sejam responsabilizados pela maneira que seus produtos são utilizados;

- O pré-candidato também propõe uma série de medidas, como alterações na verificação de antecedentes antes de comprar uma arma, a proibição da venda de fuzis de assalto e pentes de alto armazenamento, e permitiria que todos os estados implementassem a lei de "red flag" —em que a posse de arma de um indivíduo pode ser revogada se ele apresentar perigo para outros ou para si mesmo.

Sanders

Sanders, que foi criticado por Biden por votos passados no Senado sobre controle de armas de fogo, propõe verificação de antecedentes expandida.

- A política de Sanders quer aplicar as mesmas regras a armas de assalto que "são aplicadas a armas automáticas — um sistema que, essencialmente, torna seu porte ilegal";

- O plano dele inclui penas mais duras para quem compra armas para alguém que não pode possui-las legalmente;

- Ele também proibiria pentes de alto armazenamento de munição, bem como a impressão 3D de armas de fogo e bases de apoio para esses dispositivos.

Contribuiu Eric Bradner, da CNN