Com crise, mulheres latino-americanas correm mais risco de perder emprego

Especialistas alertam para a importância de governos da região adotarem medidas em favor de grupo vulnerável

Reuters
20 de maio de 2020 às 12:02
Mulher mói milho para fabricar massa de tortilla durante quarentena em San Ignacio, El Salvador
Foto: Jose Cabezas - 13.mai.2020 / Reuters

As mulheres da América Latina correm mais risco do que os homens de perder seus empregos em razão da crise causada pelo novo coronavírus, disseram especialistas nessa terça-feira (19). Eles também pedem aos governos dos países dessa região que adotem medidas para ajudar as mulheres em trabalhos de baixa remuneração.

O público feminino domina os setores informais e de baixos salários, os mais prejudicados pelas semanas de restrições, como isolamento e lockdown, com grandes perdas de emprego enquanto a pandemia arrasa a América Latina, afirmaram especialistas durante um seminário online coordenado pelo Centro Internacional para Acadêmicos Woodrow Wilson, sediado em Washington (EUA).

A América Latina se tornou o novo epicentro da Covid-19, que se espalhou rapidamente pela região, matando mais de 31 mil pessoas e infectando cerca de 570 mil.

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“O que sabemos é que as mulheres são muito presentes em setores de alto risco, como varejo, restaurantes e hotéis, vulneráveis às medidas de distanciamento social, as quais impedem o grupo de continuar trabalhando”, explicou Claudia Piras, economista do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Nos Estados Unidos, 60% da perda de empregos ligada à pandemia foi registrada entre mulheres, enquanto na Espanha elas representam 57% das pessoas que pediram auxílio-desemprego desde o início da crise, disse Piras, acrescentando que não há dados destrinchados sobre a América Latina para comparar.

“Com base no que sabemos, me sinto confiante para afirmar que a crise irá exacerbar a disparidade de gêneros já presente na América Latina, colocando as mulheres em uma situação ainda mais vulnerável”, declarou a economista.

Empregadas domésticas são as mais vulneráveis

Cerca de 126 milhões de mulheres latino-americanas trabalham no setor informal da economia, geralmente como empregadas domésticas, faxineiras ou vendedores ambulantes, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU).

Na Bolívia, Guatemala e Peru, oito em cada dez mulheres têm trabalhos informais, disse Karina Batthyany, diretora do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais, uma rede de institutos de pesquisa. Elas “não têm qualquer tipo de cobertura previdenciária ou proteção determinada pela legislação trabalhista”, afirmou Batthyany.

Entre as mais vulneráveis, estão as milhões de empregadas domésticas da região, que contam com pouca segurança no emprego e costumam receber menos do que o salário mínimo ou estão doentes, de acordo com Adriana Quinones, representante da ONU Mulheres na Guatemala. Durante a pandemia, elas têm sido demitidas ou solicitadas para trabalhar por mais tempo sem a remuneração adequada, disse Quinones.

Trabalho não remunerado em casa

Além disso, cerca de 70% do trabalho não remunerado em casa é feito por mulheres e meninas na América Latina, e este fardo aumentou ainda mais durante o período de isolamento, afirmaram especialistas.

Com essa responsabilidade e a necessidade de cuidar dos filhos em casa, já que as escolas fecharam, muitas acreditam que será difícil voltar a fazer parte da força de trabalho remunerada.

Piras afirma que os governos precisam pensar em medidas para garantir que “as mulheres não sejam deixadas para trás” durante a pandemia, com o pagamento em dinheiro para mulheres em geral e mães solteiras em empregos de baixa remuneração ou informais.

“As perspectivas são bastante sombrias para as mulheres de baixa renda”, afirmou ela. “A menos que os governos atuem de forma mais decisiva e apresentem políticas que tenham como alvo as mulheres, que já estão em uma situação complicada, veremos uma reação muito ruim.”