Como a ‘fragilidade branca’ apoia o racismo e como os brancos podem impedi-la

Em entrevista à CNN, a escritora Robin DiAngelo elabora um guia para pessoas brancas que, assim como ela, querem se educar contra o preconceito racial

Protesto em Nova York contra racismo e violência policial
Protesto em Nova York contra racismo e violência policial Foto: Jeenah Moon/Reuters (2.jun.2020)

Sandee LaMotte, da CNN

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Se você é branco nos Estados Unidos, a escritora e consultora em questões de justiça social Robin DiAngelo tem uma mensagem para você: você é racista, pura e simplesmente, e sempre será, sem uma vida inteira de esforço consciente. É algo que não dá para evitar, porque você entrou no casulo do privilégio branco desde que saiu do ventre de sua mãe.

“Como assim eu sou racista?” – você pode estar se perguntando, indignado. Afinal, você tem colegas negros que considera amigos; não vê a cor da pele; nunca teve escravos; marchou nas manifestações dos anos 60; você até protesta hoje contra as “maçãs podres” de uniforme que usam o poder de sua autoridade para ceifar vidas e direitos das minorias.

“Como você ousa dizer que eu sou como eles?”, você pode reclamar, enquanto afaga seus sentimentos feridos e frágeis ao seu redor.

E aí – com este simples ato – você personifica o tema do livro mais vendido de DiAngelo em 2018, “White Fragility: Why It’s So Hard For White People To Talk About Racism” (“Fragilidade branca – por que é tão difícil para brancos falarem sobre racismo”, em tradução livre, sem edição no Brasil).

O que começou como um ensaio escrito em 2011 sobre injustiça racial e social se tornou um best-seller internacional, saindo das prateleiras virtuais da internet para as casas daqueles horrorizados pelos eventos recentes de racismo.

A CNN conversou com Robin DiAngelo para falar sobre os protestos dos dias atuais, como eles se encaixam na história do movimento pelos direitos civis e o que os brancos precisam fazer agora. A conversa foi editada para ter mais fluidez e clareza.

Vivemos um momento “Me Too” para a igualdade racial ou a conversa vai desaparecer como aconteceu no passado?

Robin DiAngelo: Acho que há algumas coisas diferentes neste momento. Primeiro, ele está se mantendo. Não é apenas uma marcha, um protesto. É um movimento em andamento e que se espalha pelo mundo.

Existe um discurso na grande mídia que eu acho que nunca ouviria em minha vida. Aqueles de nós que batem nessa tecla há anos estão finalmente ouvindo frases como “racismo sistêmico” usado na mídia convencional.

Os dois livros mais vendidos no mundo atualmente são sobre racismo, um escrito por mim, uma pessoa branca, e outro escrito por Ibram X. Kendi, uma pessoa negra. Você pode pesquisar no Google “O que as pessoas brancas podem fazer agora?” e vai ser inundado com excelentes listas de recursos e orientações.

Há uma discussão sobre reparações para os descendentes de africanos escravizados acontecendo no espaço de debate democrata. Pela primeira vez na história, acho, uma pesquisa recente mostrou que mais norte-americanos brancos acreditam que há vantagens em ser brancos do que aqueles que não acreditam nisso.

São avanços imensos. Mas que precisam ser mantidos e estou um pouco preocupada com o que acontece quando as câmeras são desligadas. É aqui que me lembro da teoria do ponto da virada do [jornalista e autor] Malcolm Gladwell: só é preciso ter 30%. Quando fico desanimada, me lembro disso porque penso: “temos 30%. Vamos continuar”.

Mas quero ir além e dizer que há uma diferença neste momento. Estou arrasada que a gente tenha pagado esse preço: testemunhar mais um – não apenas um, mas mais um – negro assassinado da maneira mais insensível e pública possível.

Tomara Deus que esse momento não seja desperdiçado no sentido do que ele despertou.

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Seu livro “Fragilidade branca” afirma que os brancos estão perpetuando o racismo por serem frágeis demais para discutir o assunto de maneira aberta e honesta. Como os brancos podem ser frágeis se temos privilégios de brancos?

Robin DiAngelo: É exatamente por isso que somos frágeis. Vivemos uma experiência muito insular. Raramente fomos desafiados em nossa visão de mundo racial. Nos movemos em uma sociedade em que a desigualdade racial é a base do conforto racial como pessoas brancas e raramente estamos fora de nossas zonas de conforto racial.

A maioria dos brancos nasce e morre em meio à segregação racial, sem relacionamentos sustentados autênticos entre diferentes raças, principalmente com pessoas negras. Não estou falando de conhecidos. Mostre-me o seu álbum de casamento. Essa é uma medida mais verdadeira de quem está no seu círculo de amizade e sentado à sua mesa.

Muitos de nós passamos nossas vidas em segregação sem notar nenhum valor perdido. Essa é a mensagem mais profunda de todas: a de que poderíamos ir do berço ao túmulo e não notar nenhum valor perdido por não termos um relacionamento autêntico com os negros.

Em vez disso, usamos a ausência deles como a medida de valor do nosso espaço. O que é um bom bairro? O que é uma boa escola? Medimos se uma escola é boa em grande parte pela ausência de afro-americanos nessa escola.

Essas são mensagens tão profundas. Eu nunca usaria a palavra que começa com “n” [inicial de uma séria ofensa racista nos EUA], mas ainda assim internalizei essa mensagem. E isso se manifesta todos os dias da minha vida de várias maneiras.

Como pessoa branca, assumo que sou especial, diferente e única, e que você me responderá dessa maneira. Nunca me ocorreu que a polícia seria chamada enquanto eu esperava na Starbucks por um amigo antes de tomar meu café. Ou que alguém chamasse a polícia porque eu disse: ‘Você poderia, por favor, usar uma coleira no seu cachorro?’ Ou que eu seria executada na rua por um crime mesquinho que ninguém havia provado que eu fiz ainda, e que não haveria consequências para meus assassinos. Não consigo entender isso.

E como raramente me sinto desconfortável, raramente não sou vista como pessoa única e especial, recebedora de objetividade e com direito a essas coisas.

Mais: quando me desafiam e dizem que são privilégios, reajo. Fico ofendida. Não estamos acostumados a ser vistos como brancos e, de certa forma, nos sentimos expostos – o que nos torna frágeis nessas conversas.

O termo ‘fragilidade’ trata do pouco que é necessário para nos expulsar de nossas zonas de conforto racial, mas nossa reação não é nada frágil em seu impacto. Nós atacamos de maneiras que realmente acabam sendo punitivas para quem nos desafiou, mas altamente eficazes para repelir o desafio.

O impacto é uma atitude defensiva armada, sentimentos feridos e sensação de ser ofendido, porque reúne o peso da história e do poder institucional. Temos de trabalhar para construir nossa resistência. Mas não vamos construí-la se acreditarmos que apenas as pessoas que intencionalmente querem machucar os outros com base na raça possam fazer isso.

Se alguém lhe dissesse: “Não entendo como fui moldado pela minha brancura”, o que você responderia?

Robin DiAngelo: Digo assim: quando sua mãe estava grávida de você, que escolha ela teve sobre o lugar onde morava? Qual era a qualidade da água, do solo e do ar naquele ambiente?

O indicador número um de onde um depósito de lixo tóxico será colocado é a composição racial da comunidade. No caso da água, pense na cidade de Flint, Michigan.

Que dieta estava disponível para ela? Que tipo de transporte? Que tipo de assistência médica? Como o parto de sua mãe foi trabalhado?

O racismo na área da saúde está bem documentado – uma pesquisa recente mostrou que mais de 50% dos médicos residentes acreditam que os negros sentem menos dor. E essa crença certamente afeta a maneira como o trabalho de parto de uma mãe negra é gerenciado. Quem era o dono do hospital em que você nasceu? Quem tirou o lixo e lavou os lençóis?

Como pessoa branca, você nasceu em uma hierarquia racializada, cujas forças estavam operando em sua vida antes mesmo de respirar pela primeira vez e continuaram operando por toda a sua vida desde então.

Temos que começar por aí – e não para que possamos ver o quanto somos ruins, mas porque trazemos tudo isso conosco.

Você escreve sobre os “pilares” que sustentam a fragilidade branca. O que eles são?

Robin DiAngelo: As pessoas me perguntam frequentemente o que causa a fragilidade branca. Não se trata de algo único. Temos individualismo, que achamos que é algo que pode nos isentar. Aparentemente, muitas pessoas brancas não entendem a socialização, ou seja, como nosso ambiente moldou quem somos.

Nós literalmente pensamos que olhamos o mundo através de olhos objetivos e, portanto, estamos isentos de racismo.

Temos universalismo, que é esse sentido de que podemos falar por todas as pessoas. Não temos um ponto de vista, não estamos falando de nenhuma posição específica.

Veja o cinema, por exemplo. Spike Lee é sempre visto como um diretor de cinema negro que faz filmes sobre questões negras e sempre mencionamos a raça de Spike Lee. Mike Leigh é um diretor de cinema branco, mas ele é apenas um ótimo diretor de cinema que faz filmes sobre a condição humana. Nós nunca mencionamos a raça de Mike Leigh e continuamente concedemos a Mike Leigh a capacidade de falar por toda a humanidade, de alguma posição neutra sem corpo.

Não entendemos que objetividade e individualidade são privilégios, não são concedidos a todos.

A superioridade internalizada é outro pilar. É difícil admitir isso, mas a pesquisa é muito clara: entre os três e os quatro anos de idade, todas as crianças sabem que é melhor ser branca. E muitos pais me perguntam sobre como ensinar seus filhos a não serem racistas, mas precisam começar por si mesmos. Eles próprios não são educados no tema. Não fizeram o trabalho de casa. Não é uma simples conversa. É como colocar sua máscara de oxigênio primeiro e, em seguida, verificar se você pode colocar nos outros, ou seja, se você está realmente integrando isso à sua vida, isso aparecerá em tudo o que você fizer.

Um dos pilares brancos mais importantes é o que chamo de binário bom/ruim: você é racista ou não. Se você é racista, você é ruim. Você é intencional e conscientemente mau com as pessoas baseado na raça. E se você não é racista, é bom, é legal e tem uma mente aberta. O que isso configura é que ser uma boa pessoa e ser cúmplice do racismo se tornam mutuamente excludentes.

Acho que essa é a raiz de quase toda a linha de defesa branca – aquela definição simples de que o racismo precisa ser consciente e intencional para ser válido.

Pense em como as pessoas se defendem quando alguém diz que o que acabaram de fazer era racista: Elas dizem: ‘Não tive essa intenção, não sou racista’. Elas vão fazer com que seus amigos digam: ‘Nossa, ele é uma pessoa muito legal, então ele não pode ser racista’.

Todo ato de racismo que você pode imaginar provavelmente foi cometido por alguém que disse não ser racista. Amy Cooper [mulher que recentemente ligou para a polícia ao ver um homem negro no Central Park, NY] disse que não é racista.

Robin DiAngelo
Robin DiAngelo é famosa por escrever sobre ‘fragilidade branca’ mas destaca: “nunca entenderemos o que precisamos saber sobre racismo se ouvimos só pessoas brancas”
Foto: Reprodução/RobinDiAngelo.com

Você diz em seu livro que progressistas brancos podem ser mais difíceis do que racistas declarados quando se trata de conversas sobre raça. Acredito que você diz que muitos negros veem isso como racismo em milhares de pedacinhos.

Robin DiAngelo: Ouvi muitos negros dizendo: “Quero ouvir aquele racismo das antigas, falado na minha cara. Aquele do [ativista neonazista e antissemita] Richard Spencer. Dele eu sei como me proteger. Eu sei de onde Richard Spencer vem”.

Não quero minimizar a perigo do crescimento do movimento alt-right, mas a maioria dos negros não está interagindo com Richard Spencer no dia a dia. São as pessoas brancas bem-intencionadas no local de trabalho predominantemente branco que deixam os negros exaustos no fim do dia, se perguntando se vale a pena tentar discutir o racismo. É isso que eu quero dizer com dano diário.

Os brancos que se consideram liberais podem ser os mais duros, defensivos, resistentes e arrogantes, por terem certeza de que não são racistas. Eles têm muita energia para fazer com você pense que eles não têm problema algum, daquele jeito que faz a gente revirar os olhos.

Há uma pergunta que faço a pessoas de cor há 20 anos: quantas vezes você tentou dar a uma pessoa branca (que pensa ter a mente aberta e ser sensível ao racismo) um toque sobre seus pressupostos e comportamentos racistas inevitáveis e frequentemente não intencionais, mas prejudiciais – e isso foi bom para você?

A resposta mais dada para essa pergunta? Nunca.

Tenho certeza de que muitos brancos liberais que estão lendo isso ficarão mortificados ao pensar que eles são o problema. Como podem deixar de ser?

Robin DiAngelo: Não tenho certeza de que podemos acabar com isso completamente, mas podemos procurar causar menos danos por meio da educação. A chave é você aprender e crescer com seus erros. Você não usa isso como desculpa para virar as costas.

Você provavelmente já viu essa reação de pessoas brancas: “Ah, então esquece. Eu não estou falando nada.” E daí mudam de assunto e saem. Alguma atitude defensiva é natural, mas não uma atitude defensiva que o desculpe por se calar e recusar aprender e crescer.

Se você acha que sou eficaz ao articular o que preciso, digo que isso é resultado de milhares de erros ao longo dos anos e de tentar aprender e crescer com esses erros. E é também por isso que as pessoas de cor na minha vida confiam em mim, porque me viram nesse processo. Eles não vão desistir de mim se meu condicionamento vir à tona.

Não acho que, na minha vida, estarei livre do meu condicionamento racista. E, na verdade, não me considero antirracista – as pessoas de cor é que decidem quando quiserem se estou realmente me comportando de maneira antirracista.

Costumo dizer que é preciso tentar causar menos danos. Seja cuidadoso, mas não seja extremo a ponto de não correr riscos, porque isso protege apenas você.

Por que um livro sobre racismo escrito por uma mulher branca está sumindo das prateleiras e ecoando entre as pessoas neste momento?

Robin DiAngelo: Acho que tenho uma maneira de falar sobre o racismo, e de explicá-lo, que é muito mais difícil de negar. Você não pode me rejeitar por ser tendenciosa, sensível demais ou por estar usando a minha raça a meu favor. É uma espécie de piscadinha entre pessoas brancas: “Você sabe e eu sei, vamos lá, a gente sabe”.

Mas quero enfatizar que nunca entenderemos o que precisamos saber sobre racismo se ouvimos só pessoas brancas. Por muito tempo, procuramos as pessoas de cor como se estivéssemos fora da raça e elas fossem as detentoras de conhecimento racial. E, mesmo assim, se não concordarmos com o que elas nos dizem, em nossa arrogância, descartamos essa opinião.

Procurar sempre as pessoas de cor para essas respostas significa colocar um peso enorme sobre elas. E essa é outra razão pela qual acho que as pessoas estão começando a perceber que precisamos começar a nos olharmos. É um relacionamento, certo?

Há muito a ser feito. Quais são as principais coisas que os brancos podem fazer agora para começar a fazer uma mudança mais permanente?

Robin DiAngelo: Tantas pessoas brancas estão perguntando agora o que podem fazer. Proponho, então, cinco tarefas.

A primeira é tirar a afirmação ‘eu não sou racista’ do seu vocabulário. Se você não entende por que peço que você remova essa afirmação sobre você mesmo, então você precisa mesmo se educar sobre o tema.

A segunda coisa é responder à pergunta: o que significa ser branco? Descreva como sua raça moldou todos os aspectos de sua vida a partir do momento em que você respirou pela primeira vez. Pergunte-se como ser branco moldou o jeito de você se ver como único, especial ou diferente.

A terceira é pegar um pedaço de papel e começar a fazer uma lista em resposta a esta pergunta: ‘Como consegui ser um profissional adulto que trabalhava plenamente e não sabia o que fazer com o racismo?’

Sua lista pode ter itens como: não fui educado sobre racismo. Não falo de racismo com as pessoas da minha vida. Não falo de racismo com pessoas de cor. Eu de fato não conheço nenhuma pessoa de cor. A verdade é que não me importo em descobrir. Não quero me sentir culpado.

O que quer que esteja nessa lista é o seu mapa e tudo pode ser tratado, não rapidamente, não facilmente, mas tudo pode ser resolvido. Em quarto lugar, faça o Desafio de 21 dias de construção de hábitos raciais (em inglês) do doutor Eddie Moore Jr. É uma tarefa ativa e participativa, e ela o colocará em um caminho ativo pelo resto de sua vida.

Por fim, o número cinco: você não pode entender o racismo se apenas ouvir pessoas brancas. Leia tudo o que puder de pessoas de cor, ouça pessoas de cor, assista a seus vídeos, leia o livro “Me and White Supremacy” (“Eu e a Supremacia Branca”, em tradução livre), de Layla Saad, e faça seu trabalho. Volte sua atenção para ouvir o que os negros e as pessoas de cor nos dizem há séculos.

É libertador começar com a premissa de que não há como evitar a internalização de uma visão racista do mundo. É libertador entender por que você precisa parar de dizer que não é racista. Isso abre tudo nessa jornada.

Você vai parar de defender, desviar, negar e enfiar a cabeça na areia. Sim, às vezes é doloroso, mas não há nada mais estimulante e desafiador como crescimento em todos os níveis possíveis do que esta jornada. Você terá relacionamentos que nunca teve antes e poderá alinhar o que diz acreditar com a prática real de sua vida.

(Entrevista traduzida da CNN Internacional, clique aqui para ler o original em inglês)

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