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    Corpo de Neruda, presos no subsolo do estádio e mais: 10 fotos de Evandro Teixeira que retratam o golpe no Chile

    Em setembro de 1973, o fotojornalista brasileiro se arriscou em meio a militares chilenos para retratar o golpe de Estado no país, que completa 50 anos

    O fotojornalista Evandro Teixeira registrou os primeiros dias após o golpe de Estado do Chile, que completou 50 anos
    O fotojornalista Evandro Teixeira registrou os primeiros dias após o golpe de Estado do Chile, que completou 50 anos Evandro Teixeira/Acervo IMS

    Salma Freuada CNN

    São Paulo

    Baiano radicado no Rio de Janeiro, Evandro Teixeira, de 87 anos, ainda se lembra com clareza dos fatos mais marcantes em seus mais de 45 anos como fotojornalista.

    Uma de suas coberturas de maior destaque aconteceu em setembro de 1973, quando ele foi enviado pelo Jornal do Brasil para acompanhar o início de uma história que duraria 17 anos, a ditadura chilena.

    O golpe de Estado no Chile começou com bombardeios no Palácio de La Moneda, sede do governo federal em Santiago, e terminou com mais de 40 mil vítimas, entre mortos, desaparecidos, presos e torturados.

    Em 12 de setembro, dia seguinte ao bombardeio, à morte do presidente Salvador Allende e à ascensão dos militares ao poder por meio de um golpe, Evandro viajou para o país na companhia do repórter Paulo César Araújo.

    Eles conseguiram entrar no país apenas no dia 21, depois de ficarem retidos até o dia 20 em uma cidade fronteiriça da Argentina com cerca de 50 outros jornalistas que aguardavam autorização de entrada.

    Durante seu período no Chile, Evandro mostrou aos brasileiros, aos chilenos e ao resto do mundo o que se tornaria uma das ditaduras mais sangrentas da América Latina.

    À CNN, Evandro Teixeira contou os bastidores por trás de algumas das dezenas de fotos que tirou no período em que ficou no país. Confira:

    1 – 22/09/1973: Manifestantes presos no Estádio Nacional

    Arquibancada do Estádio Nacional em Santiago do Chile / Evandro Teixeira/Acervo IMS

    No dia 22 de setembro, as Forças Armadas do Chile levaram os correspondentes estrangeiros para uma visita ao Estádio Nacional, na capital Santiago, para tentar acabar com os rumores de que as pessoas ali aprisionadas tinham seus direitos humanos violados.

    Parte dos detidos foi colocada nas arquibancadas, dispostos de forma que os jornalistas registrassem imagens que confirmassem o discurso oficial.

    “Os militares falavam: ‘olha aqui meus meninos, como estão bem tratados, bonitos”, conta Evandro, um dos estrangeiros presentes no local.

    2 – 22/09/1973: Presos políticos encarcerados no subsolo do Estádio Nacional

    Presos no subsolo do estádio / Evandro Teixeira/Acervo IMS

    O estádio funcionou como o maior campo de concentração da ditadura chilena desde os primeiros dias após o golpe até novembro de 1973. Cerca de 12 mil presos políticos passaram por lá.

    Evandro foi um dos que revelou a realidade. “Enquanto o coronel falava, fui saindo de leve. Já tinha fotografado aquela cena toda e eu sabia como chegar no porão. Lá, vi os estudantes presos, e alguns no paredão. Eu e outros quatro, cinco, fotografamos a cena e ‘zarpei’. ‘Maluco, se eles me pegam, aí’, pensei”.

    “Eu já conhecia o estádio. Eu vivi lá durante 40 dias, na Copa do Mundo de 62, quando fui fazer cobertura”, explica.

    3 – 24/9/1973: Corpo do poeta Pablo Neruda na Clínica Santa Maria

    Corpo de Pablo Neruda / Evandro Teixeira/Acervo IMS

    O poeta Pablo Neruda, ex-senador pelo Partido Comunista do Chile, era conselheiro próximo de Allende. Por isso, depois da morte do presidente, jornalistas começaram a questionar o paradeiro do poeta.

    Evandro Teixeira conseguiu encontrá-lo. Após ficar próximo de um embaixador e da esposa de um militar, obteve a informação de que Neruda estava internado na Clínica Santa Maria.

    Os amigos disseram ao brasileiro: “Ele [Neruda] vai estar na Clínica Santa Maria. Você vai lá amanhã, fala com o diretor e vê o que consegue”.

    “O diretor me recebeu muitíssimo bem, conversou comigo, foi atencioso”, conta Evandro. Mesmo assim, não o autorizou a visitar o quarto em que estava Neruda e sua esposa, Matilde.

    “Ele disse: ‘eu não posso. Vou fazer o seguinte: eu vou abrir a porta dois centímetros para você dar uma olhada e dar um alô para dona Matilde, mesmo que ela não escute’. E assim foi feito. Eu disse: ‘dona Matilde, melhoras para o nosso professor, nosso grande mestre’, e ele fechou a porta. Não sei nem se ela escutou”, conta.

    Evandro foi embora do hospital com a promessa de que poderia ligar para o diretor às 22h30 e receber o boletim médico das 22h. “Assim foi feito. Liguei às 22h20 e ele disse: sr. Evandro, lamento muito, mas eu queria te dizer que nosso poeta maior faleceu’”.

    Evandro repassou a notícia para a Rádio Jornal do Brasil e no dia seguinte foi à clínica.

    “O hospital estava cercado de policiais armados. Uma loucura. Mas eu não desisti, porque ‘eu vim aqui para fotografá-lo e ia fotografá-lo’. Eu sempre acreditava no meu trabalho e que a sorte sempre me acompanhou”.

    Ele rodou o hospital até a sorte aparecer. “De repente, abre uma porta do lado. Os militares estavam lá na porta principal. Olhei para um lado, olhei para o outro, entrei. Quando entrei fiz a foto, no susto”, lembra.

    “O Neruda estava numa maca. Quando entrei, fiz a foto e depois perguntei à Matilde: eu sou o fotógrafo do Jorge Amado, a senhora lembra?”.

    Apesar de não ser fotógrafo do escritor baiano, Evandro fotografou um encontro dele com Neruda e Matilde no Rio de Janeiro, em 1968.

    “Ela olhou para mim e disse: ‘meu filho, sua presença aqui é muito importante’. O que era importante era uma pessoa levando uma câmera fotográfica. Isso era o mais importante ali”, relembra o fotógrafo.

    Evandro foi o único a fotografar Neruda no hospital após a sua morte. Este ano, uma perícia concluiu que provavelmente o chileno não morreu de câncer, como afirma a versão oficial, mas envenenado – o que já era uma desconfiança na época.

    4 – 24/9/1973: Matilde Urrutia, viúva de Pablo Neruda, na Clínica Santa Maria ao lado do corpo do poeta

    Da direita para a esquerda: Laura Reyes (meia-irmã de Neruda), Manuel Solimano (pintor e amigo próximo do poeta) e Francisco Coloane (escritor chileno) / Evandro Teixeira/Acervo IMS

    Evandro conta que a viúva o deixou à vontade para tirar mais fotos.

    Após a segunda fotografia, a família se dirigiu a outro cômodo junto à maca. “Eu perguntei se podia entrar e ela disse: ‘venha conosco’”.

    5 – 24/9/1973: Matilde na Clínica Santa Maria ao lado do corpo do poeta

    Matilde Urrutia, viúva de Pablo Neruda / Evandro Teixeira/Acervo IMS

    Evandro fotografou o caixão sendo arrumado. “Eu olhava para trás e me perguntava: ‘mas não é possível, só eu estou aqui dentro, que loucura”. E ao mesmo tempo, eu ficava preocupado de entrar algum militar ali: “aí eu tava roubado!”.

    “Mas eu fiz a fotografia, fiz tudo aquilo, e não aconteceu nada”, relembra.

    6 – 24/9/1973: Condução do corpo de Neruda até ‘La Chascona’, a casa do poeta e de Matilde

    Amigos de Neruda, Manoel Solimano, Hernán Loyola e Nemesio Antúnez, e funcionários da funerária conduzindo o corpo do poeta / Evandro Teixeira/Acervo IMS

    Evandro seguiu com a família e amigos íntimos para “La Chascona”, a moradia do casal em Santiago. “A casa era linda, ficava no alto de um bosque”, conta Evandro.

    Para chegar na casa, era preciso passar por um riacho, que estava sem um ponto de ligação entre a terra.

    “Eu disse: ‘vamos quebrar uma tábua e construir uma ponte’. Arrancamos janela, porta e construímos uma ponte. Então, passou a dona Matilde na frente e o caixão carregado atrás. Subimos para a casa dele e, quando chegamos lá, a casa estava literalmente destruída. Era uma loucura. Era uma tristeza”, relata.

    No dia seguinte, seguiram rumo ao cemitério junto ao caixão, coberto pela bandeira do Chile.

    7 – 25/9/1973: No caminho do Cemitério Geral de Santiago, populares, simpatizantes e militantes dos partidos da União Popular começam a aderir à caminhada

    Parte dos presentes faziam parte da União Popular, coalizão de partidos que elegeu Salvador Allende em 1970, incluindo o Partido Comunista ao qual pertencia Pablo Neruda / Evandro Teixeira/Acervo IMS

    Na metade do trajeto de cerca de 4 km até o cemitério, uma multidão começou a se juntar à família e amigos de Neruda. “A história foi noticiada e as pessoas iam chegando. Dali a pouco, chegou muita gente que ia acompanhando o caixão”, conta.

    “E então chegou o exército. A gente pensou: ‘putz, vai acontecer um desastre aqui agora’”.

    8 – 25/9/1973: Exército em frente ao cemitério durante enterro de Neruda

    Cemitério Geral de Santiago / Evandro Teixeira/Acervo IMS

    Evandro conta que o exército estava no cemitério cercando as pessoas. E que o ditador Augusto Pinochet, que até então não tinha recebido a imprensa, convocou uma coletiva para tentar esvaziar o enterro de Neruda.

    Mas Evandro e vários outros jornalistas optaram por permanecer na cerimônia. E assim ele passou pelo o que chamou de “uma das aventuras mais importantes” de sua vida.

    9 – Multidão no enterro de Neruda, primeira grande manifestação pública contra o regime ditatorial de Augusto Pinochet

    Cemitério Geral de Santiago / Evandro Teixeira/Acervo IMS

    Evandro descreve a emoção do momento: “Estava lotado, as pessoas gritando: ‘viva Neruda’, ‘Neruda vivo’, ‘viva o Chile’. Eu corri na frente para tirar alguma foto ali. Subi e comecei a fotografar as pessoas chegando na tumba”.

    “Eu não aguentei, as lágrimas correram. Foi emocionante”, diz.

    10 – Entre 21 e 30/09/1973: Exército em frente ao palácio presidencial de La Moneda bombardeado durante o golpe militar

    Palácio de La Moneda bombardeado / Evandro Teixeira/Acervo IMS

    No dia do golpe, os militares bombardearam com foguetes o segundo andar do Palácio de la Moneda, sede presidencial do Chile, onde estava o presidente Salvador Allende. Quando os militares entraram para se apossar da sede do governo, Allende se matou com dois tiros.

    Evandro fotografou o edifício parcialmente destruído. Em 2005, quando voltou ao país para lançar um livro de fotografias do Chile, entregue ao então presidente chileno Ricardo Lagos, tirou uma nova fotografia – desta vez, do palácio reconstruído.

    Evandro ainda agradece por ter voltado vivo dessa cobertura. “Eu estava sempre com dor de barriga, preocupado. Mas a sorte sempre me acompanhou”.

    “Você não é o maior, o melhor, você pode ser bom, pode ser muito bom, mas tem que ter a sorte para te acompanhar, senão nada feito”.