Prime Time

seg - sex

Apresentação

Ao vivo

A seguir

    Espionagem dos EUA abandona o Oriente Médio e passa a mirar Rússia e China

    Nova fase da CIA, depois de 20 anos de ações voltadas para o Oriente Médio, prevê ações em áreas com forte influência chinesa, como a África

    Presidente da China, Xi Jinping, ao lado do então vice-presidente dos EUA, Joe Biden, em Pequim
    Presidente da China, Xi Jinping, ao lado do então vice-presidente dos EUA, Joe Biden, em Pequim Reuters

    Katie Bo Lillisda CNN

    A CIA vem revisando a forma como treina e gerencia sua rede de espiões como parte de um esforço mais amplo para fazer a transição de 20 anos de guerras contra o terrorismo e se concentrar mais em adversários como a China e a Rússia, disseram à CNN várias fontes familiarizadas com o processo.

    Depois de duas décadas de ação paramilitar intensa contra grupos islâmicos, alguns ex-oficiais e supervisores do setor de inteligência disseram que a CIA precisa voltar ao tipo de técnica tradicional e silenciosa necessária para coletar inteligência contra estados-nação complexos – em particular a China, a qual funcionários experientes reconheceram abertamente que apresenta à agência o maior desafio.

    Teoricamente, a mudança permitirá com que a CIA forneça uma equipe melhor a postos remotos vistos como críticos para a missão da China – lugares como a África Ocidental, por exemplo, que têm muitos investimentos chineses em infraestrutura, mas são vistos como muito distantes da ação para serem uma atribuição desejável, disseram as fontes.

    Isso também ajudará a garantir que a agência desenvolva funcionários com a experiência apropriada em longo prazo. Além de apenas contratar mais pessoas que falam mandarim e investir em tecnologia, a mudança atinge o cerne da CIA: seus coletores de inteligência humana.

    Essa mudança de gerenciamento de pessoal relativamente obscura pode ter um impacto significativo na vida dos espiões, principalmente no início de suas carreiras. Desde alguns anos após o 11 de setembro, os oficiais têm mais liberdade para assumir diferentes tarefas dentro da agência – em vez de ter sua trajetória já planejada.

    Feita em uma época em que a CIA precisava ampliar o número de funcionários nas crescentes zonas de guerra dos Estados Unidos, a mudança após o 11 de setembro foi polêmica entre os oficias. Embora tenha dado a eles mais flexibilidade, alguns ex-oficiais de operações dizem que o resultado foi que os funcionários receberam menos orientação e desenvolvimento de carreira planejado.

    Sob a nova política, os chamados centros de missão da CIA – as unidades dentro da agência focadas em regiões geográficas específicas ou nos desafios transnacionais – terão mais controle sobre as atribuições, o idioma e outros treinamentos que um oficial de operações recebe a longo prazo.

    Embora haja flexibilidade na nova política, dizem as fontes – os oficiais não ficarão presos exclusivamente em uma área geográfica – em geral, eles não se tornarão agentes livres até mais tarde em suas carreiras.

    Com algumas variações, a nova política é um retorno à forma como a agência administrava as carreiras de seus jovens oficiais antes das guerras contra o terrorismo.

    “A agência parece estar tentando reproduzir algumas das coisas que funcionaram bem antes de as guerras contra o terrorismo dominarem o foco de todos”, disse Thad Troy, um ex-oficial de operações que atuou como chefe de estação em várias capitais europeias. Ele advertiu que não tem conhecimento da mudança de política.

    Manter oficiais em uma área geográfica ou uma tarefa funcional “serve melhor a uma missão mundial, porque você estaria desenvolvendo e aperfeiçoando aquela área geográfica, a tarefa – ou, em alguns casos, experiência específica em ofício – e estaria dando aos oficiais um lugar para crescer, desenvolver e estabelecer orientação”, disse Troy.

    “Em geral, estamos sempre procurando maneiras de desenvolver nossa força de trabalho profissionalmente”, disse um porta-voz da CIA em um comunicado. “Nosso pessoal é a nossa prioridade”. A agência se recusou a comentar sobre detalhes de qualquer mudança na gestão de pessoas.

    Segundo as fontes, a mudança não é apenas contra a China, que o diretor da CIA, Bill Burns, listou como uma de suas principais prioridades para a agência e que passou a dominar as conversas públicas sobre o futuro da agência.

    “Estamos muito focados na China atualmente, embora eu me apresso a acrescentar que em todas as nossas conversas sobre a China, deixamos claro que somos a Agência Central de Inteligência, não somos a Agência Chinesa de Inteligência”, disse o vice-diretor David Cohen em uma recente conferência de inteligência.

    Mas, acrescentou ele, “o que percebemos é que precisamos realmente aprimorar e sincronizar nossos esforços sobre China”. 

    Um alvo duro

     O Partido Comunista Chinês é o que profissionais de inteligência chamam de um “alvo duro” – difícil para a CIA conseguir penetrar, seja através de meios digitais, ou pelo recrutamento de espiões.

    Oficiais, sejam atuantes ou não, dizem que o serviço de inteligência dos EUA dentro da China – em particular inteligência humana, o ganha-pão da CIA – é frustrantemente pobre, por uma série de razões.

    Ex-oficiais dizem que a nova mudança política poderia ajudar nesse desafio através do desenvolvimento de especialistas geográficos a longo prazo – e ajudando a colocá-los nos locais certos e com a capacidade certa.

    “Para nós, é importante para a missão como um todo em ter a experiência em uma região geográfica ou em um assunto”, disse Troy. “Você não adquire isso em seis meses, mas no curso de trabalhar com uma região ou um assunto por 10 anos ou mais”.

    De acordo com o New York Times, desde 2010, Beijing dizimou a rede de recrutamento de agentes da CIA, matando ou prendendo mais de uma dúzia de fontes ao longo de dois anos. Essas redes levaram anos para serem desenvolvidas e fontes dizem que é improvável que elas sejam recuperadas.

    Alguns críticos acreditam que o foco da agência em missões anti-terroristas – que se tornaram parte da carreira de quase todos os agentes e frequentemente tinha oficiais operando comboios blindados em países em que falavam pouco ou nada da língua local – deixou suas tradições de espionagem anêmicas.

    “A medida que missões anti-terrorismo aumentavam, o House Permanent Select Committee on Intelligence avalia que o IC tratou as missões de inteligência como secundárias”, disse um relatório de 2020 sobre as habilidades da comunidade de inteligência para anular a China. “A falta de atenção dos anos 1990 sobre ameaças estratégicas e emergentes se manteve amplamente irreversível”.

    Enquanto isso, a rápida proliferação de big data e de tecnologia de vigilância onipresente tornou o trabalho de coletores de dados de inteligência infinitamente mais difícil. Oficiais experientes reconheceram publicamente que os dias nos quais agentes da CIA podiam simplesmente pegar um passaporte novo e assumir uma nova identidade em um país diferente ficaram no passado.

    “A China emergiu como nosso desafio mais significativo e assustador”, disse recentemente a vice-diretora para inovação digital da CIA, Jennifer Ewbank, em uma conferência sobre inteligência. “Os planos e intenções de déspotas e terroristas – sobre as coisas que ainda estão para acontecer – estão se tornando mais difíceis de serem descobertos através dos meios tradicionais”.

    Ainda assim, oficiais experientes insistem que a agência não tirou os olhos da bola quando se trata de contra-terrorismo. Durante uma reunião do conselho dos CEOs do Wall Street Journal, Burns, ao ser perguntando sobre o que o deixa acordado à noite, listou China, Rússia, Irã e os “contínuos desafios anti-terrorismo que não podemos negligenciar ou deixar para trás”.

    A mudança em como a CIA gerencia seus oficiais de operações é uma das muitas feitas pela agência para ampliar suas capacidades de espionagem e análise tendo a China como alvo.

    A agência recentemente revelou publicamente o “Centro de Missões da China”, o único focado em apenas um país, ao invés de uma região do mundo. Burns também disse publicamente que ele está explorando especialistas em China em “implantações avançadas”, colocando-os em países ao redor do mundo onde tanto os EUA quanto a China tem operações.

    Além do novo centro de missões, Cohen disse recentemente em uma conferência de inteligência que a agência também adicionou um encontro semanal com Burns focando exclusivamente na China. Ele  disse também que vem direcionando mais do orçamento para o problema.

    O escritório do diretor de inteligência nacional disse em dezembro que os agentes-espiões dos EUA aumentaram seus gastos relacionados à China em quase 20% no último ano fiscal.

    Um ex-agente disse que “Nós precisamos de especialistas com profundo conhecimento linguístico e experiência operacional para nos projetar adiante nos nossos alvos de coleta”, advertindo que eles não tinham conhecimento da mudança de política.

    “Isso não significa que as pessoas não devam ter experiências diferentes, só significa que temos uma missão a executar e que isso nem sempre inclui o que desejamos individualmente”.

    (Texto traduzido. Leia o original aqui.)