EUA e China: guerra fria no Brasil pelo Twitter

Embaixadores dos dois países procuram não ficar só na guerra de palavras, mas provar que seu país está sendo mais útil ao Brasil do que o adversário

Símbolo da rede social Twitter
Símbolo da rede social Twitter Foto: Agência Brasil

Lourival Sant'Annada CNN

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Estados Unidos e China entraram em guerra no Brasil pelo Twitter, na disputa pelos corações e mentes brasileiros.

O primeiro ataque veio do embaixador americano em Brasília, Todd Chapman, que tem como uma de suas missões evitar que o Brasil aceite a entrada da gigante chinesa Huawei na frequência do 5G, a tecnologia que moldará as comunicações nos próximos anos e décadas. As mensagens, no entanto, enveredaram por outros caminhos.

Na noite de sexta-feira (10), Chapman retuitou uma denúncia relacionada à minoria muçulmana na China vinda do USA em Português, canal de propaganda do governo americano: “Esterilização em massa de mulheres uigures pelo Partido Comunista Chinês — silêncio não é uma opção.

De acordo com um novo relatório, o Partido Comunista Chinês está conduzindo uma campanha de esterilização em massa de mulheres como parte de sua repressão a uigures e outras minorias étnicas em Xinjiang”. Todd, que já serviu antes no Brasil e fala português, depois encerrou o expediente brincando com seus 48,2 mil seguidores, e fazendo propaganda de marcas americanas: “Sextou!! Mas a pergunta é — Domino’s ou Pizza Hut?”

A resposta veio à 1h da madrugada de domingo. E não era sobre a rede de pizzarias favorita do embaixador chinês em Brasília, Yang Wanming: “Olha, esse homem vem ao Brasil com a missão especial, que é atacar a China com boatos e mentiras, aconselhamos que pare de fazer atividades desse tipo e faça bem o seu trabalho. Uma formiga tenta derrubar uma árvore gigante, ridiculamente exagerando em sua capacidade”.

Yang voltou à carga na noite do mesmo domingo: “A alegação dos EUA sobre Xinjiang está entre as Maiores Mentiras do Século. A população dos uigures em Xinjiang cresceu de 5,5 milhões para 11,7 milhões em menos de 40 anos”.

O embaixador continuou convidando seus 47,7 mil seguidores a assistirem um vídeo feito por um brasileiro, que segundo ele “apresenta a verdadeira história e situação atual” da província de Xinjiang, onde se concentram os uigures. E alertou: “As mentiras dos políticos americanos não podem enganar o mundo”.

Na manhã de segunda-feira, o embaixador chinês explorou a campanha da Casa Branca contra o diretor do Instituto de Alergias e Doenças Infecciosas: “Enquanto que aumentam os casos de coronavírus nos Estados Unidos, a Casa Branca aponta ao principal especialista em doenças infecciosas do país, o Dr. Anthony Fauci. Você pode distinguir quem é responsável e quem não é”. E compartilhou reportagem sobre o assunto da CNN em Espanhol.

Todd Chapman voltou a Twitter para citar o diretor do FBI: “Deixe-me ser claro: não é sobre o povo chinês. Todo ano, EUA acolhem mais de 100 mil estudantes e pesquisadores chineses. Quando falo da ameaça da China, falo do governo e Partido Comunista Chinês”. O embaixador finalizou com uma pergunta: “Como equilibrar relações entre povos e governos?”

Chapman citou também a agência de notícias americana Associated Press:  “Dados vazados obtidos e corroborados pela AP mostraram que, dos 484 detidos listados do campo no condado de Karakax, em Xinjiang, 149 estavam lá por terem muitos filhos — o motivo mais comum…” E perguntou: “Isso reflete valores brasileiros? #NãoFiqueEmSilêncio”.

O embaixador americano cutucou também os chineses por causa do movimento pela democracia em Hong Kong, citando uma mensagem do secretário de Estado americano, Michael Pompeo: “Parabéns aos pan-democratas de Hong Kong por uma primária bem-sucedida. A eleição do Conselho Legislativo em setembro deve ser igualmente livre e justa.

Como em todos os regimes comunistas não-eleitos, Pequim teme o pensamento livre de seu povo mais do que qualquer inimigo estrangeiro”.

Os dois embaixadores procuram não ficar só na guerra de palavras, mas provar que seu país está sendo mais útil ao Brasil do que o adversário.

Yang Wanming: “O investimento de empresas chinesas no Brasil está criando mais oportunidades e auxiliará na recuperação econômica pós-pandemia. Veja o exemplo da #CMPort, que investe no Porto de Paranaguá”. O tuíte traz um link para reportagem do Canal Rural.

Chapman não ficou atrás. Anunciou, por exemplo, que o USAID, órgão americano de assistência internacional, dará US$ 6 milhões para organizações entregarem “água, serviços sanitários e de higiene, entre outros, para ajudar os brasileiros mais vulneráveis afetados pela Covid-19”. E finalizou com “#TrabalhandoJuntos”.

O embaixador mencionou também a “Plataforma Parceiros pela Amazônia”, formada por empresas privadas americanas, para lidar com o impacto da pandemia na região, com “equipamentos, produtos de atendimento a saúde e testes de detecção da Covid-19”. Aqui, o hashtag é #EmpresasEUALideram.

Noutro tuíte, o embaixador americano celebrou: “EUA e Brasil têm várias coisas em comum quando se fala de agricultura. Juntos os dois países representam metade da produção global de milho e dois terços da produção de soja. #TrabalhandoJuntos, alimentamos o mundo”.

Curiosamente, em ambos os casos, o maior comprador é a China.

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