Japão começará a liberar no mar a partir de 2023 a água tratada de Fukushima

Águas residuais devem ser liberadas no Oceano Pacífico mais de uma década após desastre nuclear; decisão foi recebida com preocupações por países vizinhos

Chie Kobayashi, Blake Essiq e Nectar Gan, da CNN

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O governo do Japão anunciou nesta terça-feira (13) que começará, a partir de 2023, a liberar no oceano mais de 1 milhão de toneladas métricas de água radioativa tratada da usina nuclear destruída de Fukushima – um plano que enfrenta oposição interna e suscita “grave preocupação” nos países vizinhos.

A decisão de liberar as águas residuais acontece mais de uma década após o desastre nuclear na usina Fukushima Daiichi em 2011, tendo sido repetidamente adiada devido a preocupações com a segurança e forte oposição dos pescadores locais, que ainda se recuperam das consequências da crise.

O trabalho para liberar a água no Oceano Pacífico começará em cerca de dois anos, e todo o processo deve levar décadas, de acordo com o governo japonês.

O primeiro-ministro Yoshihide Suga disse que lidar com a água tratada é “uma questão inevitável” para desativar a usina nuclear.

“Decidimos que garantir a segurança muito acima do padrão aceito, e garantir os melhores esforços de todo o governo para evitar danos à reputação, significa que liberar a água para o oceano é uma opção realista”, disse ele.

Funcionário de Fukushima mede nível de radiação nos arredores do reator 2
Funcionário de Fukushima mede nível de radiação nos arredores do reator 2 do complexo nuclear
Foto: Tomohiro Ohsumi – 29.jan.2020/Getty Images

 

Em 2011, um poderoso terremoto e um tsunami cortaram o fornecimento de energia e os sistemas de resfriamento da planta de Fukushima. Para evitar que os três núcleos danificados do reator derretessem, a água de resfriamento foi bombeada continuamente e, portanto, foi contaminada por combustível de urânio. A água então vazou para porões e túneis danificados e se misturou com as águas subterrâneas.

O operador da usina, Tokyo Electric Power Co., construiu tanques enormes no local para armazenar a água acumulada após o tratamento. Os tanques têm capacidade de armazenamento de 1,37 milhão de toneladas e devem ficar cheios até o final do ano que vem, segundo a empresa.

Água tratada

Em meio a preocupações com a segurança, o governo japonês enfatizou que “a água armazenada em tanques não será descartada como está”. Em vez disso, ela será tratada por meio de um sistema que remove a maior parte do material radioativo, exceto o trítio, um isótopo de hidrogênio não prejudicial aos seres humanos em pequenas quantidades.

“Antes da liberação, a água nos tanques também será diluída o suficiente para que a concentração de trítio seja muito menor do que os padrões regulatórios nacionais do Japão, que estão de acordo com os padrões internacionais”, disse o gabinete do primeiro-ministro em um comunicado.

O trítio apenas “emite radiação fraca” e seu impacto na saúde é “muito baixo”, disse o comunicado, acrescentando que operadores de reatores nucleares em todo o mundo descarregam trítio rotineiramente no mar e no ar.

O Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão disse em seu site que a água que foi contaminada só será liberada quando os produtos químicos forem diluídos a níveis muito mais baixos do que os padrões nacionais e internacionais.

O órgão acrescentou que o processo de diluição e de liberação será monitorado por terceiros, incluindo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). O diretor-geral da AIEA, Rafael Mariano Grossi, disse à CNN que “não há mal” em liberar a água tratada no mar.

“Não é como se você fosse ver o mar brilhando em roxo ou verde, e todos os peixes morreriam, e o Oceano Pacífico estaria morto. Claro que não”, disse Grossi. “Isso tem sido feito […] no Atlântico Norte e no Mediterrâneo, em muitas partes do mundo, e não há nenhum impacto ambiental adverso”.

“Não haveria qualquer autorização ou endosso, se posso dizer assim, da AIEA para uma operação que possa causar dano ou que não é ambientalmente neutra”, disse.

Preocupações dos vizinhos

As garantias de segurança dadas pelo Japão não conseguiram acalmar os temores de seus vizinhos Coreia do Sul e China.

Na terça-feira (13), a Coreia do Sul expressou “graves preocupações” com o plano de liberação das águas do Japão, dizendo que a decisão poderia “afetar direta ou indiretamente a segurança do povo coreano e do meio ambiente no futuro”.

“O governo tem enfatizado que a decisão deve ser tomada por meio de divulgação transparente de informações e consultas aos países vizinhos. Se o governo japonês decidir liberar água contaminada da usina nuclear de Fukushima sem consulta suficiente, será difícil aceitarmos”, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Coreia do Sul, Choi Young-sam, em entrevista coletiva.

Em resposta, ele disse que o governo sul-coreano planeja dobrar o monitoramento da radioatividade e fortalecer a cooperação com a AIEA e a comunidade internacional.

A China também expressou “grande preocupação”, pedindo que o Japão lide com o lançamento de águas residuais “de maneira responsável”.

Em uma declaração nesta terça, o Ministério das Relações Exteriores da China disse que o Japão não esgotou os métodos seguros de descarte e não conduziu todas as consultas aos países vizinhos e à comunidade internacional.

“O Japão decidiu unilateralmente liberar no mar as águas residuais do acidente da usina nuclear de Fukushima, o que é extremamente irresponsável e prejudicará seriamente a saúde pública internacional, a segurança e os interesses vitais das pessoas nos países vizinhos”, disse o comunicado, pedindo ao Japão que “reexamine a questão”.

Os Estados Unidos, por sua vez, mostraram apoio à decisão de seu aliado.

“Nesta situação única e desafiadora, o Japão pesou as opções e efeitos, foi transparente sobre sua decisão e parece ter adotado uma abordagem de acordo com os padrões de segurança nuclear globalmente aceitos”, disse o Departamento de Estado dos EUA em um comunicado.

“Esperamos coordenação e comunicação contínuas (do governo japonês) à medida que monitora a eficácia desta abordagem.”

Informações adicionais na reportagem de Selina Wang e Jake Kwon, da CNN, e da Reuters

(Texto traduzido; leia o original em inglês)

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