Mianmar: Forças Armadas cobram taxa para devolver corpos de manifestantes

Os valores ficam em torno de R$ 480 e são cobrados dos familiares; pelo menos 82 pessoas morreram durante a repressão da última sexta-feira (9)

Manifestantes se protegem contra o exército de Mianmar
Manifestantes se protegem contra o exército de Mianmar Foto: Hkun Lat/Getty Images

Julia Hollingswort e Akanksha Sharma, CNN

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As Forças Armadas de Mianmar estão cobrando 120 mil kyat (cerca de R$ 483) para as famílias recuperarem os corpos de parentes mortos pelos militares em uma repressão sangrenta contra os protestos na última sexta-feira (9), segundo uma publicação no Facebook da União de Estudantes da Universidade de Bago.

Pelo menos 82 pessoas morreram em Bago, localizada a 90 quilômetros a nordeste de Yangon, depois que a cidade foi “assaltada” por forças militares usando rifles, granadas propelidas por foguetes e granadas de mão, disse a Associação de Assistência a Presos Políticos (AAPP). 

Mais de 700 pessoas morreram desde que os militares derrubaram o governo eleito de Mianmar em um golpe, no dia 1º de fevereiro, de acordo com a AAPP.

Desde então, as forças de segurança da junta formadas por policiais, soldados e tropas de elite da contra-insurgência embarcaram em uma repressão sistemática contra manifestantes pacíficos e desarmados, prendendo cerca de três mil pessoas e obrigando os ativistas a se esconderem.

Uma testemunha ocular que vive na cidade de Bago, que não pode ser identificada por razões de segurança, disse à CNN que muitos residentes fugiram para vilas próximas desde a operação da última sexta. A internet foi cortada e as forças de segurança estão fazendo buscas nos bairros.

“Eu vivia na estrada principal. As forças de segurança vêm e estacionam com frequência”, informou a testemunha, acrescentando que os corpos se amontoaram no necrotério após o tiroteio. “Devido à ameaça, tivemos que nos mudar para uma casa na rua próxima”.

O serviço birmanês Radio Free Asia confirmou os relatórios da União de Estudantes da Universidade de Bago. De acordo com o jornal estatal Global New Light of Myanmar, os militares alegaram que suas forças foram atacadas por manifestantes na sexta-feira.

“As forças de segurança foram atacadas por grupos de desordeiros enquanto removiam barreiras rodoviárias solidificadas pelos desordeiros nas ruas de Bago”, relatou o veículo local, acrescentando que “os desordeiros usaram armas de fogo, garrafas de fogo, flechas, escudos e granadas feitas à mão para atacar as forças de segurança”.

Manifestante segura arma feita com canos durante protesto em Mianmar
Manifestante segura arma caseira feita com canos durante protesto contra golpe militar em Mianmar
Foto: Stringer/Reuters (3.abr.2021)

O jornal afirmou que um manifestante foi morto durante o incidente. “Evidências de granadas e munições confiscadas indicam que armas pequenas foram usadas”.

Os militares de Mianmar detiveram o presidente da Cruz Vermelha de Bago, Nay Myo, em 2 de abril. A organização confirmou à CNN que o médico voluntário não foi acusado, mas continua detido.

Outro médico voluntário que prestava assistência médica no local, Wai Yan Myo Lwin, foi detido em Bago neste domingo (11), informou sua família à CNN.

Reação à violência

Neste domingo (11), a Embaixada dos EUA em Mianmar pediu o fim da violência em sua conta oficial no Twitter. “Lamentamos a perda sem sentido de vidas em Bago e em todo o país, onde as forças do regime supostamente usaram armas de guerra contra civis”.

“O regime tem capacidade para resolver a crise e precisa começar pelo fim da violência e dos ataques”, completou o post da embaixada.

A ONG Human Rights Watch publicou uma carta nesta quinta-feira (8) solicitando que a União Europeia (UE) possa “implementar totalmente” as punições contra os militares e “adotar sanções adicionais com urgência”.

“O povo de Mianmar teve que enfrentar as balas dos militares, mas eles continuam sua luta bravamente, implacavelmente”, dizia a carta. 

“A condenação e os esforços da UE para promover a responsabilização e a justiça pelos abusos grosseiros, generalizados e sistemáticos da junta militar são bem-vindos e importantes, mas palavras e medidas parciais não são suficientes”.

Segundo o Global New Light of Myanmar, o comandante-chefe das forças armadas, general Min Aung Hlaing, defendeu o golpe durante este fim de semana, alegando que a junta “não tomou o poder, mas tomou medidas para fortalecer o sistema democrático multipartidário”. 

O porta-voz militar, major-general Zaw Min Tun, disse anteriormente à CNN que as forças de segurança estão simplesmente “salvaguardando” o país enquanto investigam uma eleição “fraudada”, e o derramamento de sangue nas ruas é culpa de manifestantes “desenfreados”.

(Este texto é uma tradução. Para ler o original, em inglês, clique aqui)

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