Peru chega ao 2º turno sem centro, com disputa acirrada e candidatos opostos

País elege seu presidente neste domingo e escolherá entre o professor de esquerda Pedro Castillo e a filha do ex-presidente de direita Keiko Fujimori

Jack Guy e Claudia Rebaza, da CNN

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Dois candidatos com visões completamente diferentes para o futuro do Peru se enfrentarão no segundo turno das eleições presidenciais do país, que acontece neste domingo (6). Eles chegam ao dia da decisão com as pesquisas apontando uma disputa acirrada e em um país arrasado por alguns dos piores números da pandemia no mundo e pela profunda recessão que ela deixou. 

Ligeiramente à frente nas pesquisas, o professor de esquerda Pedro Castillo promete maior controle do Estado sobre os mercados e os recursos naturais como maneira de levar os benefícios do crescimento econômico também para os mais pobres. Ao mesmo tempo, tem que rebater os alertas de que suas políticas transformarão a economia do Peru em um caso perdido como a Venezuela.

Do outro lado, sua rival, a candidata de direita Keiko Fujimori, busca convencer os eleitores de que o sistema econômico e político do Peru precisa de ajustes, não de uma reformulação completa – e também que sua presidência não será uma repetição das acusações de corrupção e de abuso dos direitos humanos que caracterizaram o governo de seu pai, Alberto Fujimori, presidente do país de 1990 a 2000.

Os peruanos, porém, estão mais preocupados com a forma como o país vai se recuperar da pandemia e lidar com a enorme desigualdade exposta por ela. Em 2020, o PIB do Peru caiu 11% e fez com que 2 milhões de pessoas voltassem para a pobreza, de acordo com o Banco Mundial. Foi o pior desempenho do ano em uma lista de 50 países, em que o Brasil aparece em 21º.  De acordo com dados da universidade John Hopkins, o Peru tem também alguns dos piores números da pandemia no mundo e lidera, hoje, a lista de mortes por Covid-19 em proporção à população.

Propagandas eleitorais em rua de Lima, no Peru, em 9 de abril de 2021
Propagandas eleitorais em rua de Lima, no Peru, às vésperas do primeiro turno da eleição, em abril
Foto: Angela Ponce / Getty Images

Entre as promessas de Fujimori, estão gastos massivos para pagar auxílios a todas as famílias que perderam alguém para o coronavírus e também para empréstimos a pequenas empresas para ajudar na recuperação. As propostas abarcam ainda o fornecimento de água gratuita para comunidades não atendidas pelas principais redes de abastecimento e a concessão de dois milhões de títulos de terra.

Castillo, por sua vez, promete cancelar os dois grandes e polêmicos projetos de mineração de Conga e Tía María, melhorar o sistema de aposentadorias, descentralizar as universidades públicas e criar um ministério dedicado à ciência e à tecnologia para impulsionar a industrialização.

“O que temos no Peru, em meio a uma crise de saúde e uma crise econômica, é uma espécie de competição de propostas populistas”, disse à CNN o analista político peruano Fernando Tuesta. De acordo com ele, pesquisas cada vez mais apertadas estão levando os candidatos a fazerem as promessas que acreditam que atrairão mais os eleitores.

Dois extremos, empate técnico e ‘derrota do centro’

Professor primário e líder sindical, Castillo conta com especial apoio fora da capital, Lima, nas regiões onde as pessoas têm mais dificuldade acessar serviços públicos como saúde e educação. É em torno dele que estão se aglutinando os peruanos sedentos por mudança.

Já Fujimori domina em Lima, lar de cerca de um terço da população peruana, e tem a seu lado os eleitores para quem o sistema atual está funcionando e que querem manter a esquerda longe do poder.

A filha do ex-presidente recebeu 13,36% dos votos no primeiro turno, em comparação aos 19,09% de Castillo. As pesquisas mais recentes, porém, mostram essa diferença diminuindo cada vez mais. 

Um levantamento de 28 de maio, feito pela Ipsos para o jornal El Comercio, mostrou um empate técnico, com 51,1% para o candidato de esquerda e 48,9% para Fujimori. “É um confronto direto entre quase dois extremos do espectro político”, disse Tuesta. “O centro político foi o grande derrotado no primeiro turno.”

Três presidentes em uma semana

Os peruanos voltam hoje às urnas para escolher seu novo presidente depois de um período de enorme instabilidade política. 

No ano passado, o atual presidente interino, Francisco Sagasti, tornou-se o quarto presidente em menos de cinco anos. Em novembro, o antecessor Martin Vizcarra teve seu impeachment pelo Congresso, em meio a denúncias de corrupção, e seu substituto, Manuel Merino, renunciou poucos dias depois de assumir, em meio a protestos que tumultuaram as cidades do país. 

Do impeachment de Vizcarra à chegada de Sagasti, o líder atual, foram três presidentes em pouco mais de uma semana.

As novas eleições também acontecem após uma experiência devastadora da Covid-19. Dados divulgados recentemente no país mostraram que o Peru teve pior taxa de mortalidade pela doença no mundo. Os primeiros dias de vacinação no Peru, no começo do ano, também foram marcados por escândalos envolvendo políticos e autoridades que estavam furando a fila.

Qualquer que seja o candidato que saia vitorioso neste domingo, terá que lidar com um Congresso tão fragmentado como o dos últimos anos, justamente uma das fontes da instabilidade que se viu. E essa instabilidade, de acordo com Tuesta, pode aumentar conforme os grupos parlamentares se fragmentem ao longo dos próximos cinco anos de mandato. 

“É difícil para um governo contar com uma coalizão que garanta a estabilidade por cinco anos”, disse o cientista político. “No Peru, ano que vem já é longo prazo; aqui o jogo é jogado em uma base de curtíssimo prazo.”

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