Queda das emissões de gases estufa durante a pandemia está quase sendo revertida

Estudo publicado no periódico Nature Climate Change apontou que grande parte dos investimentos feitos para tirar economia da crise está em setores poluentes

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Indústria Foto: SD-Pictures/Pixabay

Ivana Kottasová, da CNN

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As emissões globais de gases que retêm o calor caíram dramaticamente no ano passado, quando a pandemia forçou grande parte do mundo a uma paralisação. Mas novos dados mostraram que eles estão se recuperando – e rápido.

Medidas de bloqueio para conter a propagação do coronavírus causaram uma queda de 7% nas emissões de CO2 ao longo de 2020, a maior queda já registrada, diz um estudo publicado, quarta-feira (25), no periódico científico Nature Climate Change.

Mas seus autores alertam que, a menos que os governos priorizem o investimento sustentável na tentativa de impulsionar novamente suas economias em dificuldade, o mundo verá uma forte recuperação nas emissões, com consequências potencialmente catastróficas.

Corinne Le Quéré, uma das autoras do estudo e professora de ciência da mudança climática na Universidade de Ânglia Oriental, na Inglaterra, disse que a grande queda induzida pela pandemia nas emissões em abril teve vida curta.

Depois que os bloqueios começaram a diminuir, as emissões voltaram com força.

“Porque nada mudou ao nosso redor”, disse ela. “As medidas de confinamento são uma mudança de comportamento forçada, não são duradouras”.

E embora a batalha mundial com a Covid-19 esteja longe do fim, as emissões já se recuperaram.

Novos dados da Agência Internacional de Energia (IEA), publicados na terça-feira (02), mostraram que as emissões globais relacionadas à energia foram, na verdade, 2% maiores em dezembro de 2020 do que no mesmo mês do ano anterior, apesar de muitos lugares no mundo ainda enfrentarem bloqueios.

Fatih Birol, diretor executivo da IEA, disse que a recuperação nas emissões de carbono foi “um aviso de que não está sendo feito o suficiente para acelerar as transições para energia limpa em todo o mundo”.

“Se os governos não agirem rapidamente com as políticas energéticas corretas, isso pode colocar em risco a oportunidade histórica mundial de fazer de 2019 o pico definitivo das emissões globais”, disse ele em um comunicado.

A queima de combustíveis fósseis em carros, aviões e usinas de energia – bem como por meio de outras atividades humanas – libera CO² na atmosfera, onde se acumula como um cobertor e aprisiona a radiação que, de outra forma, escaparia para o espaço. Isso faz com que as temperaturas na Terra aumentem, o que está relacionado a condições climáticas mais extremas, derretimento do gelo e aumento do nível do mar. E quanto mais carbono é emitido para a atmosfera, mais o planeta aquece.

De acordo com o Acordo Climático de Paris, de 2015, a maioria dos governos mundiais concordou em tentar limitar o aquecimento global a menos de 2ºC e o mais próximo possível de 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais.

Os especialistas alertaram repetidamente que ultrapassar o limite contribuirá para mais ondas de calor e verões quentes, maior aumento do nível do mar, piores secas e chuvas intensas, incêndios florestais, inundações e escassez de alimentos para milhões de pessoas.

De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas, as emissões globais de CO2 precisam cair, até 2030, cerca de 45% em relação aos níveis de 2010, e chegar a zero até 2050 para que o mundo tenha a chance de manter o aquecimento em 1,5 graus Celsius. Para conseguir isso, o mundo precisa reduzir as emissões entre 1 gigatonelada (1 milhão de toneladas) e 2 gigatoneladas a cada ano até 2030.

Essas quedas são semelhantes em tamanho à observada no ano passado: Le Quéré e os outros pesquisadores estimam que as emissões globais caíram 2,6 gigatoneladas em 2020. A emissão total foi de 34 gigatoneladas. Mas essa queda foi temporária e teve um custo enorme para a economia.

A chave para o futuro é descobrir como alcançar essas quedas significativas sem prejudicar a economia. Para fazer isso, os autores dizem que o investimento em energia renovável e uma recuperação sustentável é vital.

“É um ano crucial para enfrentar as mudanças climáticas, não apenas porque já estamos em 2021, mas, além disso, estamos fazendo todos esses investimentos pós-Covid e se isso for para o lugar errado, pode realmente nos prender em um uma trajetória muito intensa de consumo de (combustível) fóssil, ao passo que, se investirmos no lugar certo, isso pode reverter a curva de emissões”, disse Le Quéré.

Ela acrescentou que, embora muitos países tenham adotado metas ambiciosas de reduzir as emissões para zero líquido até 2050 ou 2060, ainda faltam muitos detalhes sobre como eles planejam chegar lá.

Apesar das promessas, há evidências crescentes de que os governos do mundo não estão tomando medidas suficientes.

De acordo com o Índice de Estímulo Verde, desenvolvido pelo grupo de consultoria econômica Vivid Economics, a maior parte do dinheiro comprometido com a recuperação pós-Covid está indo para projetos que são totalmente ruins para o clima ou que são, na melhor das hipóteses neutro.

O grupo descobriu que do estímulo total de US$ 14,9 trilhões injetados até agora, apenas US$ 1,8 trilhão foram para projetos verdes, enquanto US$ 4,6 trilhões foram canalizados diretamente para setores que têm “um grande e duradouro impacto nas emissões de carbono e na natureza”.

Os novos dados da IEA também corroboram a ideia de que grande parte da recuperação está sendo alimentada por setores poluentes e que, em alguns casos, as reduções de emissões vistas no primeiro semestre de 2020 foram mais do que compensadas por aumentos dramáticos posteriores.

A China, maior emissora mundial de gases de efeito estufa, teve uma queda de 12% nas emissões em fevereiro de 2020 em comparação com o mesmo mês de 2019, segundo a AIE.

Mas as emissões se recuperaram rapidamente depois que a economia do país voltou a crescer, em abril de 2020 e, no resto do ano, as emissões mensais foram em média 5% maiores em comparação com os níveis de 2019. Essa recuperação significou que, apesar da grande queda de fevereiro, as emissões na China, na verdade, aumentaram 0,8% durante todo o ano de 2020.

“A China é tão grande, com bem mais de um quarto das emissões globais. O que quer que aconteça na China deixa uma grande impressão digital no que é feito no mundo”, disse Glen Peters, diretor de pesquisa do Centro CICERO para Pesquisa Climática Internacional.

Peters disse que a forte recuperação nas emissões mostra o quão desafiador será para a China atingir sua meta de se tornar neutra em carbono até 2060. “Isso é bastante ambicioso para a China, dada sua grande dependência do carvão”, disse ele.

A China não é o único local problemático. Desde setembro do ano passado, as emissões na Índia voltaram a ficar acima dos níveis de 2019. No Brasil, elas superaram os níveis de 2019 ao longo do último trimestre, mostram os dados da IEA.

E embora as emissões nos Estados Unidos tenham caído 10% em 2020, no geral, elas começaram a se recuperar no final do ano. Em dezembro, as emissões dos EUA estavam se aproximando do nível visto no mesmo mês do ano anterior, disse a IEA.

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