Sem sucessor à vista, Xi Jinping chega à grande reunião do Partido mais forte

A falta de previsão de sucessores para Jinping pode ser interpretada como prova de que o poder do líder está mais consolidado do que nunca

O presidente da China, Xi Jinping
O presidente da China, Xi Jinping Foto: Carlos Garcia Rawlins / Reuters

Análise de Ben Westcott,

da CNN

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Em março de 2020, a reunião anual do congresso nacional da China em Pequim foi adiada pela primeira vez em décadas. Naquele momento, o presidente chinês Xi Jinping tentava manter controle sobre o que rapidamente se tornaria um pandemia global.

Um ano depois, o evento do alto escalão chinês deve começar na sexta-feira (5), seguindo as tradições pré-pandêmicas, em uma atmosfera de triunfo para o Partido Comunista Chinês e para Xi, que emergiu da crise mais poderoso do que nunca.

A pandemia do coronavírus foi praticamente controlada dentro das fronteiras da China. Ao mesmo tempo, a economia do país se recuperou rapidamente dos danos causados pela pandemia. Espera-se que a China ultrapasse os Estados Unidos como a maior economia do mundo em 2028, cinco anos antes do que o estimado anteriormente.

O sucesso de Xi em lidar com a pandemia demonstrou ao Partido Comunista e a todos os críticos remanescentes que “mesmo a pandemia não poderia afetá-lo”, disse Steven Tsang, diretor do Instituto SOAS China.

Agora, segundo especialistas, Xi está trabalhando para consolidar seu lugar no panteão dos líderes chineses antes do 100º aniversário da fundação do Partido Comunista em julho, procurando colocar-se no mesmo patamar do fundador da República Popular da China, Mao Zedong.

O mandato inicial de 10 anos de Xi como secretário-geral do Partido termina em novembro de 2022. Mas, em um momento no calendário político da China em que normalmente se espera que surja um sucessor claro, Tsang disse que há apenas um candidato provável para o cargo principal do Partido Comunista.

“Nós sabemos exatamente quem é o sucessor de Xi Jinping, está ainda mais claro do que nunca”, disse Tsang. “É Xi Jinping”.

Xi triunfante

Partido Comunista Chinês
Reunião anual do Partido Comunista Chinês em maio de 2020
Foto: REUTERS

Tradicionalmente no mês de março, o Congresso Nacional do Povo (NPC) e a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC) se reúnem para uma dupla reunião para aprovar ou endossar a legislação. O momento é conhecido informalmente como as Duas Sessões.

A reunião deste ano vai aprovar o 14º Plano Quinquenal, o vasto plano que estabelecerá as prioridades administrativas para a China até 2025 e cobrirá tudo, desde o desenvolvimento econômico até as mudanças climáticas e a pesquisa tecnológica.

Mas, em 2021, as Duas Sessões também discutirão uma visão para o desenvolvimento da China até 2035, um plano bastante longevo do qual os detalhes são, em sua maioria, desconhecidos.

O plano de longo prazo pode indicar por quanto tempo Xi se vê no poder, de acordo com Bill Bishop, especialista em política da China e autor do boletim Sinocism. É apenas uma das maneiras pelas quais os especialistas veem Xi aumentar seu controle após o sucesso no tratamento da pandemia pela China.

Em novembro passado, o Partido Comunista Chinês anunciou que havia alcançado sua meta de eliminar a “pobreza absoluta” na China, cumprindo promessa feita por Xi em discurso em 2015.

Bandeira da China
Bandeira da China
Foto: Divulgação / Pixabay

Em uma grande cerimônia no dia 25 de fevereiro, feita para homenagear essa conquista, Xi elogiou em um discurso sua própria visão de olhar para a questão da “pobreza real”.

Nos últimos meses, a mídia estatal chinesa vem elogiando o papel de Xi na erradicação da pobreza absoluta. Em 23 de fevereiro, Xi foi longamente saudado em um artigo de página inteira no “Diário do Povo”, jornal do Partido Comunista. “Os olhos do secretário-geral Xi Jinping sempre prestam atenção às pessoas”, diz um trecho.

Poucos dias antes do início das Duas Sessões, o “Diário do Povo” publicou outro longo artigo elogiando o envolvimento de Xi no 14º Plano Quinquenal, descrevendo-o como alguém que teve “a visão ampla e a coragem extraordinária de um político e estrategista marxista”.

Carl Minzner, professor da Fordham Law School, escreveu uma série de tuítes em sua conta oficial em 3 de março abordando a mudança na forma que alguns veículos da mídia estatal chinesa escreviam sobre Xi.

“Nesses artigos, Xi é o foco. Ele é quem está fazendo as coisas acontecerem. Não se trata do Partido. Não se trata de instituições. Não se trata de outros líderes. Trata-se dele”, disse Minzner.

Ao mesmo tempo, antes do 100º aniversário do Partido Comunista, Pequim lançou em fevereiro uma “Campanha de Estudo da História do Partido”. Em um comentário, a agência de notícias estatal Xinhua disse que era necessário “unificar o pensamento dos membros e elevar seu moral”.

Bishop acha que a campanha também reforça o lugar de Xi na história do Partido Comunista, dividindo os últimos 70 anos de governo do Partido em três eras: a de Mao, a do líder supremo Deng Xiaoping e agora a de Xi.

“Não acho que veremos o apagamento de Deng ou Mao, mas certamente uma tentativa de elevar Xi pelo menos ao nível de Mao”, opinou.

Sucessão

Nada demonstra o domínio do poder de Xi com tanta força quanto a falta de um sucessor.

Desde 2002, a tradição é que os líderes chineses cumpram dois mandatos de cinco anos no poder e depois passem as rédeas para um novo secretário-geral, escolhido pelas facções rivais dentro do Partido Comunista no poder.

Mas, em 2018, o governo retirou os limites de mandato constitucional da posição de presidente da China, permitindo efetivamente a Xi governar por toda a vida, se ele quiser. Xi também chefia o Partido e os militares, dois cargos mais poderosos que a presidência, sem limite de mandatos. A explicação oficial para o movimento constitucional foi o alinhamento das três posições.

Agora, com menos de 18 meses até o Congresso do Partido de 2022, no qual se espera que Xi renuncie ao poder se mantiver a prática recente, não há um sucessor provável à vista. No Comitê Permanente do Politburo, composto de sete pessoas, onde o próximo secretário-geral normalmente estaria, todos os líderes são considerados velhos demais para servir por mais dez anos antes de atingir a idade informal de aposentadoria, 68 anos.

Todos os especialistas concordam que a mensagem é clara: Xi quase certamente planeja cumprir outro mandato.

“A menos que aconteça algo extraordinário que não possamos prever, como um enorme desastre ou Xi morra ou algo assim, ele terá seu terceiro mandato”, disse Tsang.

Não há nem mesmo um acordo claro sobre quem pode estar na fila para outros cargos políticos importantes, incluindo o sucessor do primeiro-ministro Li Keqiang, que provavelmente se aposentará em novembro de 2022.

EUA CHINA ESTADOS UNIDOS
China deve superar os Estados Unidos como maior economia do mundo nos próximos anos
Foto: Jason Lee/Illustration/Reuters

Bishop disse que a campanha anticorrupção de Xi, que ele colocou em prática como uma das primeiras políticas importantes após assumir o poder, eliminou efetivamente uma geração de potenciais candidatos à liderança.

Xi também sufocou as ambições de futuros líderes simplesmente recusando-se a nomear um sucessor, de acordo com Richard McGregor, membro sênior do Lowy Institute de Sydney e autor de “Xi Jinping: The Backlash” (“Xi Jinping: A Reação”, sem edição no Brasil).

Mas isso pode mudar. McGregor disse que, com um terceiro mandato para Xi agora provável, a questão era saber se ele nomearia ou não um possível sucessor no 20º Congresso do Partido em novembro de 2022, para assumir potencialmente em 2027.

Para McGregor, se houver outro congresso sem um sucessor aparente de Xi, isso poderia indicar planos para o líder chinês servir por um quarto mandato ou mais.

“A capacidade da China de ter transferências pacíficas de poder foi uma das maiores conquistas do Partido e não vejo como é uma boa ideia jogar isso pela janela”, opinou McGregor.

Sem espaço para críticas

No auge da incerteza em torno da pandemia de Covid-19 na China, os especialistas começaram a ponderar se este poderia ser o “momento Chernobyl” de Xi – referindo-se ao desastre nuclear de 1986 que alguns acreditam ter ajudado a desencadear o fim da União Soviética.

Por um momento, o controle de Xi sobre o poder pareceu o mais tênue dos últimos anos.

Mas, assim que a pandemia começou a diminuir na China, Xi agiu para silenciar os críticos que questionaram sua liderança durante a crise.

O presidente chinês Xi Jinping durante Assembleia Geral da ONU
O presidente chinês Xi Jinping durante Assembleia Geral da ONU
Foto: Reprodução/CNN (22.set.2020)

Em março de 2020, Xu Zhangrun, professor da Universidade de Tsinghua e crítico de Xi, foi colocado sob investigação e, posteriormente, demitido após escrever um ensaio crítico ao líder chinês.

“A vida política da nação está em estado de colapso e o núcleo ético do sistema foi esvaziado”, escreveu Xu em um texto publicado em março.

Um dos maiores críticos de Xi, o bilionário Ren Zhiqiang, foi condenado a 18 anos de prisão em setembro de 2020 por acusações de corrupção. Um texto publicado em março daquele ano, amplamente atribuído a Ren, referia-se indiretamente a Xi como um “palhaço” sedento de poder.

A mensagem do líder chinês foi clara: ele não toleraria mais dissidências vocais. McGregor disse que os críticos de Xi ainda permanecem na elite política, mas, com seu controle rígido sobre a mídia e o meio acadêmico, eles não conseguem mais medir sua influência.

Além disso, com Xi se encaminhando para um terceiro mandato no poder, é improvável que isso mude. “É se alinhar ao programa ou sair fora”, disse McGregor.

(Texto traduzido. Clique aqui para ler o original em inglês).

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