Maranhão é o estado com mais mortes de indígenas em conflitos no campo

Em entrevista ao Séries Originais, sobrevivente de crime aparece pela primeira vez na TV depois da emboscada que vitimou o líder Guajajara Paulo Paulino

Adriana Farias*
26 de julho de 2020 às 22:00
Imagens das gravações da série documental Brasil, Terra de Quem?, exibida no programa Séries Originais
Foto: DOC. Films

Na última década, os conflitos no campo levaram à morte de mais de 430 pessoas no Brasil. São indígenas, quilombolas e trabalhadores rurais contra fazendeiros, madeireiros e grileiros em disputas pela terra, por suas riquezas naturais e pela sobrevivência de seus modos de vida.

Levantamento feito pela reportagem do Séries Originais, da CNN, ao destrinchar relatórios de 2009 a 2019 da Comissão Pastoral da Terra (CPT) sobre os assassinatos no campo revela que o Maranhão é o estado com mais mortes de indígenas no país, totalizando 19 casos. No ano passado, o dado trouxe apreensão aos estudiosos do assunto. Dos nove indígenas mortos, sete eram considerados lideranças em seus territórios.

Nesse cenário, uma morte causou repercussão internacional: a de Paulo Paulino, da etnia Guajarara, morto a tiros em novembro de 2019 na terra indígena Arariboia, no Maranhão, em um conflito envolvendo supostos caçadores ou madeireiros. Ele era um dos guardiões da floresta, grupo de indígenas criado para fiscalizar e denunciar as invasões na mata.

Quem estava com ele no episódio e sobreviveu aos tiros foi seu amigo, e também guardião, Laercio Tainaky. Em entrevista exclusiva ao documentário Brasil, Terra de Quem?, cujo primeiro episódio foi exibido neste domingo (26) no Séries Originais, ele mostrou o rosto pela primeira vez a uma emissora de televisão após o crime.

Imagens das gravações da série documental Brasil, Terra de Quem?, exibida no programa Séries Originais
Foto: DOC. Films

A família de Paulo Paulino também denuncia estar sendo ameaçada dentro da própria aldeia, que está inserida em uma área sobre a qual o Instituto Socioambiental (ISA) faz um alerta. Por meio de uma nova tecnologia de monitoramento, a entidade pode constatar que a terra indígena Arariboia tornou-se a área com índios isolados mais desmatada do Brasil.

"Registramos em torno de 30 a 40 km de novos ramais clandestinos abertos todo mês", diz o engenheiro agrônomo Antônio Oviedo, coordenador do programa sobre o assunto do ISA.

Quando se contabiliza as invasões possessórias, exploração ilegal de recursos naturais e danos diversos ao patrimônio dos indígenas no país, o ano de 2019 também registra outro recorde da última década. As ocorrências quadruplicaram no período, com 160 casos até setembro de 2019, segundo levantamento do Séries Originais a partir de registros do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

*da DOC. Films, especial para a CNN Brasil