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    CNN No Plural+: Muito além da Parada LGBTQIA+

    Entidades que apoiam a causa LGBTQIA+ precisam de ajuda para manter a luta pelo respeito à diversidade ao longo do ano

    Parada do Orgulho LGBT+ em São Paulo, em 23 de junho de 2019
    Parada do Orgulho LGBT+ em São Paulo, em 23 de junho de 2019 NurPhoto via Getty Images

    Rafael Câmarada CNN

    São Paulo

    Assim que eu me aceitei, senti uma necessidade de contar ao mundo o tamanho do meu orgulho.    

    E as reações foram as mais diferentes possíveis.  

    Teve gente que chorou e me abraçou, teve gente que começou a me consolar. E teve gente completamente muda.  

    De todas as reações, a que eu sempre lembro foi a do meu primo, quase irmão, Alex. Ele olhou para mim e falou: “o que pra você é mais doloroso?”   

    Eu, sem entender a pergunta, e muito menos com tempo de pensar na resposta, falei o que me veio à cabeça: “não ter a liberdade de andar de mãos dadas com quem amo, como você pode.” Ele, com os olhos lacrimejando, me disse: “um dia eu tenho certeza que vai poder. 

    Eu contei toda essa história pra dizer pra vocês e para o meu primo Alex que hoje, com orgulho, eu ando de mãos dadas com o meu marido –e até beijo em público. E isso eu só consegui depois que fui à minha primeira Parada do Orgulho LGBTQIA+, há quatro anos. E este ano isso se repetiu. Não foram as bandeiras, trios e fantasias que me marcaram: foi a liberdade de poder se expressar sem medo.   

    Além desse empoderamento, a Parada do Orgulho LGBTQIA+ também tem o objetivo de dar visibilidade ao trabalho de ONGs e Casas de Apoio, que não descansam nem um dia do ano.  

    De acordo com a Prefeitura de São Paulo, cerca de 4 milhões de pessoas lotaram a Avenida Paulista e ajudaram a injetar e movimentar a economia paulistana em mais de R$ 400 milhões.   

    Mas o que acontece quando este mês acaba?

    As pessoas LGBTI+ precisam de apoio o ano inteiro, não só no dia da Parada. Nós tivemos várias reuniões com as grandes empresas, porque nós precisamos de apoio, principalmente para as Casas de Apoio porque há, infelizmente, muitas crianças, adolescentes e pessoas adultas que são expulsas de suas casas pela questão da orientação sexual e a identidade de gênero. E essas pessoas precisam pagar o aluguel, precisam pagar a luz, precisam pagar a comida das pessoas.

    Toni Reis, diretor-presidente da Aliança Nacional LGBTI+

    Quem explica é Toni Reis, ativista da causa e diretor-presidente da Aliança Nacional LGBTI+, um grupo que se propõe a fazer um trabalho de articulação da comunidade –oferecem apoio jurídico, ficam de olho nas pautas do Congresso Nacional, desenvolvem manuais e ajudam pessoas do Brasil inteiro a nível técnico.   

    “Começou em São Paulo, que é o maior estado da nossa Federação, com maior número da população. Rio de Janeiro também e nós temos feito o esforço para a gente chegar nos municípios pequenos e nas regiões principalmente Nordeste e Norte, que são mais carentes de infraestrutura governamental e não-governamental”, complementa Toni.  

    Se São Paulo e Rio de Janeiro, que já possuem uma certa estrutura, precisam de visibilidade, ajuda de empresas e grupos como a Aliança Nacional LGBTI+ para se manterem em pé, como ficam ONGs e Casas de Apoio nas demais regiões do Brasil?   

    Depois de conversar com o Toni, eu senti a necessidade de saber de perto como funciona o trabalho de acolhimento de pessoas LGBTQIA+ no Norte e Nordeste do país. 

    E foi justamente em Fortaleza, no Ceará, que ocupa o segundo lugar no triste ranking de assassinatos de pessoas trans no Brasil, que eu conheci a Casa Transformar. 

    Quem nos apresenta é a Lara Nicole, uma mulher trans, que não conseguiu virar a cara para pessoas LGBTs que viviam nas ruas, depois de serem expulsas de casa pela família.   

    “É uma casa de acolhimento para pessoas LGBTQIA+ em situação de vulnerabilidade social, exclusão familiar. A casa também tem um objetivo de profissionalizar a gente. Oferece cursos, oficinas, workshops. A gente inclui esse pessoal também dentro do mercado de trabalho, porque a gente sabe que é mais uma demanda nossa, né? O projeto se mantém em funcionamento através das doações que a gente consegue pelo nosso Instagram @casatransformar”, diz Lara Nicole.

    Pra conseguir doações precisa ter visibilidade, e por isso é tão importante estar presente numa Parada do Orgulho como São Paulo. Ou ter a sua própria marcha. E eles têm. É a segunda maior do país, só perde para São Paulo.

    “A gente tenta conseguir todo esse holofote, porque a Casa Transformar precisa do máximo de visibilidade possível, porque as pessoas, vendo, vão ajudar. Quanto mais pessoas conhecerem, mais o projeto vai conseguir se manter funcionando de forma ampla”completa Lara. 

    Mesmo tendo a própria Parada do Orgulho, infelizmente não há o mesmo destaque de São Paulo – e isso também se reflete nas doações, tão necessárias para a sobrevivência dos assistidos.  

    E quando eu falo de ajuda, é o básico.  

    Como a gente se mantém através de doações individuais, são pessoas físicas que se prestam a acreditar no nosso projeto, aí faz um Pix, dá uma ajuda. A gente sente uma dificuldade para pagar uma luz, uma água. A gente recorre para as nossas redes sociais.

    Lara Nicole Medeiros Mota, fundadora da Casa Transformar

    As redes sociais têm sido uma aliada nessa luta.  

    Quem também recorre aos posts, stories e depoimentos para pedir ajuda é a Casa Miga, uma ONG de acolhimento a pessoas LGBTQIA+ em Manaus, no Amazonas.  O local é o único que presta esse serviço em toda a região norte do país.  

    “A casa hoje tem lista de espera, justamente porque a gente não tem vaga para todo mundo e, dentre as pessoas que necessitam, a gente ainda precisa fazer aquela peneira e escolher a que está mais necessitada. A gente trabalha com público refugiado LGBT, então por aqui já passaram pessoas na sua maioria da Venezuela, mas já passaram pessoas de Cuba, da Colômbia, que vêm em refúgio, né? É a questão de a gente também entender que, por mais precária que ainda seja a situação da LGBTfobia aqui no nosso país, a gente ainda tem muito mais liberdade que os nossos países vizinhos, infelizmente”, nos conta a coordenadora da Casa Miga, Karen Arruda.  

    Em quase quatro anos de Casa Miga foram mais de 300 pessoas acolhidas, a maioria refugiados, que com medo da violência em seus países, por serem LGBTQIA+, fogem para o Brasil atrás de uma vida mais digna –e, ainda assim, encontram desafios. 

    O mês do orgulho ajuda a manter a Casa por alguns meses, mas depois que a empolgação passa e a bandeira colorida abaixa, quem precisa de verdade continua aguardando por remédios, roupas e comida. 

    A gente precisa sobreviver nos outros 11 meses do ano, né? Então, infelizmente ou felizmente, é uma coisa que eu não consigo dizer direito assim, a época que a gente mais trabalha é agora, de 17 de maio até o dia 30 de junho e é onde a gente busca com afinco conseguir tudo o que a gente precisa para sobreviver os outros 11 meses do ano. Cada uma enfrenta uma dificuldade local e a gente se unir e conversar sobre trocar essa experiência é muito importante até mesmo para conseguir que esse trabalho tenha mais visibilidade no eixo Rio-São Paulo, que é de onde a gente conseguiria uma ajuda maior.

    Karen Arruda, coordenadora da Casa Miga

    Precisamos, sim, nos ajudar e realmente tomar para a gente a responsabilidade de pertencermos a uma mesma comunidade.  

    Porque não somos diferentes, ou melhor, não devemos nos achar diferentes.  

    Comemorar o orgulho de sermos quem somos é fundamental, mas não podemos esquecer nunca de olhar para o lado e ver que tem gente que não tem chance nem de comemorar porque precisa sobreviver.   

     

    E para você, leitor, que chegou até aqui e gostaria de conhecer e ajudar a Casa Miga e a Casa Florescer, tá aí: 

     

    • Produção: Letícia Brito e Carol Raciunas