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    Google tira do ar após oferecer “Simulador de Escravidão” em sua loja de aplicativos

    Produtora Magnus Games alega que "jogo foi criado para fins de entretenimento" e "condenamos a escravidão no mundo real"

    Google oferece jogo “Simulador de Escravidão” em sua loja de aplicativos
    Google oferece jogo “Simulador de Escravidão” em sua loja de aplicativos Reprodução

    Léo LopesLetícia Cassianoda CNN

    em São Paulo

    O Google tirou do ar após oferecer por mais de um mês em sua loja de aplicativos para o sistema Android, a “Play Store“, um “jogo” intitulado “Simulador de Escravidão”, no qual o usuário pode simular ser um proprietário de pessoas escravizadas. Denúncias contra o aplicativo começaram a repercutir nas redes sociais nesta quarta-feira (24).

    Lançado na Play Store no dia 20 de abril, o aplicativo ficou indisponível por volta das 13h30 desta quarta, conforme relatou à CNN a assessoria do Google.

    A CNN entrou em contato com o Google que respondeu, em nota, que o aplicativo foi removido do Google Play.

    “Temos um conjunto robusto de políticas que visam manter os usuários seguros e que devem ser seguidas por todos os desenvolvedores. Não permitimos apps que promovam violência ou incitem ódio contra indivíduos ou grupos com base em raça ou origem étnica, ou que retratem ou promovam violência gratuita ou outras atividades perigosas. Qualquer pessoa que acredite ter encontrado um aplicativo que esteja em desacordo com as nossas regras pode fazer uma denúncia. Quando identificamos uma violação de política, tomamos as ações devidas”, disse a empresa em nota.

    Google tira do ar após oferecer aplicativo "Simulador de Escravidão" na Play Store
    Google tira do ar após oferecer aplicativo “Simulador de Escravidão” na Play Store / Reprodução

    A produtora responsável, Magnus Games, afirmava no aplicativo que o usuário era capaz de “trocar, comprar e vender escravos”.

    “Escolha um dos dois objetivos no início do simulador do proprietário de escravos: o Caminho do Tirano ou o Caminho do Libertador. Torne-se um rico proprietário de escravos ou consiga a abolição da escravidão. Tudo está em suas mãos”, escrevia a descrição feita pela empresa.

    Jogo "Simulador de Escravidão" é oferecido na loja de aplicativos do Google.
    Jogo “Simulador de Escravidão” é oferecido na loja de aplicativos do Google. / Reprodução

    Em uma das modalidades oferecidas, era feita a descrição: “Use escravos para seu próprio enriquecimento. Evite a abolição da escravatura e acumule uma certa quantia em dinheiro.”

    A Magnus Games alega que o “jogo foi criado exclusivamente para fins de entretenimento”. “Nosso estúdio condena a escravidão em qualquer forma. Todo o conteúdo do jogo é fictício e não está vinculado a eventos históricos específicos. Todas as coincidências são acidentais”, escreve notificação do aplicativo, conforme mostra a imagem abaixo.

    Produtora Magnus Games alega que o jogo "Simulador de Escravidão", oferecido na loja de aplicativos do Google, foi produzido por "fins de entretenimento".
    Produtora Magnus Games alega que o jogo “Simulador de Escravidão”, oferecido na loja de aplicativos do Google, foi produzido por “fins de entretenimento”. / Reprodução

    Conforme mostrava a própria plataforma do Google, o aplicativo foi lançado no dia 20 de abril deste ano e foi baixado mais de 1 mil vezes e possuía classificação indicativa “Livre”.

    O próprio Google detalha, em seu site, que a classificação desta categoria para o Brasil indica que “o conteúdo é adequado a todas as idades. Por vezes, pode apresentar algum elemento de baixíssimo impacto, como violência infantilizada”.

    Ainda de acordo com a plataforma, o aplicativo possuia uma nota de 4 estrelas. A nota máxima é de 5 estrelas.

    “Ótimo jogo para passar o tempo. Mas acho que faltava mais opções de tortura. Poderiam estalar a opção de açoitar o escravo também”, avaliou, no dia 22 de maio, o usuário “Mateus Schizophrenic”, que deu nota 5 estrelas.

    “É inacreditável que esse tipo conteúdo esteja disponível e acessível para crianças”, escreveu, no mesmo dia, o usuário Lucas Lima, que deu nota mínima ao aplicativo.

    CNN também entrou em contato com a Associação Brasileira das Desenvolvedoras de Games (Abragames). Em nota, a associação afirmou condenar quaisquer condutas, discursos ou iniciativas que ultrapassem o respeito à dignidade humana e firam a honra de indivíduos ou grupos, inclusive em jogos (veja a íntegra abaixo).

    A CNN tenta contatar a produtora Magnus Games.

    Deputado diz que entrará com representação no MP

    Em meio à repercussão nas redes sociais das críticas feitas ao oferecimento do aplicativo na plataforma do Google, autoridades também se manifestaram

    O deputado federal Orlando Silva (PCdoB) chamou de “desumano, nojento, estarrecedor e criminoso”.

    “A Unegro Brasil me trouxe a denúncia. Entraremos com representação no Ministério Público por crime de racismo e levaremos o caso até as últimas consequências, de preferência a prisão dos responsáveis”, publicou no Twitter.

    “A própria existência de algo tão bizarro à disposição nas plataformas mostra a urgência de regulação do ambiente digital”, acrescentou o relator do PL das Fake News.

    Nota da Abragames

    A Abragames (Associação Brasileira das Desenvolvedoras de Jogos Eletrônicos) condena veementemente quaisquer condutas, discursos ou iniciativas – inclusive em jogos – que ultrapassem o respeito à dignidade humana e firam a honra de indivíduos ou grupos. Racismo, opressão e discriminação não têm a ver com liberdade de expressão, e o limite deste princípio fundamental da Constituição Federal brasileira está justamente na própria Constituição. Não existe um direito absoluto e o racismo é crime! Não pode ser tolerado. Defendemos e estimulamos o debate, o pensamento crítico e as discussões sobre qualquer tema, mas essa liberdade tão importante não pode ser uma “muleta” para gerar abusos, discriminação, desrespeito, discursos de ódio e violência. Os games, em suas narrativas e mecânicas, são ferramentas fundamentais para quebrar tabus e promover discussões fundamentais à sociedade, mas não a qualquer custo, muito menos incentivando práticas criminosas.

    O jogo em questão não pertence a um estúdio associado à Abragames, que ficou sabendo de sua existência pela imprensa, quando ele já havia sido removido da loja de aplicativos. Por fim, a Associação reforça seu compromisso e preocupação com questões que tangem a liberdade criativa e se coloca à disposição para contribuir e colaborar com o aprimoramento dos processos da indústria nacional.