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    Tráfego aéreo expõe poder do garimpo ilegal em terras Yanomami

    Dentro da terra indígena, via aérea é principal rota de acesso aos garimpos ilegais, sendo o meio usado não só para transportar o minério extraído, mas também insumos básicos da atividade criminosa

    Rios são a segunda forma de transporte que impulsiona as ações clandestinas, mas que costumam ser mais utilizados nos meses de cheia
    Rios são a segunda forma de transporte que impulsiona as ações clandestinas, mas que costumam ser mais utilizados nos meses de cheia Reuters/Bruno Kelly

    André Borges, do Estadão Conteúdo

    Uma profusão de rotas aéreas clandestinas, com atividade constante dentro e fora do território nacional, é mantida pelo crime organizado para extrair ouro e cassiterita da terra indígena Yanomami.

    A informação foi primeiro divulgada pelo jornal O Estado de São Paulo, que teve acesso a detalhes da cadeia logística que os garimpeiros, com o uso de aviões, utilizam para saquear a terra indígena em Roraima.

    Os mapas que traçam a movimentação da atividade ilegal revelam que essas rotas não se limitam a viagens realizadas entre os garimpos e os principais municípios do estado ou a capital, Boa Vista.

    Há constante movimentação, também, dentro da Venezuela, com locais frequentes de acesso no país vizinho, que faz fronteira com boa parte da terra indígena Yanomami.

    Dentro da terra indígena, a via aérea é a principal rota de acesso aos garimpos ilegais, sendo o meio usado não só para transportar o minério extraído, mas também insumos básicos da atividade criminosa, como combustível, peças e alimentos.

    Os rios são a segunda forma de transporte que impulsiona as ações clandestinas, mas que costumam ser mais utilizados nos meses de cheia.

    O preço médio das aeronaves que costumam ser usadas revela que as atividades estão longe de serem “artesanais”. A maior parte dos aviões utilizados pelos garimpeiros é do tipo monomotor, como o Cessna 182, comercializado com o nome de Skylane, e que custa cerca de R$ 400 mil.

    Há ainda uso de helicópteros, como os modelos Robinson 44 ou 66, que são bem mais caros e custam a partir de R$ 3 milhões.

    A audácia dos garimpeiros para ampliar a logística aérea dentro da terra demarcada chegou a tal ponto que os criminosos passaram a tomar pistas de pouso oficiais, construídas pelo governo para que os indígenas pudessem receber insumos básicos de saúde e alimentação. Foi o que aconteceu, por exemplo, na base de Homoxi, no município de Alto Alegre.

    Até início de 2022, uma unidade básica de saúde funcionava ao lado desta pista de pouso. Em três meses, o local foi tomado pelos garimpeiros, que expulsaram as equipes de saúde e transformaram a unidade em um aeroporto do crime, com exploração de minério ao redor da própria pista.

    Fechamento

    Em um documento obtido pela reportagem, agentes alertaram sobre a gravidade da situação, que “inviabiliza a prestação de adequado serviço de saúde aos indígenas”.

    O diagnóstico resultou numa sugestão à Diretoria de Proteção Ambiental (Dipro) do Ibama, para que fosse realizado o fechamento do espaço aéreo sobre a terra indígena Yanomami, como forma de ajudar a coibir o deslocamento.

    “Considerando que foi identificada rota de voos para além das fronteiras nacionais, sugere-se que seja comunicada a Força Área e solicitado o fechamento do espaço aéreo na terra Yanomami”, afirmam, no documento.

    A reportagem questionou a Força Aérea Brasileira para saber se recebeu alguma demanda no ano passado, para fechar o espaço aéreo sobre a terra indígena. A FAB não respondeu ao questionamento, mas disse que “mantém alertas de defesa no espaço aéreo que compreendem a Terra Indígena Yanomami, operando a partir de Boa Vista (RR) e cumprindo ações de policiamento do espaço aéreo 24 horas”.

    Segundo a FAB, só em 2022, “foram realizadas 34 interceptações de aeronaves nas proximidades de Boa Vista, incluindo a região mencionada”.

    As restrições de fiscalizações aéreas são, há anos, um dos principais problemas enfrentados pelas forças de segurança que atuam na proteção do território Yanomami. Há falta generalizada de aeronaves por parte do Ibama, Funai e Instituto Chico Mendes (ICMBio), além de outras forças policiais que apoiam as operações.

    O garimpo ilegal é realidade de décadas na terra Yanomami, mas teve aumento exponencial em 2019, conforme apontam dados oficiais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia.

    Segundo a série histórica, foram 29 mil quilômetros quadrados naquele ano, o maior volume desde 2008, quando o índice chegou a 14 mil quilômetros quadrados.

    A população indígena atual na região chega a cerca de 30,4 mil indígenas, vivendo em 386 comunidades. Não existem dados precisos sobre o total de garimpeiros no local, mas estima-se que, com a alta dos últimos anos, cerca de 25 mil atuem com atividades clandestina no território, que teve a sua demarcação concluída em 1992.

    Mineração ilegal polui rios, afasta caça e tira alimento de indígenas.

    A invasão de garimpeiros ameaça a saúde dos Yanomami, já que usa mercúrio para extrair ouro, polui os rios, mata os peixes e impede que os indígenas produzam seus próprios alimentos, como a mandioca. O barulho das máquinas assusta os animais que também servem de alimento, apontam especialistas que acompanham os impactos sobre a população.

    O contato com não indígenas também é responsável pela transmissão de doenças, como gripe e Covid-19. Os garimpeiros, dizem os especialistas e os próprios indígenas, ainda levam álcool, drogas e estão por trás de episódios de violência nessas áreas.

    O Ministério dos Povos Indígenas afirmou que 99 crianças Yanomami, de um a quatro anos, morreram em 2022 devido ao avanço do garimpo. As causas são, na maioria, desnutrição, pneumonia e diarreia.

    A pasta estima que ao menos 570 crianças foram mortas pela contaminação por mercúrio, desnutrição e fome nos últimos quatro anos.