Isolado, Banco Central terá que ser mais agressivo ainda com juros

Cenário tende a impactar nos debates eleitorais este ano e coloca dificuldade para o início de um novo governo

Sede do Banco Central, em Brasília
Sede do Banco Central, em Brasília Adriano Machado/Reuters

Sergio Vale

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O Banco Central tomou a correta decisão de se manter preocupado com a inflação ao sugerir que seguirá aumentando os juros na próxima reunião do Copom. Por pior que seja a ideia de subir juros, a inflação ainda não deu tréguas, e há sinais de que poderá aumentar acima do que o mercado está esperando para 2023.

O risco fiscal crescente com as medidas de ICMS do governo federal tende a ser um tiro no pé para a política econômica. Ao diminuir o imposto estadual, abre um fosso para as contas dos estados a partir do ano que vem quando as commodities e o crescimento forem bem menores do que foram ano passado.

Ao mesmo tempo, outras desonerações temporárias, que valem para esse ano, tendem a devolver parte da inflação que seria, em tese, eliminada este ano. Por isso, o mercado tem ajustado a expectativa de inflação do ano que vem para acima de 5%, ficando cada vez mais distante da meta e trazendo ainda mais dificuldade para o BC. Se ele já estava sozinho, agora tem um jogador intensamente contra na figura da política fiscal.

Para piorar, ao aumentar o risco fiscal, pressiona a taxa de câmbio e a depreciação do real que vem por conta disso piora as expectativas de inflação para o segundo semestre. Parta da depreciação que vimos nos últimos dias tem a ver com a política monetária americana, mas tem a ver também com a piora fiscal patrocinada pelo governo.

Além disso, a expectativa é de aumento do preço do barril de petróleo à frente, e não queda. Com câmbio e preço de petróleo em alta, o risco é de que vamos continuar vendo aumentos nos preços de combustíveis que anulem largamente os cortes de impostos. Ou seja, além de não haver queda efetiva de preços de gasolina e diesel, teremos impacto piorado na economia para 2023.

Isso tudo se torna mais desafiador com uma eleição no meio. Sem clareza do que será feito pelo próximo presidente, estamos às escuras sobre o que poderá ser a política econômica a partir de 2023. Os sinais até agora são ruins com risco crescente de desorganização na frente fiscal com as conversas que avançam para desmontar a regra do teto caso Lula seja eleito. No caso de Bolsonaro, o comando da política fiscal nos últimos dois anos não tem sido muito diferente do que se imaginaria em um governo Lula e essa proximidade de ação torna Bolsonaro também um risco ano que vem.

Com esse cenário, devemos chega rem agosto, às portas das eleições, com outra alta da Selic, chegando a 13,75%. O risco é que talvez não paremos por aí. Já há bons analistas prevendo Selic entre 14% e 15% até o final do ano, o que não é fora de propósito dado o tamanho de riscos que temos pela frente.

Serão meses difíceis ainda para a população, mas ela infelizmente precisa estar preparada para um 2023 também complicado. Será de menos inflação, mas com mercado de trabalho e crescimento mais fracos. Isso tende a impactar fortemente nos debates eleitorais este ano, mas coloca um enorme ponto de dificuldade para o início de um novo governo. Durma-se com um barulho desses.

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