O day after do encontro entre Bolsonaro e Rodrigo Maia

Encontro do presidente da República, Jair Bolsonaro, com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, no Palácio do Planalto (14.mai.2020)
Encontro do presidente da República, Jair Bolsonaro, com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, no Palácio do Planalto (14.mai.2020) Foto: Isac Nóbrega/PR

Caio Junqueirada CNN

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No dia seguinte ao encontro do presidente Jair Bolsonaro com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, lideranças do Centrão criticaram a postura do deputado. A leitura foi a de que o encontro foi muito mais uma necessidade política dele para fugir do isolamento político na casa do que algo que Bolsonaro precisasse.

Lideranças também deixaram claro que não encamparão qualquer alteração legislativa que abra espaço para Maia ser candidato de novo ao cargo em fevereiro de 2021. “Essa chance é zero”, disse uma fonte do grupo à CNN.

A possibilidade de Maia ser candidato novamente é aventada nos bastidores por seu grupo político, que tem como eixo central PSDB, DEM e MDB. Mas para isso é preciso uma mudança na Constituição e 308 votos em dois turnos na Câmara e no Senado para aprová-la. Sem o apoio do Centrão, a emenda constitucional não passaria.

O grupo tem cerca de 250 deputados. Uma outra possibilidade seria Maia rachar o Centrão e escolher um nome do grupo para sucede-lo, como Agnaldo Ribeiro, do Progressistas. Mas mesmo essa possibilidade e descartada pelo Centrão . “Agnaldo não briga com o PP”, afirmou uma outra fonte. PP é o antigo nome do Progressistas.  

Apesar das críticas, o Centrão, porém, pretende se reunir com Maia na próxima semana para se reaproximar, após uma semana de intensos confitos e divergências entre eles. A reclamação principal é que Maia fez acordos ao mesmo tempo com o Centrão e a oposição sobre a agenda de votações, o que revoltou o grupo. A avaliação geral é a de que o grupo de Maia negocia nos mesmos termos com o Planalto –cargos e emendas — mas faz um discurso de independência e de rejeição a esse método de negociação. 

Nos bastidores, é ventilado que o MDB pediu, por exemplo, ao governo, a manutenção da Secretaria Nacional de Habitação do Ministério do Desenvolvimento Regional. O ocupante do cargo é de Ribeirão Preto, base eleitoral do presidente da legenda, Baleia Rossi. Ele nega. “Não há nenhuma vinculação política dessa função. Ele é um técnico de Ribeirão Preto e foi pra lá com o antigo ministro Canuto ainda. Conheço e sei que é capaz. 

Inclusive, se tiver alguém do MDB em alguma função do governo federal e quiserem substituir sem nenhum problema”, disse Baleia à CNN. Outra informação é a de que o PSDB  também reivindicou ao Planalto a manutenção de um posto no Dnocs da Bahia e a Sudene em Pernambuco. 

Procurado, o líder do PSDB na Câmara, Carlos Sampaio, confirmou que esteve no Planalto nesta semana com o ministro da secretaria de governo, general Ramos, mas negou que trataram de cargos. “Falamos sobre agenda legislativa”, declarou à CNN.

Do lado do DEM, a leitura é a de que o casamento com Bolsonaro pode sim evoluir não apenas para a sucessão na Câmara, mas também para as eleições de 2022; “Nosso inimigo de hoje é a pandemia e de amanhã o PT e a esquerda. Estamos muito mais próximos de Bolsonaro do que estaríamos se fosse Fernando Haddad presidente”, disse à CNN um dos próceres do partido.

A leitura é a de que Maia não será um “destruidor de governos”, que há uma “agenda recíproca” entre o partido e o Planalto. Há até mesmo a avaliação de que Bolsonaro tem razão ao pedir um plano único no país de flexibilização do isolamento social. As críticas ao ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, também são tão ácidas quanto às do presidente. Um integrante do partido o classificou de “égua de tróia”.  

Um fato chamou a atenção no encontro. Maia levou consigo o presidente do Conselho de Ética da Câmara, Juscelino, que relata um projeto sobre mudança nas regras da Carteira Nacional de Habilitação que o Planalto se opunha. Juscelino entregou ao presidente um novo relatório em conformidade com o que o governo queria. Virou o símbolo da união. Mas não deixa de ser simbólico também que no momento em que Bolsonaro é investigado por ter interferido na Polícia Federal, Maia leve até ele quem cuida de deslizes éticos de políticos no Congresso. A propósito, se há algo que une Centrão e o grupo de Maia é o desinteresse em avançar com qualquer processo que desestabilize o presidente. 

Em suma, a leitura é a de que Maia saiu bem do encontro com Bolsonaro porque ele acenou ao centro político, a uma “maioria silenciosa” que não engloba a extrema-esquerda que tem o ex-presidente Lula como líder e a extrema-direita que tem Bolsonaro como maior referência. Sobre a sucessão na Câmara, não há dentro da sigla uma certeza de que Maia será o candidato à reeleição, mas uma segurança de que ele será o fiel da balança. Vencerá aquele para o qual o grupo de Maia pender. 

Na noite de ontem, algumas dessas avaliações foram repassadas ao presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, também integrante do DEM. Na conversa, a perspectiva de que a aproximação foi positiva para a legenda, mas que “a bola está com Bolsonaro”. Cabe a ele não vir com arroubos contra o Congresso e acalmar as redes sociais bolsonaristas que tem Maia como alvo prioritário para que a relação avance.

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