Nem o Posto Ipiranga sabe o que fazer com a Petrobras

Um governo que se diz liberal, mas que luta para intervir na maior estatal, parece não ter aprendido a primeira lição do capitalismo

O presidente Jair Bolsonaro apelidou o ministro Paulo Guedes de "Posto de Ipiranga" porque confiaria a ele toda a condução da economia
O presidente Jair Bolsonaro apelidou o ministro Paulo Guedes de "Posto de Ipiranga" porque confiaria a ele toda a condução da economia Adriano Machado/Reuters

Alexandre Borges

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O que fazer com a Petrobras, o bode expiatório da vez?

A esquerda sempre defendeu que o governo comandasse as estatais com mão de ferro, usando as empresas como instrumento de políticas públicas, quase sempre um pretexto para a criação de mamutes corporativos que servem de cabide de emprego e como um butim quase ilimitado para saqueadores.

A direita liberal advoga que estatais sequer deveriam existir.

O governo brasileiro inova com a defesa de intervenção e privatização ao mesmo tempo.

Privatizar a Petrobras, sem mexer nas intrincadas regras que regulam este mercado, incluindo o refino, é trocar um monopólio estatal por outro privado. Intervir, como se planeja atualmente, é pilhar dezenas de bilhões do contribuinte para não resolver nada.

O mais curioso é que as duas ideias opostas, intervenção e privatização, nas condições que foram apresentadas, estão erradas.

Propagar ideias contraditórias não é uma invenção política atual, como se pode ver no clássico “1984”, de George Orwell. Na distopia criada pelo genial britânico em 1949, uma crítica velada ao stalinismo, muitos termos foram eternizados, entre eles o “duplipensar”: a capacidade de entreter duas ideias excludentes entre si na mente e concordar com ambas.

Nas palavras de Orwell, é “saber e não saber (…), defender simultaneamente duas opiniões que se cancelam mutuamente, sabendo que se contradizem, e ainda assim acreditar em ambas”.

Na esteira de uma das disputas políticas mais acirradas da história do país, temos agora um exemplo primoroso de duplipensar: um governo que defende intervenção e privatização da joia da coroa, da maior empresa brasileira, vítima do fogo cruzado do populismo por ousar proteger o interesse do conjunto dos acionistas, algo que ela é legalmente obrigada a fazer.

Se ela se curvar aos ditames dos palanques e cortar lucros bilionários para tentar baixar o preço nas bombas em alguns centavos, certamente a questão será judicializada, com provável ganho de causa para a parte lesada.

O Brasil está longe de prover um mínimo de dignidade e qualidade de vida para uma parte enorme de sua população. Serviços básicos como água encanada, asfalto, transporte público, segurança pública, saúde, educação e até saneamento são inacessíveis ou disponibilizados de forma precária e degradante.

Como imaginar um país nestas condições sequer pensar em subsídios milionários para combustíveis fósseis, transferindo o dinheiro dos impostos de todos para alguns? Não há resposta moralmente aceitável para isso, o que nunca foi impedimento para a classe política.

O Centrão, que na prática governa o país, entrou de corpo e alma na guerra contra a Petrobras. Seus próceres querem a cabeça dos diretores da empresa numa bandeja e até a instalação de uma CPMI para mais proselitismo e nenhuma solução. Se alguém acredita nas boas intenções dessa turma, os mesmos que se lambuzaram recentemente no Petrolão? Você sabe a resposta.

A Petrobras precisa ser privatizada, evidentemente, mas respeitando um processo limpo, transparente e que assegure um mercado livre, aberto e com ampla competição em todas as etapas da cadeia produtiva dos combustíveis.

Enquanto isso, ela deve proteger os interesses dos acionistas e as práticas da boa governança que mandam que uma empresa reajuste os preços de seus produtos quando seus insumos ficam mais caros.

Quando participava de uma reunião com empresários, o ministro das Finanças de Luís 14, Jean-Baptiste Colbert, perguntou o que poderia fazer por eles. Um comerciante conhecido como Legendre teria respondido “nous laisser faire” (“Deixe-nos fazer”), expressão que define o liberalismo clássico.

Um governo que se diz liberal, mas que luta para intervir na maior das estatais enquanto alude a uma privatização abstrata, parece não ter aprendido a primeira lição do capitalismo.

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