“Reconheço que foi um ato inadequado, mas não cometi crime”, diz Fernando Cury

Acusação de assédio na Alesp: parlamentar foi suspenso de suas atividades político-parlamentares por 180 dias, mas punição se encerrará na terça-feira (5)

Marcos GuedesTainá Falcãoda CNN

Em São Paulo

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Nos primeiros minutos de 17 de dezembro de 2020, durante sessão parlamentar, na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), o deputado Fernando Cury (Cidadania) encostou na lateral do corpo da deputada Isa Penna (PSOL). Ali, começou o processo que o suspendeu das atividades político-parlamentares por 180 dias, e que se encerrará na próxima terça-feira (5). Prestes a voltar aos trabalhos no seu gabinete, o deputado falou com exclusividade à CNN.

“Eu reconheço que foi um ato inoportuno, um ato inapropriado, um gesto inadequado, mas não houve em nenhum momento, da minha parte, qualquer intenção de contato sexual”, afirmou Cury.

O ato cometido pelo deputado foi investigado pelo Ministério Público, após autorização do Tribunal de Justiça, uma vez que o parlamentar tem foro privilegiado. Ele foi denunciado por importunação sexual em março deste ano, em um documento assinado pelo procurador-geral de Justiça, Mario Luiz Sarrubo.

Suspensão das atividades

A suspensão das atividades parlamentares do deputado veio depois que o Conselho de Ética da Casa analisou o caso e aprovou a perda de mandato temporário por 119 dias.

Dias depois, o caso foi levado ao colégio de líderes da Alesp, que aumentou a suspensão para 180 dias – com votação unânime dos 86 parlamentares presentes. Ali ficou determinado que Cury perderia salários e a manutenção das atividades do gabinete.

Em 18 de dezembro, um dia depois do caso, o Cidadania, partido político de Cury, o suspendeu de todas as atividades políticas ligadas à legenda. A Executiva Nacional da sigla, que fez a instrução do processo, já elaborou um parecer recomendando a expulsão dele. A documentação agora será analisada pelo diretório estadual.

“Fui punido por isso, aceitei minha punição, estou cumprindo e espero ter a oportunidade de virar essa página e olhar pra frente, olhar pro futuro”, afirmou Cury.

A reportagem também ouviu a deputada Isa Penna e especialistas, que definiram o que é o crime de importunação sexual, do qual o deputado terá que se defender.

Luta contra o assédio

Para Isa, os momentos vividos no Plenário Juscelino Kubitschek naquele início de madrugada estão marcados, mas também reforçam a luta das mulheres contra o assédio em ambientes majoritariamente masculinos.

“Eu me senti muito envergonhada, humilhada. Porque, quando alguém faz isso com você, a pessoa demonstra que ela não tem respeito nenhum. Quando eu vi que estava todo mundo rindo, eu pensei ‘eu não sou nada pra esses homens’”, disse a parlamentar.

Ainda assim, para a deputada, a pena não foi suficiente. “Ele tinha que ter sido cassado. Eu não tenho uma gana punitiva, porque não é a dor dele. O que ele fez na minha vida já está feito. Não vai reparar nada o sofrimento dele. O que eu preciso é que ele não assedie mais mulheres.”

Análise das imagens

A deputada é categórica ao afirmar que, além de ser abraçada por trás, ela também foi tocada na lateral do seio. “Eu tava [sic] apoiada na bancada e nesse momento eu senti de pronto. O que eu senti foi alguém me encoxando e um leve toque aqui [aponta para o peito]”, disse Isa Penna.

A versão da defesa do deputado é diferente. A CNN obteve acesso ao documento assinado pelo perito criminal do Instituto de Criminalística de São Paulo Edmundo Braun. O laudo de 33 páginas aponta que “não é possível identificar atributos que pudessem caracterizar a prática de ato libidinoso.”

A perícia levanta entre outros pontos que “o deputado Fernando Cury tem por hábito abraçar, de todas as formas, os deputados com quem se encontrou no plenário naquela
sessão, conduta que lhe caracteriza.”

Fernando Cury disse estar arrependido e que aprendeu com o erro. “Esse episódio, ainda que muito triste, tem servido de aprendizado”.

Ele afirmou que incluirá o tema de assédio em sua agenda para que possa de fato dar uma ação efetiva contra esse tipo de situação.

O caso que trouxe mudanças na vida da deputada Isa Penna, segundo a deputada, ainda está longe de acabar. “Acho que a parte mais difícil é o que ainda virá, que é trabalhar os próximos dois anos com ele aqui.”

Veja a entrevista do deputado Fernando Cury à CNN na íntegra

Leia a íntegra da entrevista de Tainá Falcão com o deputado estadual Fernando Cury

CNN – Deputado Fernando Cury, essa é a primeira vez que o senhor decide falar sobre o que aconteceu no dia 17 de março de 2020. Por que o senhor decidiu falar agora, depois de passado esse período de reclusão?  

Fernando Cury: Realmente é a primeira oportunidade que eu estou tendo de falar sobre esse episódio que foi tão marcante, tão triste e tão negativo para todos nós, para a própria deputada Isa Penna, que se sentiu constrangida, para todas as mulheres que se sentiram ofendidas, os meus colegas da Assembleia Legislativa do estado, a minha família, a minha esposa, e para mim mesmo, né? Um momento muito difícil.

Justamente a gente demorou para falar para que a gente pudesse fazer com que o tempo passasse, né? Para que realmente as dores pudessem estar, vamos dizer assim, menores (…) a dor da deputada Isabel Penna, a qual eu sempre respeitei e não tive intenção nenhuma de qualquer contato sexual.

Eu não cometi nenhum crime naquele momento. Eu não importunei sexualmente a deputada Isa Penna. Eu reconheço que foi um ato inoportuno, um ato inapropriado,  um gesto inadequado, mas não houve em nenhum momento, Tainá, da minha parte, qualquer intenção de contato sexual.

Eu não quis, não assediei e não importunei a deputada Isa Penna. Aliás, a própria deputada já disse isso no depoimento que ela fez de acusação no MP contra mim. Ela disse isso, que foi simplesmente um toque, muito leve, muito rápido, nas costelas.

CNN – Vamos fazer uma retrospectiva para começar do início: o que a gente pode ver nas imagens foi, antes de o senhor se aproximar, uma conversa com colegas num tom amistoso. O que vocês conversavam antes de o senhor se dirigir a ela?

Bom, aquele era o último dia dos trabalhos legislativos. E nós estávamos ali conversando, eu e alguns deputados, conversando diversos assuntos, inclusive também sobre os projetos de lei que estavam sendo discutidos, sendo votados, e que iam ser votados naquele momento.

Existiam projetos de deputados, projetos do governo, o próprio orçamento, a reforma administrativa, da assembleia legislativa dos servidores da casa. Estávamos conversando sobre diversos assuntos e também sobre os projetos.

CNN – Naquele momento antes de o senhor se dirigir à deputada Isa Penna, a imagem mostra vocês rindo. Parecia que estavam rindo de alguma piada, que estavam numa situação mais informal. Era sobre algum assunto relacionado? 

Não.

CNN – O senhor chegou a fazer alguma piada a respeito?

Não, não. Esse foi um contexto que inclusive foi trazido a público, não sei se pela própria deputada ou se por alguns veículos de imprensa. Criou-se realmente essa dúvida que a gente estaria conversando alguma coisa a respeito disso. Não, não aconteceu nada disso. Nós estávamos conversando sobre diversos assuntos aleatórios e sobre os projetos. Foi quando eu saí para interromper a conversa da deputada Isa Penna com o presidente, e naquele momento um deputado me puxou novamente para a conversa. A puxada foi para que nós continuássemos a conversa, que continuássemos ali no bate papo, conversando.

Inclusive os deputados que estavam ali envolvidos na conversa já deram seus depoimentos na justiça para o próprio MP, já deram a versão deles sobre o que nós estávamos naquele momento ali, conversando.

CNN – Por que o senhor se dirigiu daquela forma? Por que o senhor abraçou ela por trás? Ela disse que não entendeu, porque não o conhecia para aquela intimidade e o espaço também não era adequado. Enfim, são várias as questões, mas por que o senhor se dirigiu a deputada daquela forma naquele ambiente? 

Eu estava indo… Nós tínhamos um certo alinhamento sobre os projetos que seriam votados naquela noite. E a sessão estava tomando um caminho, que talvez esse caminho, já decidido anteriormente, pré definido pelas lideranças partidárias, não acontecesse.

Já era tarde. Nós estávamos ali, era cerca de meia noite e meia, uma hora, e eu fui me dirigir ao presidente para que naquele momento (…) eu fui pedir para que [ele] pudesse acelerar a sessão, já pelo horário. Foi aí que eu interrompi a deputada Isa Penna com um gesto que eu reconheço inadequado, inoportuno, inapropriado, mas sem qualquer intenção de contato sexual. E naquele momento… Se você perceber as imagens, Tainá, eu estou ao lado dela e abraço. Eu não vim por trás, para abraçá-la por trás.

CNN – Mas deputado, ainda insisto, por que o senhor o fez? Se o senhor considera inadequado abraçar uma colega daquela forma, naquele ambiente?

Foi um gesto, como eu disse, inoportuno e impensado. Eu fui para conversar com o presidente. Não foi uma coisa “olha, eu vou lá, vou abraçar, vou encostar”. Foi uma forma que eu estava indo conversar com o presidente e fui me aproximar. Não foi uma coisa “olha, vou abraçar, vou chegar de uma certa forma, de um certo jeito”. Não foi uma coisa pensada.

E eu reitero pra você: acho importante nesse momento, na minha primeira fala, minha primeira oportunidade, dizer que eu reconheço esse gesto.

Estou arrependido disso, foi inadequado, foi inoportuno, mas nunca, eu acho que isso é importante a gente dizer, que eu nunca tive qualquer intenção de um contato sexual com a deputada. Eu não cometi nenhum crime ali. Eu estou sendo acusado de um crime de importunação sexual. A importunação sexual só acontece quando é para você satisfazer o seu próprio prazer sexual ou de uma terceira pessoa.

E ali, através das imagens, fica evidente que isso não aconteceu. E é como eu te falei, a própria deputada Isa Pena falou isso numa peça importante, que é o depoimento dela de acusação no MP contra mim. Inclusive em outros veículos de imprensa, onde ela fala que foi um toque muito leve, muito rápido, muito sutil, nas costelas…. e a própria denúncia…

CNN – Ela fala que foi no peito, deputado…

Olha, no depoimento dela, que é uma peça importante, tá?

CNN – Na comunicação e no depoimento.

Eu acredito que são falas incoerentes. São falas com versões controversas, que eu não quero julgar, tá aí a justiça, estão aí todos vocês da imprensa, para que possam realmente apurar o que realmente aconteceu. Mas ela, então, está tendo falas que são incoerentes. Respeito a deputada Isabela, todo o episódio foi muito triste pra todos nós, me solidarizo com ela e com todas as mulheres.

Já tive a oportunidade de pedir desculpa para a deputada Isa Penna, no momento do fato no plenário naquela noite, e no dia seguinte, também no plenário da Assembleia Legislativa, inclusive na minha fala. Na tribuna, em público, no Conselho de Ética, durante a minha fala, a minha fala durante o julgamento.  E agora aproveito essa oportunidade para me desculpar mais uma vez com a deputada Isa, com as mulheres todas, todas as mulheres que estão nos assistindo e que se sentiram ofendidas com isso, mas [afirmar] que realmente da minha parte não houve nenhum crime. Se a deputada está dizendo isso como você diz, as falas estão sendo incoerentes e controversas.

CNN – Ela disse que houve um toque sim, de leve, mas na altura do seio. Depois dessa ação, o que vocês conversaram? O senhor chegou a procurá-la para pedir desculpas? Qual foi a conversa após esse contato? O senhor esperava essa repercussão?

No momento ali do toque, do abraço, quando ela me reprimiu, eu tentei conversar com ela, se você assistir todo o filme…

CNN – O que o senhor falou?

Eu fui pedir desculpas, dizer que não [era] minha intenção [ter] qualquer contato errado, inadequado. Inclusive se você me permite, no início do nosso bate papo aqui, que ela disse reiteradas vezes que não me conhecia, que não sabia quem eu era, se você pegar inclusive esse filme interior, esse vídeo do plenário inteiro, alguns minutos antes, três ou quatro, eu estou conversando com a deputada Isa. Então, ela me conhece, ela sabe quem eu sou, nós somos colegas de parlamento.

CNN – Qual o nível de aproximação que vocês tinham?

Colegas de parlamento, colegas de trabalho.

CNN – É que nós somos mais próximos de uns, de outros não…

Sim, nós não éramos e não somos próximos, mas a gente se conhece, se cumprimenta no plenário, estávamos conversando aquele dia três ou quatro minutos antes, e depois temos todo esse episódio.

Inclusive, com uma imagem que foi veiculada por tantos veículos de comunicação, 40, 50 veículos de comunicação, nas capas de jornais, revistas e nas redes sociais, uma imagem congelada, que realmente por essa imagem congelada pode passar a impressão que eu havia tocado no peito da deputada, coisa que não é verdade.

Inclusive, tem uma perícia dentro da minha defesa na Assembleia Legislativa, e que vai estar incluída [na defesa], a qual assim que terminar a nossa entrevista eu vou te passar, na qual o perito, que é um perito criminal, não é um perito qualquer, ele é professor da academia de Polícia Civil, ele já prestou diversos serviços para o próprio Ministério Público, e ele já trabalhou para o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, e ali ele comprova que realmente não houve o toque, principalmente no seio da deputada Isa Penna.  Eu vou provar isso na justiça.

CNN – Mas o senhor teve contato físico com ela naquele momento?

Tive, reconheço que tive. Reconheço que foi um gesto inadequado, inapropriado, inoportuno, mas sem qualquer intenção de contato sexual ou a intenção de importuná-la sexualmente, e acho importante ressaltar as pessoas que…

CNN – O senhor fala muito que não houve a intenção, mas o simples fato de ter feito esse movimento não gerou um constrangimento, o simples fato de ter se aproximado dela pelas costas e tê-la abraçado… daquela maneira…

Eu não abracei.

CNN – Ainda que o senhor sustente que não tenha pego no seio ou nas partes mais íntimas, mas o toque… configura uma questão muito íntima? 

Olha, Tainá, cada um tire a conclusão que acha mais adequada. Eu reconheço que meu gesto foi inoportuno. No momento, no local, meu gesto foi inapropriado, mas longe de qualquer crime.

O crime de importunação sexual, acho que é importante a gente trazer à luz dos nossos telespectadores, para quem está nos assistindo, para você cometer o crime de importunação sexual você tem que estar querendo ter prazer sexual, você ter prazer sexual para si próprio ou proporcionar o prazer para uma terceira pessoa. É esse o crime de importunação sexual, e está claro que isso não aconteceu.

O gesto foi inapropriado? Eu reconheço, eu reconheço e pedi desculpas para a deputada Isa. Você assiste ao filme, a gente estava falando um pouquinho disso quando a gente se interrompeu aqui. Várias vezes eu tento chegar perto dela, tento tocar nela novamente, para me desculpar, e não consigo.

Então, eu reconheci naquele momento, até porque ela me reprimiu, que foi um gesto inadequado, [mas] completamente diferente de uma importunação sexual, de um crime. Toda ou uma boa parte da imprensa, no meu entendimento, cometeram um erro ou foram induzidos a um erro. Se você ver a própria denúncia do MP, o MP fala que foi um abraço na altura do seio. A deputada faz uma declaração, [diz] que foi muito rápida, nas costelas. Então foi inadequado, mas não foi  um crime.

CNN – E qual era a intenção desse abraço?

A intenção era cortar a conversa, romper a conversa dela com o presidente para que eu pudesse falar, que foi também confesso um gesto inadequado. Eu não devia ter feito isso. Acabei ali na minha intenção de conversar com o presidente, restringindo a conversa com a deputada, também não foi legal, mas era essa a intenção.

CNN – O senhor acabou fazendo um discurso. Foi um discurso improvisado? Foi pego de surpresa no momento que o senhor viu a deputada falando a respeito? 

Fui pego completamente de surpresa, Tainá. Eu estava no meu gabinete. A ideia era que nós terminássemos o ano legislativo.

CNN – O senhor achou que o assunto estava resolvido ali?

Eu achei que o assunto estava resolvido. Nós tivemos ali aquele episódio, naquela madrugada, onde eu me desculpei. Ela me reprimiu. Ela me chamou a atenção e eu achei que estava resolvido. Quando eu cheguei no dia seguinte no meu gabinete, a sessão estava acontecendo em plenário, na tarde do dia 17. Eu estava no meu gabinete, com a televisão ligada no plenário, para que eu pudesse descer no momento oportuno. Quando eu vi as acusações da deputada Isa Penna na tribuna, no plenário da Alesp, eu levei um susto, levei um choque imediatamente. Naquele momento, eu saio do meu gabinete e me dirijo ao plenário da Assembleia, para a tribuna, para que eu pudesse falar, inclusive para os [meus] pares, e para todos, porque a sessão da Assembleia é divulgada nas redes sociais, além de ter a própria TV Assembleia.

Foi naquele momento que eu acabei falando que eu não tive a intenção, que eu me desculpei na hora do fato, me desculpei no momento da fala. Foi uma fala completamente improvisada. Eu não imaginava que aquilo ia acontecer.  Tentei falar com ela no plenário, inclusive pra pedir desculpas mais uma vez, mas ela  não quis nem conversar comigo.

CNN – Em um âmbito pessoal, não sei como a situação chegou [à família], com sua mulher que também se posicionou nas redes sociais. O que o senhor achou da fala, até com insinuações da deputada Isabel?

Nesse momento esse episódio foi muito triste. Muito negativo e muito difícil para todos nós. Para própria deputada Isa Penna eu respeito isso, eu me solidarizo com ela. Meus pares na assembleia nunca haviam passado por um momento como esse. Com um caso desse, foi inédito [também] para minha família, para minha esposa especial. para os meus filhos, foi muito difícil, vem sendo muito difícil pra todos nós.

Para você ter uma ideia, a gente vem sofrendo uma perseguição, que na minha opinião é uma perseguição inversa nas redes sociais. Eu fui julgado, condenado por um tribunal inquisitório das redes sociais pelos haters. Para você ter uma ideia, Tainá, a minha esposa foi violentada também. as redes sociais dela foram invadidas…

CNN – Mas ela apontou o dedo para vítima…

Ela, ela… A minha esposa, Renata, levou praticamente quatro meses para se manifestar. Ela… a audiência na assembleia legislativa foi no dia 1 de abril, ela se manifestou no dia 2. Quatro meses depois. Quando eu falo que nós sofremos uma perseguição inversa nas redes sociais dos haters, foi porque a minha esposa foi violentada também virtualmente.

A pessoa pública, o deputado, sou eu, não é ela. E ela sofreu muito com isso, a família toda sofreu muito com isso. Eu tenho os meus filhos, eu tenho o Fernandinho e eu tenho o Fredinho, de sete e cinco anos, respectivamente.

Em um futuro próximo, eles vão entender, vão ser questionados sobre isso, vão me perguntar “pai, o que aconteceu nesse episódio?” Podem até sofrer, inclusive, bullying na escola. [Vamos ver] como é que essas crianças vão reagir.

CNN – E o que o senhor pensa em falar para elas? 

Eu pretendo dizer que todo o episódio… contar o que aconteceu, como estamos conversando agora, todos os pontos, dizer que o pai deles não é esse monstro que  foi pintado, porque depois de 40, 50 capas de revistas, jornais toda a parte da mídia dizendo que o Fernando Cury apalpou, que o Fernando Cury assediou, ninguém me conhece mas todo mundo me julgou. Já me condenaram, e eu vou explicar pra eles isso e eles sabem que… e vão saber lá na frente o pai que eles têm em casa. a minha esposa sabe o marido que ela tem.

CNN – O senhor pretende falar que se arrepende e que isso não é correto?     

Claro. Eu estou arrependido. Se você perguntar hoje “você está arrependido?”, eu [digo que] estou arrependido. Agora, foi um gesto inadequado que eu fiz. Eu não cometi crime nenhum. Eu tenho a minha consciência tranquila em relação a isso, que eu não cometi nenhum crime, e que eu vou provar isso na justiça e explicar pra eles, inclusive. Quero ensiná-los com esse episódio que eu passei, essa questão do machismo, essa questão do machismo estrutural, do patriarcado.

Confesso inclusive que eu não tinha muito conhecimento sobre esse tema. Eu comecei a me dedicar, fui estudar mais, ler mais depois desse episódio. Eu tenho esse perfil, é uma coisa até cultural. A minha família, eu, meus irmãos, somos muito do toque, do abraço, do beijar, eu sou descendente de libanês, e libaneses têm muito isso, o árabe, de tocar, de abraçar, de beijar.

Agora, nos dias de hoje, não cabe mais isso. Eu tenho lido muito sobre isso, eu tenho estudado. Uma grande parte das pessoas, inclusive uma grande parte das mulheres, não é que elas não querem ser abraçadas, elas sequer admitem ser tocadas por nós sem consentimento.

Então, a partir de agora, eu estou aprendendo com isso. Esse episódio, ainda que muito triste, tem servido de aprendizado. E eu vou levar esse aprendizado pra dentro de casa, porque eu tenho 2 meninos, então esse episódio, por mais triste que tenha sido, é a gente procurando tirar bons aprendizados disso tudo.

CNN – Como foi esse período de reclusão, deputado? 

Eu tenho outras atividades. Tenho uma empresa, sou produtor rural, então eu também aproveitei esse momento para cuidar das minhas coisas pessoais. Da minha empresa, da propriedade, aproveitei para ficar um pouco mais com a família, com a Renata, com as crianças, porque o dia a dia do mandato é muito difícil. A gente acaba ficando muito fora de casa. Eu rodo muito percorrendo o interior do estado, nas regiões onde eu tenho atuação. Então eu aproveitei para ficar mais recluso com a família, curtir as crianças e aproveitar um pouco mais. Mas também continuei com meu engajamento político, social pra minha cidade, para minha região e para as regiões onde eu tenho atuação, preparando a minha volta.

O meu retorno vai se dar nos próximo dias, eu preciso estar antenado com as demandas, com as dificuldades políticas enquanto deputado, até pelo momento que vivemos esse momento ímpar de pandemia. Pensando principalmente nessa retomada, de como vai ser daqui pra frente.

CNN – A deputada Isa pediu a sua expulsão. Ela considerou sua pena branda. O que o senhor acha da penalidade escolhida? 

Eu não tenho que achar nada. Eu tenho que aceitar e cumprir o que meus pares me impuseram. Essa pena eu aceito e cumpro, como venho cumprindo desde o início. Foi uma decisão que os meus colegas me imputaram e simplesmente eu tenho que cumprir.  Mas é verdade isso que você está dizendo: a deputada Isa Penna nunca está satisfeita com o resultado. Primeiro eram quatro meses, ela pediu seis meses. Deram seis e agora ela luta pela cassação. É difícil, [mas] a gente tem que respeitar. Eu entendo e respeito a decisão dos nossos pares, mas agora eu também entendo a situação da deputada nunca estar satisfeita. Ela é parte, ela está emocionalmente envolvida, inclusive essa é uma plataforma da campanha politica dela, é uma bandeira dela. Então é importante que ela possa cada vez mais alimentar esse assunto, e entrar nessa discussão do prazo da pena, quatro meses, seis meses…a cassação já passou, agora eu espero quando eu voltar…

CNN – O senhor acha que ela usa isso como bandeira política?

Cada um tem o seu entendimento.

CNN – Só reformulando: [o senhor pensa que ela] se aproveitou da situação?

No meu entendimento pessoal, eu acredito que houve um aproveitamento político de toda essa situação.

Eu fui considerado o ícone, o símbolo do combate contra o machismo no estado de São Paulo, no Brasil e no mundo. Me julgaram pelo simples toque de um segundo. O episódio todo durou três segundos, o toque foi por um segundo, e eu fui considerado um monstro.

Fui punido por isso e aceitei minha punição. Estou cumprindo a minha punição e espero ter a oportunidade, na minha volta, de fechar esse ciclo de virar essa página. Olhar para frente, olhar para o futuro. Ajudar inclusive com o meu trabalho como deputado a construir políticas públicas importantes relacionadas a esse tema. Dialogar com meus pares, com os deputados. Eu sou autor, não sei se você sabe, de três leis importantes dentro da Assembleia.

Eu tenho condição de ter um diálogo e uma conversa boa com meus pares para que a gente possa criar ferramentas e políticas públicas importantes. Eu não quero ficar olhando para trás, para o passado. Não é que eu vou esquecer esse episódio, nada disso. Eu vou olhar para trás com o intuito de aprender que esse episódio trouxe marcas que não se apagaram, e que eu vou ter que aprender com isso. Agora, a deputada, o que eu percebo? Que ela traz esse tema para o aspecto político, para bandeira política, sempre com esse intuito.

CNN – O senhor acha que ela foi além do necessário?

Essa é a minha opinião. Eu percebo que já houve uma punição, e eu estou cumprindo essa punição.  Logo mais, deve acontecer ou não a justiça, então quer dizer que a gente agora tem que trabalhar pensando no futuro. Mas o que eu percebo é que ela fica me perseguindo, me perseguindo nas redes sociais. Ela falou que meu pai é coronel, mas meu pai não está mais aqui pra se defender.

Ela afirma que está investigando minha vida, meus bens, meu patrimônio… o que ela quer com isso? Ela tem esse direito de investigar minha vida? A minha vida todo mundo conhece, o meu IR (imposto de renda) é entregue anualmente na Alesp. Ela disse que estava de olho em mim no dia que eu estava tirando uma placa no muro da minha casa.

CNN – Os deputados haviam chamado ela para beber um whisky na sala do Cidadania. Houve esse convite? Ela disse que o senhor estava com cheiro de bebida. O senhor tinha ingerido bebida alcoólica?

Eu não bebi, Tainá. Essa é mais uma narrativa que veio a público, não sei se por meio da deputada ou de veículos de comunicação… mas eu desconheço essa confraternização à qual ela se refere

CNN – Como fica essa relação de antagonismo com a deputada Isa Penna quando você voltar? O senhor já pensou sobre isso?

Eu sempre fui um deputado do diálogo, do bom senso, do consenso. Eu quero voltar olhando pra frente, trabalhando. Eu fui eleito com 100 mil votos. Eu tenho a minha cidade, a minha região, e as regiões que eu tenho atuação para defender na Assembleia, eu tenho muito ainda para produzir nesse 1 ano e meio, quase dois anos de  mandato. [Tenho que] discutir políticas públicas importantes, desenvolver projetos importantes. A gente pode aproveitar esse episódio, que foi tão triste, para nos unir.

A deputada Isa Penna não precisa ser minha amiga, não precisa gostar de mim, mas nós podemos trabalhar juntos, em conjunto, aprendendo com todo esse episódio e  desenvolver políticas públicas nesse sentido.

Eu pretendo virar essa página, olhar pro futuro, aprender e voltar a ser como antes.

CNN – O seu nome, hoje, está ligado ao assédio. Como o senhor lida com isso e vai lidar daqui pra frente?

Eu vou provar na justiça que não houve crime nenhum, que eu não cometi assédio nenhum, que eu não importunei a deputada Isa Penna. Nós vamos ter outra perícia importante, inédita, que eu não posso entregar aqui, mas vou entregar depois, quando a gente fizer nossa defesa no TJ.

Eu nunca tive um processo na vida. Até os meus 42 anos de idade, eu nunca tive qualquer problema relacionado no âmbito da mulher. Depois do dia 16 para a madrugada do dia 17 de dezembro, quase um ano desse episódio, você nunca ouviu uma vírgula no meu nome em episódio de assédio e importunação.

CNN – Como o senhor pretende convencer essas pessoas que está arrependido, sendo que do outro lado o senhor ainda questiona a acusação?

Eu reconheço que foi um gesto inapropriado, mas não foi um crime. Estou arrependido do que eu fiz, não deveria ter feito, mas não cometi nenhum crime. Estou com a minha consciência tranquila. Eu vou provar isso (inocência) na justiça.

Para as mulheres, a deputada Isa Penna teve o direito de estar constrangida  e ofendida… me solidarizo com ela e com todas as mulheres que estão nos assistindo. Peço desculpas mais uma vez para a deputada e para as mulheres. Eu não cometi nenhum crime, não sou criminoso, é [sobre] isso que eu quero lutar na justiça, e vou demonstrar trabalhando, voltando à minha vida normal. As pessoas vão ter a oportunidade de me conhecer como pessoa.

CNN – Qual será a postura do deputado Fernando Cury?

A nova postura é o que diz respeito ao meu comportamento. Eu aprendi com esse episódio. Eu não posso mais sair por aí abraçando, tocando as pessoas como eu sempre faço. Agora vou me policiar, vou fazer isso com quem eu tenha amizade. Vou fazer isso ensinando meus meninos dentro de casa, de que agora nós vivemos em uma sociedade diferente da que eu fui criado.  Eu pretendo demonstrar no meu dia a dia como eu mudei.

CNN –  O senhor acha que o seu episódio pode reverberar na conduta e na postura dos seus colegas?

Eu acho que esse episódio teve a sua importância. Foi um episódio triste, negativo, marcou a todos nós, a mim e para a deputada Isa Penna, as nossas famílias… Mas vamos tirar boas lições, e uma delas é de como os colegas deputados vão se comportar daqui pra frente. E não só os deputados.

CNN – Quais outras ações o senhor pode tomar na sua conduta para diminuir essa sensação de machismo?  

Eu pretendo ter uma oportunidade de levar essa experiência negativa para todos os lugares onde eu passar. Através do meu mandato, eu tenho oportunidade de ter voz. Eu vou ter oportunidade de levar essa mensagem para as pessoas por onde eu passar, principalmente para as pessoas que lideram. Eu posso levar recursos a entidades que lutam contra a violência relativa às mulheres.

Muitas vezes, a gente fica discutindo políticas públicas dentro da Assembleia e a gente não consegue ter ações práticas e, talvez, tendo essa oportunidade de levar recursos por meio das emendas parlamentares, consiga fazer mulheres… por exemplo, na minha cidade, tem conselho das mulheres fazendo ações.

CNN – Esse é um assunto que entra na sua agenda?

Eu sempre defendi, mas eu nunca fui um militante dessa causa. Eu sempre respeitei e defendi. A partir de agora, pelo episódio, pelo aprendizado que eu tive, vai entrar na minha agenda para que eu possa de fato ter uma ação efetiva. Ações concretas nesse momento são mais importantes ainda.

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