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    Como a Peste Negra ainda afeta o sistema imunológico humano

    Genes que antes conferiam proteção contra a praga, agora estão ligados a maior vulnerabilidade a doenças autoimunes, como o Crohn e artrite reumatoide, segundo estudo

    Um túmulo com vítimas da Peste Negra, em East Smithfield, Londres
    Um túmulo com vítimas da Peste Negra, em East Smithfield, Londres Divulgação/Museum of London Archaeology (MOLA)

    Katie Huntda CNN

    A Peste Negra, o surto de doença mais devastador do mundo, matou metade da população da Europa medieval no espaço de sete anos durante o século 14, mudando o curso da história humana.

    Mas e os sobreviventes do que continua sendo o maior evento de mortalidade já registrado? Uma nova pesquisa publicada na revista Nature sugere que foi mais do que sorte que determinou quem viveu e quem morreu naquela época.

    A análise de DNA secular de vítimas e sobreviventes da Peste Negra identificou diferenças genéticas importantes que ajudaram as pessoas a sobreviver à praga, de acordo com um estudo de universidades de Chicago e de Ontário, nos Estados Unidos.

    Essas diferenças genéticas continuam a moldar o sistema imunológico humano até hoje, com genes que antes conferiam proteção contra a praga agora ligados a uma maior vulnerabilidade a doenças autoimunes, como a doença de Crohn e a artrite reumatoide, diz o estudo.

    “Somos descendentes daqueles que sobreviveram a pandemias passadas […] e entender os mecanismos evolutivos que contribuíram para nossa sobrevivência não é apenas importante do ponto de vista científico, mas também pode informar sobre os mecanismos e determinantes genéticos da suscetibilidade atual à doença”, disse o coautor do estudo Luis Barreiro, professor de medicina genética da Universidade de Chicago.

    Amostras do túmulo da praga

    O estudo de sete anos envolveu a extração de DNA isolado de três grupos diferentes de restos esqueléticos desenterrados em Londres e na Dinamarca: vítimas da peste, aqueles que morreram antes da Peste Negra e aqueles que morreram entre 10 e 100 anos após o surto da praga.

    Mais de 300 amostras vieram de Londres, uma cidade realmente atingida pela praga, inclusive de indivíduos enterrados em túmulos de East Smithfield usadas para enterros em massa no auge do surto entre 1348-1349. Outras 198 amostras foram retiradas de restos humanos enterrados em cinco locais na Dinamarca.

    O DNA foi extraído da dentina nas raízes dos dentes dos indivíduos, e os pesquisadores também puderam verificar a presença de Yersinia pestis, a bactéria que causa a peste. Eles então procuraram por sinais de adaptação genética à doença.

    “É um processo longo, mas no final você tem a sequência desses genes para essas pessoas de antes, durante e depois da praga e você pode perguntar: os genes que uma população carregava pareciam diferentes dos que outra população carregava”, disse o coautor Hendrik Poinar, professor de antropologia da Universidade McMaster em Hamilton, Ontário.

    A equipe identificou uma variante de um gene em particular, conhecido como ERAP2, que parecia ter uma forte associação com a praga. Antes da Peste Negra, a variante do ERAP2 considerada protetora contra a praga foi encontrada em 40% dos indivíduos incluídos no estudo de Londres.

    Após a Peste Negra, foi encontrada em 50% dos indivíduos. Na Dinamarca, a disparidade percentual foi mais acentuada – mudou de cerca de 45% das amostras enterradas antes da praga para 70% das enterradas depois.

    Mais de 300 amostras vieram do túmulo da praga de East Smithfield, em Londres /Foto: Divulgação/University of Chicago

    A equipe ainda não sabe exatamente por que essa variante conferia proteção, mas seus experimentos de laboratório em células cultivadas indicaram que, em pessoas com a variante ERAP2, uma célula imune conhecida como macrófago provocou uma resposta muito diferente à Yersinia pestis, explicou Barreiro.

    Macrófagos de indivíduos com a variante foram mais capazes de matar as bactérias em experimentos de laboratório do que de macrófagos de indivíduos que não a possuíam.

    “Não sabemos se isso ainda protege contra a peste, pois o número de casos nas populações atuais é muito baixo, mas especulamos que deveria”, disse ele. Também é provável que a variante seja benéfica contra outros patógenos – embora isso não tenha feito parte da pesquisa.

    Preço da imunidade

    A desvantagem da variante é que ela tem sido associada a uma maior suscetibilidade a distúrbios autoimunes, como a doença de Crohn, onde o sistema imunológico se torna hiperativo.

    “Isso sugere que as populações que sobreviveram à Peste Negra pagaram um preço, que é ter um sistema imunológico que aumenta nossa suscetibilidade de reagir contra nós mesmos”, disse Barreiro.

    Ele disse que era improvável que o surto de Covid-19 moldasse nosso sistema imunológico de maneira semelhante – em grande parte porque a doença mata predominantemente pessoas após a idade reprodutiva, o que significa que é improvável que os genes que conferem proteção sejam transmitidos para a próxima geração.

    Essa mudança na composição genética humana que ocorre em questão de décadas também é um exemplo raro de seleção natural rápida, disse David Enard, professor do departamento de ecologia e biologia evolutiva da Universidade do Arizona, que não esteve envolvido na pesquisa.

    “A estreita janela de tempo a partir da qual as amostras foram coletadas e o grande número de amostras analisadas são pontos importantes do estudo”, disse ele em um comentário publicado ao lado do estudo, “permitindo aos autores datar com precisão a seleção natural”.

    “Embora os biólogos evolucionistas já tivessem se perguntado sobre a possibilidade de seleção natural durante a Peste Negra, a investigação adequada não era possível sem essa datação precisa de muitas amostras”.

    Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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