Estudo permite que holandeses participem de eventos e se aglomerem como em 2019

Experimento do governo tenta descobrir se grandes grupos de pessoas podem se reunir com segurança durante a pandemia de coronavírus

Foto: KOEN VAN WEEL/ANP/AFP/Getty Images

Mick Krever, CNN

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Este é um conto de duas multidões.

A primeira está no Vondelpark de Amsterdã, um espaço verde com paisagismo magnífico na capital holandesa. Centenas de pessoas se juntam para comemorar os dias excepcionalmente quentes de fevereiro.

“Não é permitido, mas faremos mesmo assim”, disse uma jovem à TV holandesa. “Isso não pode continuar. Eles não podem nos deixar em casa. Estamos ficando deprimidos.”

Um vídeo filmado por uma rede de notícias local de Amsterdã no Vondelpark mostrou a euforia dos jovens que, como disse outra mulher, estavam “fartos” das regras.

A polícia reprime. O prefeito fecha todas as entradas do parque, exceto duas, para que possa monitorar todas as chegadas.

A segunda multidão está a poucos quilômetros de distância, alguns dias depois, na sala de concertos Ziggo Dome. Centenas de pessoas entram em fila para ouvir o cantor folk André Hazes Jr. entoar suas canções cafonas e cantar junto.

Desta vez, não há repressão. Pelo contrário, o evento tem a aprovação explícita do governo para desconsiderar o limite de 30 pessoas nos poucos tipos de reuniões internas permitidas.

Todos os presentes testaram negativo para Covid-19 não mais do que 48 horas antes. Todos usam etiquetas eletrônicas para rastrear contatos. É parte de um experimento apoiado pelo governo para ver como a indústria de eventos pode se recuperar em um país que, como grande parte da Europa continental, tem demorado a vacinar a população.

Foi como pousar “em uma espécie de sonho onde tudo é permitido novamente”, diz Vivian Nagelkerke, 26, que foi ao show com um amigo. “É realmente lendário estar de volta a uma sala de concertos. Antes da pandemia, eu ia a concertos três vezes por semana.”

Laboratório de Campo 

Os oito encontros iniciais ocorridos no mês passado foram o resultado de conversas de meses entre o governo holandês e um grupo de produtores de eventos que se reuniram para formar o “Laboratório de Campo”.

Os pesquisadores idealizaram uma série de eventos – de festivais de dança e concertos sentados a um jogo de futebol – para estudar o comportamento dos participantes e rastrear possíveis infecções.

“Até agora, as cobaias estavam muito felizes por fazerem parte da pesquisa”, ri Andreas Voss, professor de controle de infecção da Universidade Radboud.

Embora ainda não tenham publicado nenhum resultado conclusivo, Voss disse que, comparando os dados dos frequentadores aos da população em geral, eles acreditam que participar de um evento bem regulado, dividido em bolhas, com um teste PCR negativo, não é mais arriscado do que viver sua vida diária normal na Holanda.

“Até agora, o risco é muito menor do que não seria testado, fora do evento”, disse Voss. “Certamente temos resultados promissores, que mostram que em muitas das situações que criamos, o risco durante a situação especial era menor ou igual ao de casa”.

O ministro da saúde holandês concorda. No início deste mês, ele considerou as descobertas iniciais “realmente encorajadoras”.

A Comissão Europeia no início deste mês divulgou planos para um “certificado verde digital”, ou passaporte da vacina , para permitir que aqueles que foram vacinados provem seu status. O primeiro-ministro Mark Rutte disse que tal plano “pode ??ser útil no futuro”.

Pessoas soltas 

O risco, é claro, não era apenas para aqueles que participaram dos eventos, mas para qualquer pessoa com quem eles pudessem entrar em contato posteriormente. Os organizadores pediram aos participantes que limitassem o contato com qualquer pessoa vulnerável nos dias seguintes, e eles foram solicitados a fazer um segundo teste cinco dias depois.

Nagelkerke disse que viu algumas reações negativas no Facebook, mas seus amigos e familiares estavam apenas com inveja.

O Laboratório de Campo relata que detectou 67 casos positivos de coronavírus entre os candidatos ao evento, que tiveram a entrada negada. Apenas cinco pessoas entre mais de 6 mil participantes tiveram até agora um teste positivo no swab pós-evento, eles dizem, e os pesquisadores não podem ter certeza se a infecção resultou de um evento do Laboratório de Campo.

“O que aconteceu lá foi tão bizarro”, disse Emily Denissen, que comemorou seu 32º aniversário em um dos shows. “As pessoas simplesmente se soltam.”

Parte dos participantes, no entanto, não respeitaram as diretrizes estabelecidas. Assim que a cerveja começou a fazer efeito, as máscaras foram retiradas e os marcadores de distanciamento social ignorados.

Mas isso não é surpreendente, disse Voss, e não é uma coisa ruim. “Não os influenciamos de forma alguma, não os corrigimos durante o evento, porque queremos saber o que está acontecendo na vida real.”

“É verdade que durante o evento de dança e o show as máscaras foram retiradas muito rápido”, disse ele, “mas durante o teatro, a conferência de negócios e os experimentos de futebol, mais de 94% estavam usando máscaras”, pondera.

Na verdade, apenas alguns participantes do concerto foram convidados a usar máscaras. O Laboratório de Campo criou seis bolhas diferentes, cujas condições variaram em termos de rigidez. O mais relaxado tinha apenas 50 pessoas, não precisava de máscaras faciais e tinha um open bar durante todo o show. O mais rigoroso tinha 250 pessoas, exigia máscara facial o tempo todo, incentivava as pessoas a ficarem a 1,5 metros de distância.

“Quase não consigo descrever em palavras como foi”, disse Denissen. “Foi tão incrível.”

Niels Fekken, de 21 anos, que foi com Nagelkerke, diz que eles “puderam sentir o gosto da vida real”.

“Acho que não fiquei tão feliz no ano passado como naquele dia.”

(Texto traduzido, clique aqui e leia o original em inglês)

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