EUA: Há luz no fim do túnel, mas próximos meses serão ‘pior cenário’ da Covid-19

As hospitalizações também atingiram seis dígitos pela primeira vez nesta semana, agora com mais de 100.600 pacientes internados por causa da Covid-19 no país

Paciente com Covid-19 é tratada em hospital de Chicago
Paciente com Covid-19 é tratada em hospital de Chicago Foto: Shannon Stapleton - 02.12.2020 / Reuters

Christina Maxouris e Jay Croft, da CNN

Ouvir notícia

Em todas as partes dos Estados Unidos, os preparativos estão bem encaminhados para distribuir rapidamente as vacinas contra a Covid-19 uma vez que elas forem autorizadas. No entanto, os especialistas dizem que antes dessa promessa de alívio, os próximos meses no país provavelmente serão muito difíceis.

À frente, está provavelmente o “pior cenário do país em termos de hospitais lotados e número de óbitos”, de acordo com Leana Wen, médica de emergência. “Há muitos vírus em nossas comunidades agora”, disse ela.

Essas palavras ecoaram uma previsão desanimadora feita pelo diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, em inglês), Robert Redfield, que advertiu na quarta-feira (2) que os próximos três meses serão “os mais difíceis na história da saúde pública desta nação”.

É uma realidade sombria já refletida nos números. Nos últimos dois dias, foram mais 200 mil novos casos diários. Com o aumento do número de infecções, os EUA vêm adicionando um milhão de casos à contagem total a cada seis dias nas últimas três semanas.

As hospitalizações também atingiram seis dígitos pela primeira vez nesta semana, agora com mais de 100.600 pacientes internados por causa da Covid-19 em todo o país, de acordo com o Covid Tracking Project.

Pelo segundo dia consecutivo, nessa quinta-feira (3), o país registrou mais de 2.800 mortes pelo novo coronavírus, quebrando o recorde sombrio que o país havia estabelecido apenas um dia antes.

O Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde (IHME, em inglês) de Washington projeta agora que 262 mil pessoas vão morrer nos próximos quatro meses. As mortes diárias chegarão ao pico em meados de janeiro, com mais de 2.900 óbitos por dia.

A vacinação provavelmente não terá um grande impacto no número de mortes até 1º de abril, mas o uso de máscara pode ter, como explicou a equipe do IHME em uma atualização nesta sexta-feira (4). “Aumentar o uso da máscara para 95% pode salvar 66 mil vidas até 1º de abril”, disse a equipe.

Leia também:
Desemprego cai, mas EUA frustram com criação de vagas menor que a esperada
Médico prevê EUA com 3 mil mortes diárias por Covid: ‘Um 11 de setembro por dia’
Covid-19: EUA têm novo recorde de hospitalizados e mantêm alta de mortes diárias

Sistemas de saúde sob pressão

As principais autoridades de saúde há muito alertam que o aumento dos casos seria seguido por um maior número de internações, o que poderia paralisar os sistemas de saúde em todo o país. Hospitais e especialistas nos EUA agora estão sob alerta máximo.

Marvin O’Quinn, presidente e diretor de operações da CommonSpirit Health, que administra hospitais em 21 estados, disse à CNN que há aumento no número de pacientes em todas as instalações da rede. “Agora temos cerca de 2.100 casos positivos em nossos hospitais. Isso é um aumento de quase 70% desde 11 de novembro”, contou O’Quinn. “Estamos tendo cerca de 70 a 100 novos casos todos os dias.”

Na Pensilvânia, pouco menos de 5.000 pessoas estão hospitalizadas com Covid-19, e duas partes do estado estão se aproximando da falta de pessoal na área de saúde, disse a secretária de Saúde do estado, doutora Rachel Levine, na quinta.

“É muito importante lembrar que todos temos que estar atentos, temos um papel a cumprir com relação ao que está acontecendo nos hospitais agora”, afirmou Levine. “Pode ser que você não precise de cuidados hospitalares agora, pode não ter um ente querido no hospital neste momento. Mas o que está acontecendo em nossos hospitais tem um impacto direto em todos e influencia as etapas de mitigação que você deve seguir para conter a propagação do vírus”, continuou.

“As pessoas que fazem nosso sistema de saúde funcionar estão contando com você para fazer a coisa certa.”

Em Ohio, o governador Mike DeWine advertiu que os hospitais não estavam apenas em crise, mas sim que “a crise está piorando e ficando mais séria”.

O doutor Andy Thomas, do Centro Médico Wexner da Universidade Estadual de Ohio, disse a repórteres que um terço dos pacientes de unidade de tereapia intensiva (UTI) em seu estado deram positivos para Covid-19. Segundo ele, em alguns hospitais rurais, os pacientes com a doença representavam 60% dos leitos da UTI.

“Isso não é uma situação sustentável para os hospitais administrarem”, lamentou Thomas. “A área mais difícil para os hospitais aumentarem sua capacidade, ou seja, acrescentarem leitos, é a unidade de terapia intensiva”.

Além disso, os hospitais em todo o país aguardam os impactos que as viagens e os eventos de Ação de Graças podem trazer, com outro aumento projetado para começar a tomar forma nas próximas semanas.

Michael Osterholm, membro Conselho Consultivo da Covid-19 da equipe de transição do presidente eleito Joe Biden, disse que medidas são urgentemente necessárias para ajudar a conter a propagação e evitar que os hospitais “transbordem”.

“É preferível fazer isso agora e tentar evitar os casos do futuro do que esperar para quando a casa estiver pegando fogo a tal ponto que a gente nem consiga mais vagas, pois os hospitais estarão literalmente transbordando pacientes”, comparou. “É contra isso que estamos lutando.”

Jovem de 22 anos, é submetido a teste de Covid-19 em Malibu
Jovem de 22 anos, é submetido a teste de Covid-19 em Malibu
Foto: REUTERS/Lucy Nicholson

Novas medidas 

Na Califórnia, os hospitais estão tratando cerca de 2.066 pacientes de Covid-19 em UTIs, de acordo com os dados da secretaria de saúde do estado. Esse é o número mais alto desde o início da pandemia.

Os números preocupantes saíram no momento em que o governador Gavin Newsom anunciava uma ordem regional estrita para ficar em casa. O pedido entrará em vigor 48 horas após a capacidade das UTIs dos hospitais cair para menos de 15% de vagas livres em uma das cinco regiões em que o estado está dividido: Norte da Califórnia, Bay Area, Grande Sacramento, Vale de San Joaquin e Sul da Califórnia.

As projeções mostram que quatro dessas cinco regiões atingirão esse limite nos próximos dias, com apenas a Bay Area prevista para permanecer aberta até meados de dezembro, disse Newsom. “Estamos em um ponto crítico em nossa luta contra o vírus e precisamos tomar medidas decisivas agora para evitar que o sistema hospitalar da Califórnia seja sobrecarregado nas próximas semanas”, afirmou.

O governador de Delaware, John Carney, aconselhou que as pessoas fiquem em casa e disse aos habitantes da região para evitarem reuniões em ambientes fechados com qualquer pessoa fora de sua casa de 14 de dezembro a 11 de janeiro. O estado também exigirá que os residentes usem uma máscara ou cobertura de tecido sobre o rosto toda vez que estiverem dentro de casa com alguém que não vive ali.

“A vacina está a caminho, mas não se enganem. Estamos enfrentando os meses mais difíceis desta crise”, disse o governador em uma declaração. “Eu sei que estamos todos cansados da Covid-19, mas ela não está cansada de nós. Estamos implorando aos cidadãos de Delaware para fazerem a coisa certa.”

Enquanto isso, o lockdown (bloqueio total) da Nação Navajo, que deveria expirar neste fim de semana, será estendido por mais três semanas.

“Nossos especialistas em saúde estão dizendo agora que a onda ou pico atual é muito mais severa e problemática do que a onda que vimos em abril e maio”, aifrmou o presidente Jonathan Nez na quinta em um comunicado. Sob o lockdown, os cidadãos dessa área são obrigados a permanecer em casa o tempo todo, exceto para atividades essenciais, emergências e exercícios ao ar livre.

Governadores aguardam vacina em breve

Moderna afirma que sua vacina contra o coronavírus tem 94,5% de eficiência
Moderna afirma que sua vacina contra o coronavírus tem 94,5% de eficiência
Foto: Dado Ruvic/Reuters

Enquanto isso, os líderes locais e estaduais começaram a dar atualizações sobre quando esperam que os primeiros lotes de vacinas cheguem. Nenhuma vacina recebeu até agora autorização de uso de emergência da Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA, em inglês), a agência reguladora do país.

O prefeito da cidade de Nova York, Bill de Blasio, disse na quinta que a cidade deve receber a primeira rodada de vacinas contra Covid-19 em cerca de 12 dias. Segundo ele, as doses iniciais virão da Pfizer e, cerca de uma semana depois, o município receberá as vacinas da Moderna.

De acordo com o prefeito, a prioridade será dar vacinas a profissionais de saúde de alto risco e trabalhadores e residentes de lares de idosos. “Com o tempo, haverá vacinas suficientes para todos”, disse De Blasio, mas, por enquanto, a cidade está trabalhando na “distribuição mais rápida e eficaz”.

Em New Hampshire, o governador anunciou que o estado espera receber as primeiras doses da vacina da Pfizer na terceira semana de dezembro, acrescentando que a vacina Moderna virá na semana seguinte.

O governador de Massachusetts, Charlie Baker, disse que espera cerca de 300 mil doses de imunizantes até o final do mês. Profissionais de saúde e residentes de instituições de cuidados de longa duração “estarão absolutamente perto do topo da lista” para as primeiras doses, disse Baker. O estado deveria lançar oficialmente seu plano de distribuição nesta sexta.

Redfield, chefe do CDC, aceitou as recomendações da vacina Covid-19 que foram votadas esta semana pelo Comitê Consultivo em Práticas de Imunização da agência.

Os conselheiros votaram por 13 votos a um na terça-feira (1) para recomendar que os profissionais de saúde e residentes de instituições de tratamento de longo prazo sejam os primeiros na fila para qualquer vacina autorizada pela FDA. Mas as principais autoridades federais de saúde dizem que a orientação do CDC é apenas isso: uma orientação.

Os estados podem usar essas recomendações, bem como o conselho de outros especialistas, para propor os melhores planos de alocação para seus residentes, com base em suas próprias circunstâncias, disse o secretário de Saúde e Serviços Humanos, Alex Azar, na quinta-feira (3).

Desafios que permanecem pela frente

Médicos cuidam de paciente com Covid-19 na UTI
Médico Ashley Ferrel e fisioterapeuta Karen Miller cuidam de paciente da Covid-19 em UTI de hospital em Chicago, nos EUA
Foto: REUTERS/Shannon Stapleton

As principais autoridades de saúde estão trabalhando continuamente para determinar como a distribuição de uma vacina funcionaria melhor em diferentes comunidades, uma vez que recebam luz verde.

“Há uma grande distância entre uma doca de carga e o braço de uma pessoa”, disse Rick Bright, membro do Conselho Consultivo da Covid-19 de Biden. “Estamos observando de perto o caminho complicado entre a fabricação da vacina e a entrega e administração das doses”.

“Entendemos que ainda há muito trabalho a ser feito em nível local, estadual, tribal e territorial para garantir que haja infraestrutura para poder administrar essas vacinas, para garantir haja pessoas no local treinadas para poder administrá-las”, detalhou.

Além disso, ainda há trabalho sendo feito para garantir que haja pessoas em todas as comunidades informando os residentes “em todos os idiomas necessários para garantir que as pessoas possam entender o valor da vacina e confiar nela e se preparar para tomá-la”.

O maior desafio ainda está pela frente, segundo a doutora Marcella Nunez-Smith, copresidente do conselho consultivo.

“Em algumas de nossas comunidades mais afetadas, sabemos que há um certo grau de hesitação e cautela com a vacina”, afirmou a médica à NBC News.

“O que temos que fazer é descobrir quais dúvidas as pessoas têm”, disse ela. “Ao mesmo tempo, temos que reconhecer que a confiança diminuiu entre os norte-americanos e o governo federal e será necessário trabalhar para reconstruir e restaurar essa confiança.”

(Texto traduzido. Leia o original em inglês.)

Mais Recentes da CNN