Falta da segunda dose e sommelier de vacina: os inimigos da imunização no Brasil

Mais de 970 mil idosos com mais de 80 anos ainda não receberam a segunda dose do imunizante. A maior parte deles é do Rio de Janeiro

Especialistas reafirmam que todas as vacinas são seguras e que completar o esquema vacinal é imprescindível
Especialistas reafirmam que todas as vacinas são seguras e que completar o esquema vacinal é imprescindível Foto: Tony Winston - 10.mai.2021/Ministério da Saúde

Beatriz Puente, da CNN, no Rio de Janeiro*

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Mesmo com a aceleração dos calendários de vacinação em várias cidades do país, a imunização total da população contra Covid-19 ainda enfrenta desafios no Brasil. Pessoas que não retornaram para tomar vacina e as que querem escolher qual imunizante tomar atrasam o calendário vacinal. No Brasil, segundo pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), 970 mil idosos com mais de 80 anos não compareceram para tomar a segunda dose. Esse índice é maior nos estados do Ceará (19,5%), Amazonas (15,9%), e Rio de Janeiro (14,5%). 

Especialistas reafirmam que todas as vacinas são seguras e que completar o esquema vacinal é imprescindível. A pesquisadora em gestão e saúde pública da UFRJ, Ligia Bahia afirmou que os motivos para que essas pessoas não retornem são muito variados e que muitas vezes envolvem a disponibilidade de tempo para ir aos postos. Ela também ressaltou que a busca ativa precisa ser feita de forma especializada. 

“Em geral os motivos estão relacionados à impossibilidade de faltar ao trabalho, ou deixar de realizar afazeres domésticos, e não ter acompanhamento para o deslocamento até os postos de vacinação. É necessário organizar campanhas e meios para resgatar essas pessoas. São distintas as ações para trazer os não vacinados e os faltosos. O SUS sabe fazer, tem experiência anterior.  Uma medida importante seria reservar sempre doses para quem não tem nenhuma dose e para aqueles que precisam da segunda.”, apontou a pesquisadora.  

A pesquisa também já calculou que cerca de 11% ou 44 milhões de brasileiros que deveriam ter recebido a segunda dose ainda não compareceram aos postos. Ligia Bahia, explicou que, mesmo com metade das pessoas com o esquema vacinal completo, ainda não é suficiente para voltarmos à vida normal.  

“Precisamos alcançar cobertura com duas doses de pelo menos 50 a 60% do grupo prioritário para obtermos a redução sustentada de casos graves e óbitos. Vida normal ainda não está no horizonte é imprescindível seguir usando máscaras, álcool em gel e mantendo distanciamento social.”, apontou Bahia. 

O vice-presidente a Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim), doutor Renato Kfouri, apontou que as taxas de abandono, ou seja, a porcentagem de pessoas que dão início ao esquema vacinal e não terminam, é um fenômeno comum em qualquer campanha de vacinação. Mas ressaltou que, tratando-se da Covid-19, são esperados números bem menores por conta da urgência. 

“Com a covid a gente espera uma taxa menor, porque a pandemia causou toda uma alteração na vida das pessoas, tem gente presa em casa, e as pessoas querem voltar à vida normal. Isso acontece porque a pessoa achou que já estava protegida, porque esqueceu, porque não conseguiu ir no dia. E quanto mais longo o intervalo entre as doses, maior a chance de abandono.”, afirmou o vice-presidente da Sbim. 

Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) ouvidos pela CNN repudiaram também a prática dos “sommeliers de vacina”, como são chamadas as pessoas que vão aos postos de vacinação em busca de imunizantes específicos contra o novo coronavírus. Essas pessoas chegaram a criar grupos nas redes sociais para se ajudarem na procura da vacina de preferência. Para a pneumologista e pesquisadora da Fiocruz, Margareth Dalcolmo, a tentativa de escolher um determinado imunizante não tem base científica. 

“Não há o menor sentido em fazer escolha de vacina. Ninguém deve fazer isso sem estar baseado em dados científicos. Todos devem tomar os imunizantes conforme a disponibilidade em cada região”, disse Dalcolmo.   

O doutor Renato Kfouri, ressaltou a segurança de todos os tipos de imunizantes disponíveis no Brasil atualmente. Ele também explicou que a decisão individual de escolher qual tipo de vacina tomar pode afetar o coletivo.  

“É uma bobagem esse tipo de pensamento atualmente. Porque cada semana que você deixa de se vacinar pode significar sua vida ou a vida de uma pessoa. Coletivamente falando, quanto mais rápido a gente vacinar, mais rápido a gente diminui a doença e volta a vida normal para todos. Todas as vacinas são extremamente seguras e todas tem uma elevadíssima eficácia contra as formas graves da doença”, afirmou Kfouri. 

*sob supervisão de Helena Vieira

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