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    ‘O lockdown é uma das únicas alternativas que temos’, afirma médico sanitarista

    Em debate na CNN sobre a COVID-19, médicos defendem a implementação de medidas mais rigorosas de isolamento em cidades carentes de leitos de terapia intensiva

    Da CNN, em São Paulo

     
    Especialistas da área de saúde participaram de um debate na tarde deste domingo (3) na CNN sobre a eficácia do lockdown como medida de combate à COVID-19. A conversa foi conduzida por Reinaldo Gottino e Carol Nogueira e teve como principal intenção tentar encontrar soluções para diminuir a curva de contágio do novo coronavírus que já causou a morte de 6.750 brasileiros, e registra, hoje, quase 100 mil casos. 

    O Maranhão foi o primeiro estado brasileiro a decretar o lockdown, que significa um fechamento praticamente total das empresas e comércios e também da circulação de pessoas nas ruas. Para os profissionais da saúde, o lockdown tem sido visto como a única alternativa possível para previnir o colapso em regiões já precarizadas. No entanto, alguns contra-argumentos pedem a abertura, colocando como prioridade as implicações econômicas e, principalmente, o impacto na população mais vulnerável.

    Todos os médicos presentes no debate concordam que pessoas de baixa renda precisam de um apoio muito eficaz do governo federal, já que só garantindo dignidade e alimentação será viável impedir a circulação destas pessoas. Além disso, consideram necessário o apoio da polícia nas ruas pedindo para que as pessoas voltem para as suas casas.

    “Nas vias principais será necessário as Forças Armadas para garantir o fechamento total do comércio e da circulação de pessoas. Isso aconteceu em Wuhan, isso aconteceu na Lombardia. O governo federal não pode se furtar de ajudar os estados, e principalmente as cidades que necessitam dessa intervenção”, defende o cardiologista Alexandre Soeiro.

    No debate estava, também, o médico sanitarista Sérgio Zanetta, que considera o isolamento mais rígido a única alternativa possível para diminuir a circulação do vírus. “É uma doença sem tratamento, sem vacina e que leva ao colapso do sistema de saúde. Nos níveis que temos de circulação, é possível que o lockdown se faça necessário em outros estados”, defende. O médico também fez críticas às manifestações que estão acontecendo pedindo a reabertura do comércio, dizendo que são atos contra a solidariedade e a sobrevivência da humanidade. “Não podemos por ganância ou qualquer outra inspiração nos furtamos a estas medidas de contenção da circulação”, diz.

    Rodrigo Gasparini, infectologista, complementou Zanetta dizendo que as medicações disponíveis ainda carecem de estudos com maior evidência e chama a atenção para a capacidade de leitos no país. “No Brasil, hoje, existe um dado recente de que temos pouco menos de dois leitos para cada mil habitantes. Estes dois leitos envolvem tanto leitos de pronto-atendimento, quanto de enfermaria e de UTI. Esse número é abaixo do preconizado pela Organização Mundical de Saúde (OMS), então a gente já teria aí um gargalo”, diz Gasparini. 

    Sobre leitos de UTI, o recomendável pela OMS seria cada país ter entre dez e trinta leitos de UTI para cada 100 mil habitantes. Segundo uma pesquisa da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), o Brasil tem cerca de vinte. “O número de leitos de UTI é satisfatório, ele atende às determinações da OMS, entretanto o problema mora na distribuição (…) Algumas regiões dispõem de leitos que atenderiam a população, entretanto outras regiões, não”.

    Por isso, o infectologista Júlio Croda pede que o lockdown seja avaliado de acordo com as diferenças entre as cidades e regiões. “O principal marcador para o lockdown deve ser o número de leitos para terapia intensiva disponível em cada lugar”.  

    As regiões Norte e Nordeste deverão entrar com este regime mais rigoroso primeiro, de acordo com o médico, visto que são mais carentes de infra-estrutura para o tratamento. “Cidades como Manaus, Belém, Macapá e Boa Vista devem entrar em lockdown, assim como Fortaleza e Recife, que também apresentam uma perspectiva muito complicada”. Na região Sudeste, ele cita como possibilidade de fechamento a capital do Rio de Janeiro.

    O cardiologista Alexandre Soeiro corrobora sobre a necessidade de aderência ao lockdown, e ressalta sobre a importância de se fazer este fechamento de forma coordenada, pouco a pouco, conseguindo medir os resultados e, claro, levando em consideração a capacidade de leitos a fim de não entrarem em um colapso como a Itália e a Espanha, onde os médicos tiveram que decidir qual paciente conseguiriam salvar. “Um doente que ocupa um leito de UTI, e já é entubado, fica em média, quatorze ou quinze dias, não é uma rotatividade alta”.

    Como o Brasil é um país continental, Soiero chama a atenção para a dificuldade de mensurar em qual estágio da doença estamos, já que o vírus poderia demorar a alcançar algumas regiões. “Não chegamos no pico, a preocupação agora é em relação ao colapso que deve se amplificar”, afirma dizendo que este momento mais grave de contágio ainda está por vir.