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    Por que dizer “não” pode ser difícil e como isso pode fazer bem para a saúde mental

    Sensação é comum e está associada a diferentes fatores, incluindo o desejo por ser aceito pelo outro, de acordo com especialistas

    Catherine Falls Commercial/Getty Images

    Lucas Rochada CNN

    em São Paulo

    Você certamente já se deparou com uma situação em que gostaria de ter dito “não”, mas evitou dar uma resposta negativa e acabou fazendo algo que não gostaria.

    A sensação é comum e está associada a diferentes fatores, incluindo o desejo por ser aceito pelo outro, de acordo com especialistas em comportamento e saúde mental.

    O psicólogo Maycon Rodrigo Torres, membro do Laboratório de Psicanálise e Laço Social da Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor de psicologia na Faculdade Maria Thereza (Famath), destaca como a recusa pode afetar as relações afetivas.

    “O dizer não significa, de certa maneira, negar a demanda que uma outra pessoa te faz e isso faz com que a pessoa fique preocupada sobre como ela será vista por essa pessoa. De que maneira essa recusa a fazer alguma atividade ou a responder de alguma maneira pode prejudicar a opinião que a outra pessoa tem dela. Aqui, a gente tem um pouco desse movimento de preocupação excessiva com a forma como o indivíduo é visto pelo outro”, diz.

    A psicóloga Luana Ganzert, especialista em emoções, afirma que ser aceito faz parte das necessidades básicas emocionais dos indivíduos e que recusas podem interferir nesse contexto.

    “Quando estamos atendendo essa necessidade básica temos medos de ser rejeitados, de não sermos amados e aceitos. Algumas pessoas, são mais sensíveis e não suportam a possibilidade de não serem aprovadas. Outras preferem evitar conflitos. Esses são os maiores motivos para que as pessoas tenham medo de dizer não”, explica.

    Para o psicólogo e professor de psicanálise Ronaldo Coelho, evitar dizer não também é uma forma encontrada de “proteger o outro”.

    “Mas, quando ‘protegemos’ o outro da frustração estamos criando condições para que ele fique atrofiado diante da vida. Imaginemos que quando nos frustramos é como se caísse um peso sobre a gente. Para que consigamos retirar esse peso precisamos de musculatura. Se somos protegidos da frustração, nós não desenvolvemos essa musculatura, ficamos atrofiados, e quando o peso cai sobre nós ficamos arrebatados, não conseguimos lidar”, detalha.

    Consequências para a saúde mental

    Agir o tempo todo com objetivo de agradar ao outro, sem se refletir sobre o que realmente se quer pode levar a um “apagamento” sobre os próprios limites e desejos, explica Coelho.

    “É comum a pessoa não saber do que ela gosta e o que ela não gosta, do que faz bem e o que faz mal a ela, do que é bom e o que não é, ela perde a capacidade de realizar julgamentos importantes para sua vida. É como se ela sempre precisasse do olhar do outro, do julgamento do outro, para decidir sobre a própria vida, as próprias vontades e desejos”, afirma.

    A avaliação é compartilhada por Torres. “O grande problema de não conseguir dizer não é que, em geral, a pessoa abre mão do que ela gostaria de fazer em nome do desejo do outro. Esse processo pode levar a uma sobrecarga. A pessoa acumula tarefas ou coisas pra fazer e essa sobrecarga tende a aumentar ainda mais a ansiedade que, a longo prazo, pode criar problemas mais crônicos.”

    Entre as consequências, estão o desenvolvimento de problemas para dormir, impactos para o desempenho no trabalho ou estudo e limitações relacionadas à ansiedade.

    A psicóloga Luana Ganzert afirma que pessoas que não sabem dizer não tendem a ser mais inseguras ou preferem evitar a fadiga e discussões sobre ter uma opinião contrária.

    “Quando você fala ‘sim’ para tudo, dificilmente você vai cuidar de você. Aceitar tudo significa sofrer emocionalmente em silêncio. Ao dizer ‘sim’, quando, queriam dizer o contrário, as pessoas se sujeitam a situações que lhes causam prejuízos, emocionais e em alguns casos até financeiro. Compram coisas que não desejam por dificuldade de se impor à insistência do vendedor, arrumam compromissos indesejáveis, arrumam relacionamentos tóxicos e muitas vezes abusivos”, acrescenta.

    Como exercitar a prática de dizer “não” e reduzir o sentimento de culpa

    A psicóloga Gislene Erbs reparou que seus pacientes tinham uma grande dificuldade em dizer “não” quando precisavam e que isso os deixava frustrados e infelizes. Ao buscar fortalecê-los emocionalmente para que pudessem estabelecer-se como prioridades para si mesmos, sentindo-se seguros para negar aquilo que não lhes interessava, Gislene entrou em contato mais profundamente com suas próprias fraquezas. Ela lembrou ocorridos, nos quais, por causa de crenças limitantes, não pôde dizer o “não” desejado e merecido, que a fizeram adoecer física e mentalmente.

    O cruzamento entre suas dores e as dores dos outros, ajudou Gislene a encontrar formas de lidar com essa deficiência de sempre se colocar em segundo plano. Estes modos de agir foram compilados em um método, composto de técnicas e ferramentas estrategicamente elaboradas. Método que, após ser usado em seus pacientes e validado por eles, a psicóloga resolveu compartilhar no livro “Sim ou Não – A difícil arte de colocar-se em primeiro lugar na sua vida”, lançado neste mês.

    “Após tantos anos trabalhando com esse método, e a pedido de muitos dos meus pacientes, resolvi colocar neste livro as bases desse método, de resultados comprovados a partir de meus muitos anos de experiência, que irão ajudar você a aumentar e melhorar sua capacidade de dizer ‘não’ de maneira adequada e justa, de modo que consiga com isso melhorar sua qualidade de vida, preservando ainda seus bons relacionamentos”, afirma a autora no início da obra.

    No primeiro capítulo do livro, Gislene faz um convite a seus leitores, para que reflitam se estão colocando sua felicidade na mão dos outros e se questionem a respeito dos motivos e das consequências deste comportamento. A autora afirma que não é saudável e nem lógico sacrificar o próprio bem-estar para agradar aos outros, mas que, infelizmente, em grande parte das vezes, as pessoas fazem isso, porque não sabem dizer “não”.

    No entanto, a arte de dizer “não” pode ser treinada e aprimorada ao longo do tempo, segundo a psicóloga. As técnicas e ferramentas apresentadas ao longo do livro têm como objetivo ajudar as pessoas nesta tarefa.

    O segundo capítulo da obra trata sobre o desejo de se sentir valorizado. Segundo Gislene, é esta ambição que faz com que muitas pessoas, buscando agradar aos outros a todo custo, não consigam dizer nunca “não” às suas demandas. “Só que ao fazer isso, você pega o caminho errado e deixa de ser valorizado até mesmo por si próprio”, diz.

    A obra oferece um teste com afirmações e questionamentos que ajudam a identificar certos padrões de comportamento que levam à passividade diante das exigências alheias.

    A falta de coragem de dizer “não” é o tema do terceiro capítulo do livro. Com o intuito de superar essa fraqueza, Gislene destaca a importância de o leitor treinar fazer as escolhas corretas e assim elevar seu grau de tranquilidade, aumentar seu nível de saúde, buscar a qualidade dos bons relacionamentos e estimular a sua prosperidade.

    Segundo a especialista, o leitor deve, nesse sentido, procurar também sempre escolher a si mesmo em primeiro lugar. “A sua felicidade começa pelo respeito a si mesmo”, afirma.

    Debruçando-se sobre dilema entre dizer “sim” e dizer “não’, a autora aborda no quarto capítulo a importância do autoconhecimento para se compreender melhor os reais motivos do incômodo que muitos têm em dizer um “não” necessário.

    Para Gislene, o melhor estado de espírito para iniciar o processo de autoconhecimento é entender que escolher a si mesmo em primeiro lugar não é ser necessariamente egoísta. Conforme a psicóloga, levar em conta os próprios interesses é praticar as melhores escolhas, que fazem com que se colham os melhores resultados.

    A especialista explica que para poder empregar um “não” de forma correta nas mais diversas situações da vida, é preciso entender o seu verdadeiro valor, ao mesmo tempo em que se mantém um relacionamento saudável com aqueles a quem a resposta negativa foi dada.

    A autora destaca como o ato de valorizar a si mesmo anda de mãos dadas com a autoestima e como esta, quando aumenta, possibilita a tomada de decisão mais assertiva, a construção de bons relacionamentos e ajuda a responsabilizar-se pelas escolhas da vida. Além disso, segundo ela, escolher a si mesmo em primeiro lugar auxilia no sentido de aumentar a autoestima, assim como a ter clareza dos motivos do seu “não”.

    Para superar a dificuldade de dizer “não”, o indivíduo precisa trazer à consciência os fatores que influenciam sua tomada de decisão. O livro aborda estes fatores, que devem ser trabalhados, segundo Gislene, para que o indivíduo se sinta mais confortável com as escolhas que precisa fazer.

    Entre eles estão: a falta de autoconhecimento; a impulsividade; a falta de habilidade social; a ansiedade; a baixa autoestima; o sentimento de pena; a falta de inteligência emocional; o medo da rejeição; a necessidade de autoafirmação; e a realidade de querer honrar pai e mãe.

    “Um não sonoro e adequado é, na verdade, um grito de liberdade – para você e, acredite, para quem o recebe”, diz a psicóloga. Conforme a autora, para negar corretamente, não é preciso ser agressivo, mas assertivo e determinado.

    Gislene destaca alguns pontos que devem ser aprendidos para que a pessoa se aprimore na arte de dizer “não”. São eles: compreender o verdadeiro valor de expressar a negação, fazer escolhas conscientemente e lidar com as emoções.

    “Coloque em cena todo o seu poder de decidir a seu próprio favor. Você já está preparado para essa jornada, onde assumirá o protagonismo de suas decisões e se preparará para dizer tantos ‘nãos’ quantos forem necessários para valorizar mais a sua vida”, diz.