Vice do CFM estima que coronavírus já afastou 10% dos profissionais de saúde

Médicos brasileiros avaliam que Brasil não está estruturado pra combater o coronavírus

Enfermeira com máscara de proteção em hospital de Brasília
Enfermeira com máscara de proteção em hospital de Brasília Foto: Adriano Machado - 10.mar.2020/ Reuters

Carla Brandão e Pedro Duran

Da CNN, em São Paulo

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Febre, dor no corpo, dificuldade pra respirar, tosse e sensação de cansaço. Os sintomas que compõem o quadro clínico da COVID-19 viraram também parte da rotina de médicos, enfermeiros e auxiliares que trabalham em hospitais e unidades de saúde. Com isso, eles precisam se afastar e acabam desfalcando as equipes que atendem os infectados pelo novo coronavírus.

Pela estimativa do médico Donizetti Giamberardino Filho, vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), cerca de 10% dos profissionais de saúde brasileiros que estão na linha de frente já estão afastados e ainda precisamos trabalhar pra não chegar no patamar de 40%. “Isso é o que se observa nos países como Itália e Espanha, onde a crise foi grave. Os EPIs [equipamentos de proteção individual] ajudam a baixar esse nível”, diz ele.

EPIs

Os EPIs aos quais o médico se refere são itens obrigatórios para o uso médico em locais com potencial contágio por vírus e bactérias. Em epidemias, são obrigatórios itens como máscara, luvas, avental, gorro, óculos e protetor facial, além de itens para higienização como sabão e sabonete líquidos, álcool em gel a 70%, papel toalha e lenços descartáveis. 

Para garantir que esse tipo de proteção está sendo garantido nos lugares de atendimento dos pacientes, o CFM abriu um canal de denúncias. A princípio, a ação não visa multas ou intervenções mais duras nos lugares, mas um aconselhamento pela proteção dos profissionais e dos próprios pacientes.

Nessa plataforma, o médico ainda poderá apontar outros problemas como falta de leitos (internação e UTI), dificuldade de acesso a exames (imagem e laboratoriais), deficiências na triagem e carência de profissionais nas equipes.  

Médicos infectados

O coronavírus ja atingiu inclusive medalhões da medicina brasileira, como o cirurgião gástrico Raul Cutait; a primeira cirurgiã mulher do Brasil, Angelita Gama — ambos na UTI — e o infectologista David Uip, que coordenava o centro de controle da doença em São Paulo.

Roberto Kalil, cardiologista dos ex-presidentes Sarney, Lula, Dilma e Temer, internou-se nesta segunda-feira no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, onde trabalha, com sintomas da doença. O resultado do teste deve sair na manhã de sexta (3). Ele está bem e acompanha os casos de seus pacientes pelo celular e pelo computador de um quarto isolado.

Desfalques

Juntos, dois dos principais hospitais de ponta do Brasil já somam 462 afastamentos de profissionais da saúde em meio à pandemia do novo coronavírus. No Albert Einstein, em São Paulo, são 348 afastados com a confirmação da doença. O número equivale a 2% do total de colaboradores. 47 deles já voltaram ao trabalho. Já o Sírio-Libanês somou 114 afastados desde fevereiro com sintomas da COVID-19. Nem todos tiveram a confirmação da doença.  

Despreparo

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos mostra que 78% dos médicos brasileiros acham que o país não tem estrutura hospitalar pra lidar com o novo coronavírus.

O trabalho intitulado “Proyecto: Emergencia Covid-19” ouviu cerca de mil membros da comunidade médica do Brasil, do México, da Argentina e da Colômbia. 

Os colombianos são mais pessimistas: 90% deles não acreditam que o país esteja preparado. No México são 81% e na Argentina, 70%.

Pra piorar, a maioria dos médicos brasileiros (56%), avaliam que a população está “pouco ou nada preparada” e conscientizada pra lidar com a COVID-19.

Grupos de risco

A pedido de dois escritórios de advocacia, a Justiça de São Paulo decidiu afastar profissionais da saúde do Hospital das Clínicas da capital paulista e do Instituto do Servidor Público Estadual (IAMSPE). A decisão liminar (temporária) foi tomada pela 58ª Vara do Trabalho da Barra Funda.

Uma das ações coletivas pede que quem pertence aos grupos de risco (servidores com mais de 60 anos ou doenças crônicas) saia de férias ou licença remunerada ou até trabalhe de casa.

O juiz responsável pela liminar, Moisés Bernardo da Silva, também determinou o teste para COVID-19 aos trabalhadores desses dois locais que apresentarem sintomas do novo coronavírus. Quem testar positivo deve ser isolado e receber tratamento.

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