#CNNPop

Conversas picantes, fetiches e dúvidas: como IA pode ajudar na sexualidade humana

Especialista comenta como tecnologia pode ajudar, mas também alerta sobre cuidados a serem tomados

Especialista acha que ferramentas de IA generativa podem ajudar pessoas que têm mais dificuldades em interagir e se comunicar sexualmente
Especialista acha que ferramentas de IA generativa podem ajudar pessoas que têm mais dificuldades em interagir e se comunicar sexualmente Pexels

Rafael Farias Teixeiracolaboração para a CNN

São Paulo

A relação entre tecnologia e sexualidade passou por uma evolução gradual, principalmente com a chegada e expansão da internet que facilitou ao acesso à pornografia. “A popularização dela também aconteceu muito em paralelo com essa ânsia das pessoas de consumir conteúdos eróticos”, diz Nathalia Ziemkiewicz educadora sexual e professora em especializações de sexualidade.

Os brinquedos eróticos também passaram de meras réplicas para vibradores com bluetooth, ou criados anatomicamente para enfrentar problemas como o vaginismo — dores com a penetração vaginal —, acessórios específicos e pensados para públicos antes ignorados, como a população trans e até aplicativos que exploram temas sexuais, como o OMGyes, no qual mulheres ensinam e compartilham técnicas de masturbação,

Com a difusão e popularização de ferramentas de inteligência artificial (IA), especialistas e usuários começam a pensar em como elas podem ajudar em uma vida sexual mais satisfatória.

“Como educadora sexual, quando baixei o ChatGPT, o testei para tirar algumas dúvidas, de perguntas sobre saúde, como corrimentos, até as mais voltadas ao sexo e sexualidade, como, por exemplo, como recuperar minha libido. E as respostas eram satisfatórias”, afirma Nathalia. “Mas é ainda muito cedo para opinar, porque é uma tecnologia sem limites.”

Segundo a professora, o mal nunca é na tecnologia em si, mas o uso dela. “Podemos discutir se a pornografia pode ser prejudicial para uma pessoa sem educação sexual prévia. Mas isso pode ser positivo para um adulto que já tem conhecimento, formação, e que está ali para satisfazer alguma fantasia ou curiosidade. O mesmo vale para usar IA nesse viés”, diz.

Nathalia conversou com a CNN sobre diferentes possibilidades em que ferramentas de IA generativa, como ChatGPT, podem ajudar pessoas a entenderem e exercerem melhor certos aspectos da sua sexualidade.

Ela lembra, porém, que, apesar de serem úteis, qualquer desafio, questionamento, dúvida, problema deve ser abordado com um profissional especializado.

Lembrando que algumas ferramentas impedem o uso de linguagem sexual ou explícita, o que pode restringir o tipo de informações inseridas e produzidas.

  • Melhorar o discurso sexual

Segundo Nathalia, muitas pessoas, por diferentes razões, apresentam limitações na hora de ter um discurso mais sexualizado para usar nos momentos íntimos ou até mesmo na troca de mensagens.

“Então você tem pessoas que não se sentem confortáveis em falar, se tocar, não se masturbar, nem sozinhas na privacidade de seu ambiente, quanto mais com outras pessoas. Para elas é muito difícil exercer essa sexualidade com outras pessoas”, explica.

Chatbots criados para simular interações com os usuários, podem ser uma alternativa para, gradualmente, derrubar essas barreiras. “Eu sempre falo que antes de transar com outra pessoa, você precisa transar com você mesma, precisa conhecer os atalhos do seu corpo, entender como ele reage, do que ele gosta. Acho que esse treinamento, principalmente para as pessoas que têm mais dificuldade nessas relações, nessa parte social, não sabem muito o que falar, como falar, acho que pode ser ótimo”, diz.

E isso pode funcionar em diferentes etapas, desde o começo de uma conversa, até como abordar vontades e fetiches e até mesmo ter um diálogo mais erótico.

Hoje em dia já há muitos chatbots de IA especializados para conversas sociais e até menso românticas e sexuais. Exemplos como Nomi.ai e Soulmate, permitem a dramatização erótica na plataforma. Os usuários podem personalizar o avatar de seu chatbot AI e dar a ele a personalidade que deseja para o tipo de interação (amigo, mentor ou até mesmo parceiro amoroso, ou sexual).

“Hoje já vemos surgir ‘coaches de paquera’ com esse propósito. Usar IA também estaria nessa linha, mas de forma mais acessível. Mas essa comunicação sexual, seja para o erótico, seja para criar intimidade com um parceiro de longa data, ela pode ser treinada, é uma construção, nem sempre é espontânea, imediata, como a química que as pessoas fantasiam. Então acho que pode ser uma ferramenta interessante para treinar antes de ir para a vida real.”

  • Tirar dúvidas

Nathalia afirma que, ao testar tirar algumas dúvidas pelo Genie, Chatbot AI alimentado pelo ChatGPT e GPT-4, achou as respostas satisfatórias. Ela dá como exemplo, uma situação em que um adolescente não usou preservativo, mas a ejaculação ocorreu fora.

Com a preocupação de uma possível gravidez, a pessoa pode receber informações imediatas de um chatbot o método, eficácia e recomendações para procurar a melhor ajuda. “Acho que quanto mais facilitarmos o caminho entre a dúvida, a angústia e a informação, é uma questão de saúde pública. Acho que tem um viés muito importante aí, principalmente quando pensamos em prevenção e proteção”, diz Nathalia.

A professora também testou com questionamentos mais complexos, “como chegar ao orgasmo?” ou afirmações como “não tenho mais libido”, para as quais o chat traz respostas que estimulam a reflexão e busca por um aprofundamento especializado.

Ferramenta de IA generativa responde a dúvidas sobre desafios sexuais / Reprodução

Explorar e conhecer novos fetiches

Como essas ferramentas são alimentadas por uma quantidade grande de informações, um app de IA podem ajudar a conhecer novos fetiches e até mesmo dar um passo a passo de como começar.

Um usuário, por exemplo, pode saber o que significa BDSM — práticas consensuais envolvendo sadomasoquismo — e qual seria pontos importantes para considerar ao explorá-las.

ChatGPT consegue responder dúvidas sobre fetiches de forma educativa / Reprodução

Nathalia também lembra que usar uma tecnologia que se molda às suas vontades tem seus perigos. Ao mesmo tempo que ela é criada para evitar frustrações, ela pode condicionar o usuário a um pensamento pouco flexível. “Quando você tem uma ferramenta pensada para atender suas necessidades e desejos e não te frustrar, talvez você fique um pouco ‘mimado’, e talvez isso piore suas relações sociais.”

Ela também levanta outros questionamentos. “Quanto as pessoas podem ser condicionadas a um sexo em que só importa o desejo, porque o outro é uma máquina, então o quanto isso pode fazê-las, na vida real, pararem de pedir consentimento, pararem de considerar os desejos, os limites, as vontades da outra pessoa que está ali transando?”, afirma.

“É muito bom usarmos a tecnologia como meio, mas um discurso de que você sobre precisa dela e mais nada esconde uma série de questões que precisam ser trabalhadas”, conclui Nathalia.

“O ser humano pode criar a máquina que for para satisfazer qualquer necessidade sexual, mas ele é extremamente complexo. O ser humano é relacional. Existimos para nos relacionarmos com os outros. Então, isso eu acho que a máquina dificilmente vai conseguir satisfazer.”