3tentos dobra lucro no primeiro trimestre
CEO da companhia destaca amadurecimento operacional de lojas e expansão geográfica como fatores chave para o desempenho

Em um momento em que muitas empresas do agro sofrem com a redução dos resultados financeiros, a 3tentos praticamente dobrou o lucro no primeiro trimestre de 2026. O desempenho é atribuído a uma combinação entre diversificação geográfica, amadurecimento operacional das lojas e avanço da verticalização industrial.
A companhia registrou lucro líquido ajustado de R$ 230,9 milhões entre janeiro e março, alta de 110,7% em relação ao mesmo período do ano anterior. O EBITDA ajustado com hedge avançou 98,5%, para R$ 394,3 milhões, enquanto a receita operacional líquida cresceu 20,2%, para R$ 4,2 bilhões — o 29º trimestre consecutivo de expansão da empresa.
Em entrevista à CNN, o CEO da companhia, João Marcelo Dumoncel, afirma que o desempenho não é um fator isolado. “Sem dúvidas, parte disso vem da diversificação. Quando a gente olha separadamente, cada segmento contribuiu. Existe um processo de consolidação da empresa, crescimento das lojas trimestre após trimestre e amadurecimento dessas operações. A maturação das lojas é longa, mas elas vão ganhando confiança do produtor”, diz.
Segundo o executivo, a melhora dos resultados ocorreu mesmo em um ambiente ainda desafiador para o setor agrícola. “No lado dos resultados, conseguimos navegar bem em um mar turbulento.”
A leitura da companhia é que os investimentos realizados nos últimos anos começam agora a aparecer de forma mais clara nos números, principalmente na indústria. Hoje, aproximadamente metade da receita da empresa já vem do segmento industrial.
“Hoje, perto de 50% do faturamento já é indústria. Grãos representam cerca de 30% e insumos aproximadamente 20%”, explica Dumoncel.
Segmentos
O segmento industrial registrou receita líquida de R$ 1,91 bilhão no trimestre, avanço de 4,9%, apoiado pela ampliação da capacidade de produção de biodiesel e farelo de soja.
Segundo o executivo, o processo de expansão industrial ainda deve acelerar ao longo do ano, especialmente com o avanço da verticalização em milho e a entrada em operação da nova planta de etanol em Porto Alegre do Norte (MT).
“A indústria de milho e o ramp-up das ampliações de soja e biodiesel já estão sendo finalizados. Conforme vamos adicionando equipamentos, vamos agregando produção. Já aumentamos no primeiro trimestre, mas segundo e terceiro trimestres estarão plenos”, afirma.
A nova unidade de etanol aguarda apenas a autorização final da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para iniciar as operações comerciais. A inspeção final foi realizada nos dias 6 e 7 de maio.
“A planta já passou pela última vistoria da ANP. Estamos aguardando a liberação final. Já estamos em testes a seco”, diz Dumoncel.
Quando atingir capacidade plena, a unidade poderá processar 2,8 mil toneladas de milho por dia, produzindo etanol e coprodutos como DDG e DDGs voltados à alimentação animal.
De acordo com o executivo, a capacidade total da companhia cresceu cerca de 60% na comparação com 2025.
Biocombustíveis em alta
A aposta em biocombustíveis ocorre em um momento de fortalecimento estrutural da demanda por fontes renováveis de energia no Brasil, movimento intensificado pelo cenário geopolítico global.
“O tema dos biocombustíveis ficou muito evidente com a guerra, mas nós já vínhamos falando que eles são essenciais para uma matriz energética como a do Brasil. Existe a questão da sustentabilidade e da redução de emissões, mas principalmente segurança energética e preço”, afirma o CEO.
Segundo ele, o aumento das misturas obrigatórias de etanol na gasolina e de biodiesel no diesel reduz a dependência brasileira de combustíveis fósseis importados.
“O etanol maior na gasolina ajuda a mitigar os efeitos da guerra. O mesmo vale para o biodiesel no diesel. Mesmo no B15, o Brasil ainda importa volumes relevantes de diesel. Cada ponto adicional de biodiesel reduz isso”, disse.
A companhia já se prepara para uma eventual implementação do B16, prevista na Lei do Combustível do Futuro.
“A expectativa é que o B16 avance o quanto antes. Já estamos fazendo testes pensando em B20 e deixando tudo preparado”, afirmou.
Grãos e insumos
Além da indústria, o segmento de grãos também teve contribuição relevante para o resultado do trimestre. A receita líquida da área avançou 40%, para R$ 1,47 bilhão, beneficiada pela safra recorde de soja em Mato Grosso e pelo amadurecimento das 14 lojas da companhia no Estado.
“O segmento de grãos cresceu por volume, porque os preços estavam ruins”, afirma Dumoncel.
Segundo ele, o desempenho foi impulsionado por uma safra mais favorável no Rio Grande do Sul, por forte produção em Mato Grosso e pelo avanço da participação de mercado da companhia.
Na área de insumos, porém, o ambiente continua mais pressionado, especialmente no mercado de fertilizantes nitrogenados, impactado pela volatilidade internacional.
Segundo Dumoncel, parte relevante dos produtores suspendeu compras após a forte alta de preços desencadeada pela guerra no Oriente Médio. “Tem pelo menos 30% da demanda represada”, disse.
Mesmo assim, ele avalia que o produtor terá de recompor compras para a próxima safra.
“No segundo semestre, o produtor vai comprar de qualquer jeito, porque ele vai plantar. Se os preços estiverem muito altos, pode haver redução tecnológica, usando menos fertilizante por hectare”, afirma.
A companhia também mantém cautela na área financeira diante do aumento da pressão sobre o crédito rural.
“Existe uma descapitalização do setor. O aumento dos juros, junto com queda das commodities e aumento de custos, pressiona o crédito”, afirma.
Segundo Dumoncel, a TentosCap - área financeira da 3tentos - vem adotando critérios mais conservadores de concessão. “Estamos mais rigorosos nos índices aceitáveis de alavancagem, liquidez e endividamento”, diz.
Apesar disso, a inadimplência permanece controlada. “A inadimplência historicamente é baixa e continua assim.”
A carteira de crédito da TentosCap encerrou março em R$ 510,8 milhões, alta de 95% na comparação anual.
Mais expansão territorial
A empresa também segue acelerando sua expansão territorial. Após entrar em Pará e Goiás no trimestre, a companhia pretende ampliar presença em Tocantins e Minas Gerais ainda este ano.
“Teremos lojas nos quatro novos estados. Devemos abrir entre oito e dez lojas nesses estados ainda em 2026”, afirma o executivo.
Hoje, a 3tentos possui 75 unidades operacionais distribuídas entre Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Pará e Goiás.
https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/gabriella-weiss/agro/por-que-o-brasil-precisa-importar-fertilizantes/


