Acelen fecha parceria com startup europeia para rastrear macaúba
O fruto tem rico potencial para se tornar biocombustível na aviação, o SAF, e atender mercados regulados, como Estados Unidos e países da Europa

A Acelen Renováveis, subsidiária do fundo árabe Mubadala Capital, acaba de fechar uma parceria com a europeia Finboot para escalar a rastreabilidade da macaúba — matéria-prima estratégica da companhia na produção de biocombustíveis no Brasil. O projeto começa com o monitoramento dos 500 plantados podendo chegar 1,5 mil hectares plantados no Recôncavo Baiano. Em seguida, a meta é ampliar o plantio para 5 mil hectares, incorporando toda essa área ao sistema de rastreabilidade que começa a ser implementado.
O valor do negócio não foi revelado, mas a iniciativa é vista como chave para acessar mercados regulados de SAF, o combustível sustentável de aviação, na Europa e nos Estados Unidos, destaca em entrevista ao CNN Agro, o vice-presidente de novos negócios da Acelen Renováveis, Pedro Estrela.
“O potencial de escala é enorme. O Brasil tem cerca de 100 milhões de hectares de terras degradadas, o equivalente a duas Alemanhas. Isso, para nós, é uma grande oportunidade”, afirma.
A parceria tem a ambição de produzir 1 bilhão de litros de combustível sustentável de aviação (SAF) e diesel renovável (HVO) a partir do óleo de macaúba, monitorando o ciclo de vida da cadeia de produção.
A cadeia agrícola da macaúba no Brasil ainda está em fase de estruturação, mas avança rapidamente como uma nova fronteira dos biocombustíveis. Trata-se de uma palmeira nativa, adaptada a diferentes biomas — especialmente Cerrado e áreas de transição —, com alta produtividade de óleo por hectare, de sete a dez vezes mais que o óleo de soja, além da capacidade de desenvolvimento vegetativo em terras degradadas, sem competir diretamente com culturas alimentares.
Melhoramento genético
O desenvolvimento da cadeia envolve desde o melhoramento genético e produção de mudas em viveiros especializados até o plantio em larga escala, manejo e colheita dos frutos, que depois seguem para processamento industrial. Um dos diferenciais é o potencial de integração com a agricultura familiar, além da rastreabilidade exigida por mercados internacionais, o que tem impulsionado investimentos em tecnologia, assistência técnica e modelos de produção mais sustentáveis por parte da Acelen.
Por isso, a companhia mapeia materiais genéticos da macaúba e passou um ano pesquisando empresas que pudessem oferecer o serviço de rastreabilidade com aderência às particularidades do cultivo da macaúba. Foram 30 empresas listadas, 10 pré-selecionadas e submetidas a uma prova de competência até chegar a Finboot.
Com sede no Reino Unido, a Finboot é uma startup de origem espanhola e que ficará responsável por gerenciar a rastreabilidade das fazendas de macaúba da Acelen por meio da ferramenta chamada 'MARCO Track & Trace'.
Com planos de exportar seus combustíveis renováveis para a Europa e os Estados Unidos, a Acelen afirma que precisa de uma solução robusta e auditável de rastreabilidade para atender às exigências regulatórias tanto no mercado doméstico quanto no internacional.
Para sustentar essa expansão, a empresa investiu R$ 300 milhões em um centro de produção de mudas de 138 hectares, em Montes Claros (MG), com capacidade para 10 milhões de mudas por ano — o que permitiria o plantio de 20 mil a 30 mil hectares anuais. Dali, sairão os materiais genéticos de árvores que serão cultivadas para dar retorno produtivo de 3 a 5 anos para produção do fruto, processamento do óleo vegetal e refino do biocombustível.
“Temos terra, material genético, capacidade produtiva, conhecimento técnico e mão de obra qualificada. Além disso, há incentivos financeiros e instituições dispostas a investir, como o BNDES”, disse Estrela, citando também a estruturação do Agripark, nome dado ao viveiro que a empresa inaugurou em agosto do ano passado.
No longo prazo, o projeto da Acelen com macaúba prevê o plantio de 180 mil hectares, com investimento estimado em R$ 15 bilhões até 2038 para transição energética que mira a árvore da macaúba como matéria-prima central e rentável.
No contexto geopolítico, a empresa avalia que a sucessão de crises globais não tem freado o avanço da transição energética. Conflitos recentes, como a guerra entre Rússia e Ucrânia e as tensões no Oriente Médio, ampliaram a percepção de risco, mas não interromperam o crescimento do setor. Pelo contrário: o mercado de diesel renovável avançou de forma consistente, enquanto o SAF — ainda em estágio mais inicial — também ganhou tração.
Na Europa, por exemplo, 2025 marcou o primeiro ano de mandato obrigatório, com o bloco atingindo cerca de 2% de mistura de SAF no querosene de aviação, lembra o vice-presidente.
Nesse cenário, projetos competitivos como o da macaúba tendem a ganhar ainda mais relevância. A leitura é que, diante de um ambiente global mais volátil, cresce a busca por sistemas energéticos mais resilientes — o que abre espaço para soluções renováveis com viabilidade econômica.
Rastreabilidade em escala
O fruto da palmeira macaúba é considerado uma matéria-prima promissora para biocombustíveis, pois pode ser cultivado em áreas agrícolas degradadas, que é a fatia do mercado sustentável que a Acelen Renováveis quer ocupar.
Segundo Estrela, a ferramenta vai assegurar a transparência em toda a cadeia de valor e permitirá demonstrar conformidade com critérios como elegibilidade da matéria-prima, que incluem cálculo de emissões, ao mesmo tempo em que incorpora soluções tecnológicas como blockchain e tokenização - "processos de certificação cada vez mais rigorosos”.
A ferramenta de rastreabilidade funciona como uma espécie de “guardiã” das boas práticas ao longo de toda a cadeia produtiva, reforça Estrela. Neste primeiro momento, a operação seguirá sob gestão da parceira tecnológica, em um modelo que combina contratação e parceria, aproveitando o know-how da empresa no atendimento a mercados regulados. A avaliação sobre eventual internalização da solução ficará para uma etapa futura.
Todos os dados gerados no processo serão armazenados por até 50 anos, em linha com as exigências de rastreabilidade e certificação internacional.
O modelo de parceria quer criar uma infraestrutura de dados que permita avaliar cada lote de produção de forma independente por meio de uma base de dados que vai sendo abastecida mensalmente.
“À medida que os biocombustíveis ganham escala global, fica claro que nem todos os combustíveis ou cadeias de valor são iguais”, afirmou Juan Miguel Pérez Rosas, CEO da Finboot para Espanha e Reino Unido ao site especializado em aviação Green Air.


