Allterra aposta em tecnologia e biociência para crescer na América Latina

Empresa foca em biociência e agricultura regenerativa na América Latina, buscando maior produtividade e redução de custos agrícolas

Kaique Cangirana, da CNN Brasil, São Paulo
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A Allterra está mudando o modelo de negócios para se posicionar como uma plataforma de tecnologia e biociência voltada à agricultura regenerativa na América Latina. A estratégia, segundo o CEO da companhia, Eduardo Navarro, busca integrar tecnologias de manejo do solo, biológicos, sementes de cobertura e diagnóstico para aumentar a produtividade agrícola e reduzir custos ao longo do tempo.

Embora não seja uma projeção oficial ou divulgada pela companhia, Navarro afirma que a Allterra trabalha internamente com a possibilidade de multiplicar por dez o tamanho da operação entre três e cinco anos. “A Allterra, de três a cinco anos, deve estar pelo menos dez vezes o tamanho que ela é hoje. É nisso que a gente acredita, é para isso que a gente está trabalhando”, afirmou.

O executivo atribui a expectativa ao tamanho do mercado brasileiro e ao potencial de aumento de produtividade. Segundo ele, a companhia tem realizado conversas com grandes empresas do agronegócio e encontrou uma ampla aderência à sua proposta de mercado.

Na avaliação de Navarro, o avanço da genética agrícola aumentou o potencial produtivo das lavouras, mas parte desse ganho ainda não seria capturada devido a limitações de manejo.

Ele cita como exemplo a soja. Segundo o CEO, enquanto a genética já permite variedades com tetos produtivos elevados, as práticas de manejo ainda podem limitar o desempenho no campo.

“A Alterra vem exatamente para explorar um potencial de mercado que a gente tem, de sair de médias de grandes players de 60, 65, 70 sacas de soja por hectare e bater 100, 120 sacas por hectare”, disse.

Novo centro terá fábrica de biológicos

Para sustentar a expansão, a empresa realizou um investimento na aquisição de uma estrutura na região de Itápolis, no interior de São Paulo. O local será transformado em um centro de pesquisa, desenvolvimento e produção de soluções para agricultura regenerativa.

O espaço deverá abrigar uma fábrica de biológicos, áreas de testes e pesquisa. Segundo Navarro, a unidade terá capacidade para mais de 1 milhão de litros de biológicos.

A companhia pretende utilizar a estrutura não apenas para desenvolver produtos, mas também para testar novas práticas de agricultura regenerativa em diferentes culturas. Entre as frentes que estão no radar está o mercado de carbono.

A ideia é medir a redução de emissões e o sequestro de carbono associados às práticas regenerativas e, futuramente, avaliar formas de monetizar esses resultados.

Aquisições continuam no radar

A estratégia de expansão não está restrita ao crescimento orgânico. Navarro afirma que a companhia continua avaliando tecnologias que possam complementar seu portfólio.

A Allterra nasceu justamente a partir de aquisições, mas o executivo evita antecipar uma estratégia de compra de novas empresas. Segundo ele, o foco está em incorporar tecnologias alinhadas ao negócio principal.

“Sempre observamos a aquisições de novas tecnologias que fazem sentido com aquilo que é o nosso core business, que é, de fato, agricultura regenerativa”, afirmou.

O principal critério, segundo Navarro, é a complementaridade com a proposta de aumentar o potencial produtivo por meio do manejo do solo.

Plataforma quer conectar produtores, empresas e capital

O objetivo da Allterra vai além da venda de tecnologias. A companhia quer atuar como uma plataforma capaz de conectar produtores, revendas, cooperativas, startups, academia, bancos e fundos interessados em financiar práticas agrícolas regenerativas.

Para Navarro, existe uma oportunidade de aproximar a demanda de grandes empresas por produtos de origem regenerativa da oferta dos produtores.

O executivo cita setores como café, leite e soja. Empresas compradoras, segundo ele, têm interesse crescente em produtos associados a práticas regenerativas, mas enfrentam dificuldades para construir capilaridade no campo. “A gente quer conectar a demanda deles com a oferta de produtos oriundos de agricultura regenerativa”, afirmou.

A mesma lógica seria aplicada ao chamado financiamento verde. Na avaliação do CEO, há recursos disponíveis para projetos sustentáveis, mas ainda faltam projetos estruturados capazes de receber esse capital.

“Existem vários projetos, existe muito dinheiro e pouco projeto. E a gente quer também dar um endereço para que esse dinheiro seja bem investido”, disse.

Com isso, a Allterra pretende se posicionar não apenas como fornecedora de tecnologias, mas como uma infraestrutura de conexão entre diferentes agentes interessados na transição para uma agricultura regenerativa.

A empresa nasceu como uma tese de investimentos e realizou a primeira aquisição em 2022, com a Microgeo, seguida pela aquisição da TMF Fertilizantes, em 2023. Até então, a estrutura reunia a holding e as duas companhias de forma separada. A mudança começou com a integração das operações.

O primeiro passo foi a unificação dos times de back office, eliminando sobreposições. No início de 2026, a companhia também integrou as equipes comerciais. O objetivo, segundo o executivo, foi levar ao campo uma oferta combinada das tecnologias.

Para Navarro, a nova estratégia transforma a Allterra em uma “plataforma de tecnologia e biociência para agricultura regenerativa na América Latina”.

Um dos pilares do novo posicionamento é o conceito de “Solo Vivo”. A tese da companhia parte da avaliação de que a agricultura brasileira teria atingido um patamar de produtividade que exige novas soluções de manejo para continuar avançando.

Navarro afirma que o setor desenvolveu conhecimento significativo sobre os aspectos químicos e físicos do solo, mas ainda há espaço para aprofundar a compreensão sobre sua dimensão biológica.

Hoje, a empresa trabalha com tecnologias capazes de introduzir mais de 300 microrganismos no solo e considera que a recuperação da dimensão biológica pode representar uma das principais oportunidades para elevar a produtividade nos próximos anos.

A companhia pretende combinar diagnóstico químico, físico e biológico do solo com tecnologias próprias e outras soluções de manejo. A proposta é acompanhar a evolução da área ao longo de ciclos agrícolas e, a partir dos resultados, definir novas estratégias.

A empresa também conta com um conselho técnico formado por acadêmicos e especialistas em áreas como solo, carbono e sementes de cobertura. A estratégia de distribuição já contempla parceiros no Paraguai e no Uruguai, segundo Navarro, e a companhia pretende ampliar a presença na América Latina.

Diagnóstico como porta de entrada

O modelo desenvolvido pela Allterra começa pelo diagnóstico do solo. A empresa pretende avaliar aspectos químicos, físicos e biológicos, além do carbono presente na área.

A partir desse diagnóstico, a companhia estrutura uma estratégia que combina suas principais tecnologias, incluindo a Microgeo e a TMF, além de biológicos, inoculantes e sementes de cobertura.

Segundo Navarro, a TMF permite levar cálcio a camadas mais profundas do solo sem a necessidade de operações mecânicas consideradas agressivas pela empresa. Já a Microgeo é utilizada para promover a introdução de microrganismos no solo.

O acompanhamento é feito ao longo do ciclo agrícola. Após uma safra, a empresa realiza novo diagnóstico para comparar a evolução das características do solo e, então, iniciar um novo ciclo de manejo.

A tese é que a agricultura regenerativa possa exigir um custo inicial maior, mas gerar redução de despesas ao longo dos anos.

“A agricultura regenerativa pode ter um custo de aquisição um pouco maior no início, mas, ao longo de dois, três anos, entra em um equilíbrio em que o produtor começa a reduzir seus insumos, começa a reduzir operações e, com isso, de fato, aumentar a produtividade”, afirmou.