Assim como o Brasil, a Austrália está perto de esgotar cota para a China

Os dois maiores exportadores mundiais de carne bovina pedem a Pequim autorização para ampliar o volume de carne enviado à China aproveitando cotas não preenchidas por outros países.

-, da Reuters
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A China, maior importadora mundial de carne bovina, já comprou quase US$ 3 bilhões em carne brasileira e cerca de US$ 1 bilhão em carne australiana no primeiro trimestre deste ano.  Os dados oficiais do governo chinês mostram que os dois países estão perto de esgotar suas cotas de carne impostas com as medidas de salvaguarda.

O sistema de salvaguarda, que passou a valer em 1º de janeiro foi criado pelo governo chinês para proteger a produção pecuária doméstica. Países que extrapolarem suas cotas passarão a pagar uma tarifa de 55% sobre as importações. E os dois países, tanto o Brasil quanto a Austrália, devem atingir o limite a partir do próximo mês caso o ritmo atual de embarques seja mantido.

Na prática, a taxação equivale a um bloqueio comercial

O ministro da Agricultura, André de Paula, e o ministro do Comércio da Austrália, Don Farrell, estão na China esta semana e têm aproveitado os encontros com autoridades chinesas para argumentar sobre a ampliação das cotas.  Os dois governos querem que a China realoque as cotas não utilizadas por outros países exportadores, disseram a Reuters algumas das fontes que acompanham as autoridades. Representantes australianos também discutem com a China a possibilidade de isentar ossos e carnes refrigeradas do sistema de cotas, o que permitiria elevar o volume total dos embarques.

Dados do governo chinês mostram que, até o final de março: a Argentina havia utilizado 27,5% da cota de 594 mil toneladas.  Uruguai, 15% da cota de 150 mil toneladas. E a Nova Zelândia enviou 14% da cota de 138 mil toneladas.

Tentativas anteriores

Brasil e Austrália já pressionaram por mudanças em reuniões anteriores com autoridades chinesas, disseram as fontes.  "Eles vão tentar de novo e a China provavelmente vai rejeitar novamente", avaliou Isabel Nepstad, CEO da BellaTerra Consulting, consultoria com sede em Xangai que assessora empresas, incluindo frigoríficos brasileiros, em operações com o país asiático.

A carne brasileira, por ser mais barata, compete diretamente com a produção pecuária chinesa. Enquanto a Austrália tende a exportar cortes premium, menos produzidos domesticamente na China. A Austrália pode sair em posição mais vantajosa, redirecionando os fluxos para Japão, Coreia do Sul e Estados Unidos, segundo analistas. Já o Brasil pode perder até US$ 3 bilhões em receita com as exportações em 2026 se a cota não for revista, diz a Abrafrigo que representa os frigoríficos brasileiros.

Após a visita do presidente norte-americano Donald Trump à China, na semana passada, Pequim reabriu o mercado aos pecuaristas norte-americanos. Reabilitou mais de 400 unidades que estavam com a autorização para exportação vencidas. Segundo Matt Dalgleish, da consultoria australiana Episode 3, isso torna ainda menos provável que a China amplie as cotas para outros países.