Biológicos lideram crescimento da Yara, mas ainda são um mercado de nicho
No maior centro de pesquisas do mundo, companhia acelera desenvolvimento de biológicos, bioestimulantes e tecnologias digitais, enquanto busca parceiros para expandir o negócio de forma rentável
Em uma estufa no noroeste da Alemanha, pés de café são submetidos a diferentes níveis de estresse hídrico. Pesquisadores acompanham o processo e observam como microrganismos e bioestimulantes alteram a resposta das plantas. Alguns metros adiante, tomates, cevada e outras culturas passam por testes semelhantes. Nos laboratórios, placas de Petri, equipamentos de sequenciamento genético, microscópios e câmaras de cultivo analisam bactérias, fungos e moléculas que poderão compor a próxima geração de produtos da Yara.
É nesse complexo de pesquisa em Dülmen, na Alemanha — o maior centro global de pesquisa e desenvolvimento da fabricante de fertilizantes, ampliado neste ano — que a empresa concentra parte da estratégia para expandir um dos segmentos que mais cresce dentro do grupo: os produtos biológicos.
Embora o negócio ainda represente uma fatia pequena da operação global da Yara, a companhia afirma que o segmento cresce cerca de 10% ao ano, acima das demais áreas da empresa, e continuará recebendo investimentos em pesquisa e desenvolvimento. A expansão, no entanto, será gradual e condicionada à viabilidade econômica e à formação de parcerias.
"O negócio de biológicos cresce tremendamente. Ainda é relativamente pequeno para a dimensão da Yara, mas é um negócio muito lucrativo e complementa muito bem o nosso negócio de nutrição de plantas", afirmou à CNN o vice-presidente global de Agronomia e Pesquisa e Desenvolvimento da Yara, Luis Torres Dorante, durante visita de jornalistas ao centro de pesquisas.
A estratégia faz parte de um movimento mais amplo da companhia para ampliar seu portfólio além dos fertilizantes minerais tradicionais, incorporando bioestimulantes, produtos biológicos vivos e não vivos e tecnologias baseadas em biologia molecular.
Pesquisa molecular
As novas instalações do centro de Dülmen ampliaram a capacidade da Yara para desenvolver microrganismos, realizar bioformulações, conduzir análises biomoleculares e preparar protótipos para testes em campo.
Segundo a empresa, as prioridades globais de pesquisa estão concentradas em quatro frentes: soluções de baixo carbono e clima, agricultura sustentável, desenvolvimento de novos produtos e geração de evidências agronômicas e econômicas para apoiar o uso das tecnologias.
Neste ano, a companhia prevê investir mais de US$ 6 milhões apenas em parcerias externas voltadas ao desenvolvimento, validação e testes de novas tecnologias. O valor não inclui os investimentos em infraestrutura, equipamentos e equipes próprias de pesquisa.
Torres Dorante afirma que as mudanças climáticas aumentaram a necessidade de desenvolver soluções adaptadas às condições de cada mercado.
"Precisamos fazer mais pesquisa em condições locais específicas. Os dados globais já não respondem a todas as realidades dos mercados", disse.
Para a Yara, este desenvolvimento regional tornou-se especialmente importante para mercados como o Brasil, onde clima, solo e sistemas de produção diferem significativamente de outras regiões onde a empresa atua.
Ao contrário dos fertilizantes minerais, cujo comportamento tende a ser mais previsível, produtos biológicos dependem de fatores ambientais, climáticos e microbiológicos para entregar resultados, segundo Jonas Ruhe, diretor global de Pesquisa e Desenvolvimento em Nutrição de Plantas e Produtos Biológicos da Yara International.
"Os produtos biológicos reagem de maneira diferente na natureza quando comparados a um fertilizante mineral. A reação da ureia é mais previsível quando a aplicamos em um lugar ou em outro. Já o produto biológico está sempre sujeito também às condições do ambiente", disse.
Essa variabilidade faz com que a empresa combine pesquisa de campo com análise de grandes volumes de dados para construir recomendações agronômicas.
"E é aí que os metadados entram em cena, diante dessa enorme quantidade de dados que precisamos interpretar e integrar para chegar à melhor recomendação. Acho que esse será um grande desafio e, ao mesmo tempo, um importante caminho para o futuro, em vez de focarmos em uma única tecnologia", defendeu.
Segundo Ruhe, a estratégia da companhia é integrar diferentes tecnologias, como fertilizantes, produtos biológicos e ferramentas digitais, em pacotes completos de soluções para os produtores.
"Temos a missão de gerar conhecimento científico e transformar esse conhecimento científico em produtos que funcionem no campo, tendo o agricultor em mente", disse.
Hoje, o grupo responsável por produtos biológicos reúne 25 pesquisadores phD de 12 nacionalidades, com especialistas em microbiologia, biologia molecular, fisiologia vegetal, bioinformática e bioquímica.
Estratégia no Brasil
Mesmo diante da redução na aplicação de fertilizantes por parte de produtores brasileiros em função das margens mais apertadas da agricultura, a Yara afirma que o país continua sendo uma prioridade na estratégia global da empresa.
"O Brasil continua sendo um mercado-chave para a Yara e um mercado agrícola fundamental para o mundo", disse Torres Dorante.
Na avaliação do executivo, períodos de maior rentabilidade tendem a acelerar a adoção de inovação no campo, enquanto políticas públicas também podem contribuir para ampliar os investimentos dos produtores em novas tecnologias.
No Brasil, a estratégia de inovação da Yara está concentrada em fertilizantes adaptados para culturas e regiões específicas, produtos de maior eficiência no uso de nutrientes e soluções biológicas. Dentro desse portfólio, os bioestimulantes aparecem como uma das principais apostas da companhia.
"Estamos desenvolvendo bioestimulantes que complementam os programas de nutrição das culturas e elevam tanto a produtividade quanto a eficiência do uso de nutrientes", afirmou Torres Dorante.
Além dos novos produtos, a empresa também investe em plataformas digitais capazes de transformar dados agronômicos em recomendações escaláveis para agricultores.
Os ensaios conduzidos pela empresa entre 2017 e 2025 já somam 891 observações em 36 culturas, incluindo grãos, hortaliças e culturas perenes.
“Crescimento orgânico”
Apesar do crescimento acelerado dos biológicos, a Yara afirma que ainda não pretende expandir esse negócio por meio de aquisições de qualquer ativo disponível no mercado. Segundo Torres Dorante, a empresa continua avaliando oportunidades de fusões, aquisições e parcerias, mas busca um portfólio complementar ao seu negócio atual.
"Continuamos explorando possibilidades de parceria e investimento, mas ainda não encontramos o parceiro certo para oferecer o equilíbrio de portfólio que buscamos", disse;
Enquanto isso, a estratégia será ampliar organicamente o desenvolvimento de produtos próprios e fortalecer a pesquisa interna.
Transição verde avança onde há retorno econômico
A expansão dos biológicos acontece paralelamente à estratégia de descarbonização da companhia, que inclui fertilizantes de baixo carbono e investimentos para reduzir emissões na produção. Segundo a Yara, porém, a chamada transição verde ainda enfrenta limitações econômicas em escala global.
"A transição verde, mundialmente, ainda é bastante desafiadora. Em uma base global, ainda não é rentável. Para nós, é rentável com os parceiros certos. É daí que estamos partindo", afirmou Torres Dorante. Segundo ele, a empresa concentra investimentos em mercados, parceiros e clientes dispostos a remunerar o diferencial ambiental desses produtos.
O executivo afirmou que a companhia mantém a agenda de sustentabilidade e continuará investindo em tecnologias de baixo carbono, mas a expansão ocorrerá conforme surgirem modelos de negócio considerados economicamente viáveis.
* A repórter viajou a convite da Yara


