Bradesco alerta para uso excessivo da recuperação judicial no agro

Instituição afirma que avanço dos pedidos elevou risco de crédito e pode pressionar ainda mais custo do financiamento ao produtor

Cristiane Noberto, da CNN Brasil, em Cascavel (PR)
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O avanço dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio tem elevado a percepção de risco no sistema financeiro e já acende um alerta entre os bancos, que não descartam ajustes nas regras para conter distorções no uso do instrumento.

A avaliação foi feita pelo diretor de Agronegócio do Bradesco, Roberto França, durante coletiva de imprensa no Show Rural Coopavel 2026, que ocorre nesta semana em Cascavel (PR).

Embora a recuperação judicial seja um mecanismo legal para reorganização de dívidas, França afirmou que parte dos pedidos não está necessariamente ligada à incapacidade operacional do produtor, mas a um uso considerado excessivo da ferramenta.

“Desde que foi ajustada a legislação, é um instituto que o produtor pode usar, mas a gente vê um uso demasiado, até por incentivo de advogados e não pela necessidade do produtor rural pedir recuperação judicial”, disse.

Segundo o executivo, muitos produtores só percebem os efeitos da decisão após o início do processo, quando passam a enfrentar restrições relevantes de crédito, fator essencial para a continuidade da atividade.

“Muitos produtores, depois que o processo começa, percebem que perdem o controle da atividade e a capacidade creditícia. Você não toca nenhuma atividade econômica sem ter crédito”, afirmou na ocasião

Na leitura do banco, a disseminação dos pedidos contribuiu para aumentar a insegurança nas concessões e, como consequência, pressionou o custo do financiamento para todo o setor.

“Esse uso demasiado colocou um freio no mercado financeiro. Com mais risco e mais insegurança, o crédito fica mais caro para todos”, destacou.

Apesar do cenário, França afirmou que a maior parte da carteira segue em situação regular e que a estratégia tem sido antecipar negociações para evitar o agravamento do endividamento.

“Mais de 90% da nossa base de clientes estão saudáveis, em operações recorrentes, sem atraso. A gente procura trazer o cliente para a discussão antes do vencimento e alongar prazo para que ele possa retomar a atividade”, disse.

Aumento de custos

Para o diretor, o momento atual do agronegócio não reflete uma crise produtiva, mas sim os efeitos do aumento do custo financeiro após um ciclo de forte expansão no campo.

“Inadimplência não é falta de vontade de pagar. É não ter recurso”, afirmou.

Diante desse ambiente, o executivo afirmou que o tema já entrou no radar das autoridades e pode resultar em mudanças regulatórias.

“Talvez venha aí uma nova regulação para poder limitar o uso da recuperação judicial”, disse.