Brasilagro vê impacto limitado com mudança na escala 6x1

Companhia afirma que maior parte dos funcionários atua em áreas administrativas, mas avalia efeitos sobre operações no campo e prestadores de serviços; banco de horas e sazonalidade podem ajudar na adaptação

Fernanda Pressinott, da CNN Brasil, São Paulo

Uma eventual mudança na escala de trabalho 6x1 deve ter impacto direto limitado sobre a folha de pagamentos da Brasilagro, mas pode elevar os custos dos prestadores de serviços contratados pela companhia. A avaliação foi feita pelo CEO da empresa, André Guillaumon, durante conversa com jornalistas para divulgação de resultados financeiros.

Segundo o executivo, a Brasilagro tem pouco mais de 400 funcionários registrados no Brasil, e uma parcela significativa trabalha em áreas administrativas e de gestão, principalmente em São Paulo. Como esses profissionais já não costumam trabalhar aos sábados, a alteração da jornada teria efeito reduzido sobre esse grupo.

A preocupação está concentrada nos trabalhadores que atuam diretamente nas fazendas e nas atividades operacionais. Nesse caso, uma mudança na escala pode exigir reorganização dos turnos e afetar a logística das propriedades rurais.

Guillaumon citou como exemplo o recebimento de insumos agrícolas. "Se um caminhão de fertilizantes chegar à fazenda em um sábado e não houver equipe disponível para descarregar a carga, o transportador poderá ter de aguardar até segunda-feira. Esse tipo de situação pode gerar custos adicionais de transporte e alterar a programação das operações."

A companhia ainda avalia como adaptar as atividades, considerando alternativas como turnos e escalas de revezamento. Segundo o CEO, a análise envolve também a organização dos serviços terceirizados, que concentram parte importante da mão de obra operacional, como operadores de máquinas e tratoristas.

Terceirização pode elevar custos

Embora a empresa estime um impacto direto pequeno sobre sua própria folha, Guillaumon reconhece que a mudança pode pressionar os custos dos fornecedores de serviços. "Caso as empresas terceirizadas tenham despesas maiores para reorganizar as jornadas, parte desse aumento poderá ser repassada à Brasilagro, enquanto outra parcela será absorvida pelos próprios prestadores, com redução de suas margens."

O executivo afirmou que a companhia considera esse efeito na avaliação econômica da mudança e lembrou que a Brasilagro pode ser corresponsabilizada por obrigações trabalhistas relacionadas à mão de obra terceirizada.

A empresa também destaca que vem reduzindo a necessidade de mão de obra por meio da adoção de tecnologia, telemetria e maior precisão nas operações agrícolas, especialmente no plantio. Para Guillaumon, esse processo ajuda a limitar a exposição da companhia ao aumento dos custos de pessoal.

Sazonalidade pode facilitar adaptação

Outro fator considerado pela Brasilagro é a sazonalidade das atividades agrícolas. Diferentemente de setores industriais que operam continuamente ao longo do ano, as operações no campo têm períodos de maior e menor demanda, de acordo com o calendário de plantio, manejo e colheita.

Essa característica pode permitir maior flexibilidade na organização das jornadas, inclusive com compensação de horas em períodos de menor atividade. Guillaumon afirmou que a companhia já utiliza banco de horas negociado com sindicatos há mais de dez anos.

Na avaliação do CEO, esse mecanismo pode ajudar na adaptação a novas regras, embora não resolva todos os desafios operacionais. Em situações nas quais não for possível flexibilizar a jornada, a empresa poderá organizar folgas para os trabalhadores.

O executivo ponderou que o impacto econômico não será inexistente, sobretudo por causa dos serviços terceirizados, mas avalia que a exposição da Brasilagro tende a ser menor do que seria no período anterior à ampliação do uso de tecnologia nas operações agrícolas.

A companhia ainda não apresentou uma estimativa financeira para o eventual aumento de custos. Segundo Guillaumon, os efeitos estão sendo mapeados e dependerão das regras que vierem a ser adotadas e da forma como os prestadores de serviços reorganizarem suas equipes.