Corrida para abastecer a China com carne bovina já começou

Entidade que representa as indústrias exportadoras de carne bovina defende regulamentação para preenchimento da nova cota de vendas em 2027 

Juliana Camargo, da CNN Brasil, São Paulo
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“Um ano atípico”. É assim que Roberto Perosa, presidente da Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne), define 2026.

Suspensão das vendas para a União Europeia, cota chinesa esgotada e, por outro lado, Estados Unidos voltando a comprar carne magra, principalmente do Brasil, para abastecer o mercado interno e conter a inflação no preço da proteína. Algumas demandas eram esperadas; outras foram surpresa.

Nesse cenário, o mercado chinês, maior cliente da carne bovina brasileira, segue como prioridade. O esgotamento da cota de 1,106 milhão de toneladas, dentro das medidas de salvaguarda chinesas, praticamente interrompeu os embarques e trouxe efeitos para o setor frigorífico no terceiro trimestre.

Em agosto, as exportações para a China recuaram 98%. A redução severa dos embarques afetou as margens e o fluxo de caixa das empresas habilitadas a exportar.

“Se não fosse a restrição imposta pela medida de salvaguarda, a cota, o Brasil facilmente teria alcançado a marca de 2 milhões de toneladas de carne exportadas para a China. Estávamos preparados para isso”, diz Perosa. Em 2025, o país embarcou o volume recorde de 1,6 milhão de toneladas.

A criação da cota, que passou a valer em janeiro, provocou uma corrida dos exportadores. E sem uma regra para distribuir os embarques ao longo do ano, as empresas aceleraram as vendas e a cota acabou concentrada no primeiro semestre.

O desafio agora é evitar que a história se repita em 2027.  A China estabeleceu uma nova cota: 1,128 milhão de toneladas para o próximo ano. São apenas 22 mil toneladas acima do volume de 2026.

“No ano passado, ficamos sabendo o ‘tamanho da cota’ praticamente na véspera. Agora que sabemos qual o volume a ser preenchido as empresas estão se antecipando e já programando as próximas vendas”, afirma o executivo.

Segundo Perosa, os embarques destinados ao cumprimento da nova cota, com tarifa menor, devem começar em novembro.

Com a antecipação das vendas, e conforme o apetite de compra chines, a Abiec avalia que os 1,128 milhão de toneladas possam ser preenchidos ainda mais cedo, entre março e abril de 2027. É justamente para evitar esse cenário que a entidade defende uma mudança na forma de distribuição da cota.

A proposta é substituir o modelo atual, de vendas livres, por uma divisão entre as empresas exportadoras, com volumes definidos de acordo com o histórico de cada frigorífico e distribuídos ao longo de um período maior.

“Essas cotas seriam distribuídas de acordo com o share, com o histórico de exportação das empresas já habituadas a vender para a China”, explica Perosa.

A ideia já foi apresentada ao governo federal, mas ainda não avançou. “Talvez depois das eleições a proposta volte à pauta”, diz o presidente da Abiec.

A preocupação não é apenas com o volume total autorizado, mas principalmente com a velocidade com que ele será utilizado. O esgotamento precoce da cota cria um período de escassez de contratos, e pode afetar as decisões de compra e de abate dos frigoríficos.

Perosa defende uma “previsibilidade regulatória com eficiência que garanta a estabilidade econômica e equilíbrio para a pecuária brasileira também nos próximos anos”.

Sem uma regulamentação, indústrias e exportadores se preparam para retomar, a partir de outubro, os abates de “gado padrão China”: animais jovens, com até 30 meses de idade.

E mercado futuro precifica esse movimento. As cotações do boi na B3 estão, pela primeira vez, acima de R$ 380, no contrato de outubro, e R$ 386 para novembro de dezembro.

A intensidade da demanda ainda é uma incógnita

O presidente da Abiec destaca que os estoques de carne bovina na China estão elevados. E a produção de carne suína, proteína mais consumida no país, aumentou. Esses fatores poderão influenciar o ritmo de compras chinesas no próximo ano e ditar o ritmo dos embarques. O que não descarta a criação de regras.

O número de plantas frigoríficas autorizadas a vender carne bovina para China deve aumentar em breve. Ou seja, mais unidades "disputando" a mesma cota. Hoje, 63 estão autorizadas a exportar ao mercado chinês. E mesmo com as vendas praticamente suspensas neste momento, uma missão chinesa chega ao Brasil no domingo (20) para vistoriar e habilitar novas plantas frigoríficas.