Crédito rural para soja tem divergências em 17,4% das operações, diz Serasa
Levantamento aponta possíveis desvios de finalidade em operações que somam mais de R$ 2,2 bilhões, mas empresa diz que dados não comprovam irregularidades.

Levantamento realizado pela datatech Serasa Experian identificou divergências superiores a 10% entre a área financiada com dinheiro público e a área de soja efetivamente identificada em 17,4% das operações de crédito rural analisadas na safra 2025/26. Segundo a empresa, os casos podem indicar possível desvio de finalidade, mas não representam, isoladamente, comprovação de irregularidade.
Dentro desse grupo, 10,6% das operações apresentaram divergências entre 10% e 50% da área contratada; 3,7% entre 50% e 90% e 3,1% entre 90% e 100%.
As operações com possível desvio superior a 10% concentram mais de R$ 2,2 bilhões em crédito concedido, o equivalente a cerca de 25% de todo o volume financeiro analisado.
De acordo com o head de agronegócio da Serasa Experian, Marcelo Pimenta, os exemplos não significam, isoladamente, a comprovação do uso irregular dos recursos. Segundo a empresa, os dados servem como sinal de atenção para que as instituições financeiras direcionem uma checagem documental, contratual, cadastral ou agronômica mais detalhada.
“Quando transformamos imagens de satélite e dados territoriais em indicadores objetivos, o monitoramento deixa de depender de uma análise amostral e evita altos custos com analistas para verificação de toda a carteira. A tecnologia ajuda a identificar onde estão as maiores divergências e permite que a instituição financeira concentre esforços justamente nas operações que demandam maior atenção. Isso é especialmente importante porque, quando há um possível desvio de finalidade, o banco pode estar exposto a uma operação diferente daquela originalmente analisada na concessão do crédito, com potenciais impactos regulatórios, financeiros e de risco”, explica Marcelo Pimenta, head de Agro da Serasa Experian.
Em um dos casos, nenhum hectare de soja foi identificado nos 76,54 hectares financiados para o cultivo, enquanto as imagens de satélite apontaram a presença de outra cultura. Em outro, dos 37 hectares contratados para soja, apenas 10,42 hectares tinham a cultura, uma divergência de 71,8%.
Na outra ponta, 82,6% das operações analisadas apresentaram aderência entre a finalidade do financiamento e a cultura identificada nas áreas informadas. O índice representa um avanço de 6,6 pontos percentuais em relação à safra 2022/23, quando a aderência era de 76%.
Esse percentual inclui 66,7% das operações sem divergência detectada e outras 15,9% com diferenças de até 10%, faixa que a Serasa não considera necessariamente uma irregularidade.
Janela ideal de plantio
Além da análise sobre a finalidade do financiamento, o “Mapa da Soja” também avaliou quando o plantio ocorreu, ainda sobre a safra 2025/26, e qual era a exposição agroclimática das lavouras naquele momento. Nesse recorte, a Serasa Experian monitorou 1,53 milhão de talhões, que somam 46,9 milhões de hectares de soja, e identificou que 97,8% da área analisada foi plantada dentro dos períodos recomendados pelo ZARC (Zoneamento Agrícola de Risco Climático).
O Zarc é uma ferramenta do governo que indica onde, quando e como determinadas culturas podem ser plantadas com menor risco climático. Mas não é apenas uma recomendação técnica porque é utilizado pelos bancos para saber o risco de perda das lavouras, geralmente em níveis de 20%, 30% e 40%.
Do total, 84,9% da área estava enquadrada na faixa de risco agroclimático de 20%, 10,7% na faixa de 30% e 2,2% na de 40%. Outros 2,2% apresentaram divergência estimada entre a data de plantio identificada e a janela local parametrizada.
Esse tipo de monitoramento ganha ainda mais relevância no contexto regulatório atual do crédito em linha com as diretrizes do Manual de Crédito Rural (MCR) e com a Resolução CMN nº 5.267/2025. O uso de sensoriamento remoto e geotecnologias amplia a capacidade de acompanhar as condições do empreendimento financiado, incluindo aspectos como o período de plantio e a exposição agroclimática.
“O ZARC traz uma dimensão complementar importante para a análise porque permite entender não apenas se a soja foi plantada, mas em que momento isso ocorreu e sob qual nível de exposição agroclimática. As diferentes faixas de risco ajudam a contextualizar as condições enfrentadas pela lavoura e, quando combinadas a outros dados do ciclo produtivo, oferecem uma visão mais completa para acompanhar a operação e avaliar o risco ao longo da safra”, afirma Marcelo Pimenta.
O estudo cruzou dados públicos do SICOR com mapas proprietários de cultivo da Serasa Experian e utilizou imagens dos satélites Sentinel-2 para identificar a presença da soja nas áreas informadas nas operações de crédito.

