Expedição na Caatinga busca por microrganismos únicos no mundo

Presente em nove estados, e ocupando 11% do território nacional, Caatinga permanece como bioma menos estudado sob ponto de vista biotecnológico A proposta é transformar adaptações naturais do bioma em soluções sustentáveis para o agro

Juliana Camargo, da CNN Brasil, São Paulo
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As temperaturas facilmente ultrapassam os 40°C. A radiação solar é intensa. A umidade do ar é baixa. E os solos ficam meses sem chuva.

Condições que limitam a agricultura convencional no semiárido brasileiro são justamente as que tornam a Caatinga, e seus microorganismos, como únicos do ponto de vista biotecnológico.

"Os microrganismos que sobrevivem neste ambiente, quente e seco na maior parte do ano, desenvolvem capacidade de adaptação rara como: produção de compostos protetores, eficiência metabólica mesmo em condições de escassez extrema e capacidade de entrar em dormência por meses, voltando à atividade com as primeiras chuvas", explica Patrícia Mendes, diretora de desenvolvimento de negócios e estratégia comercial da Apoena Agro.

É nesse cenário que a ciência começa a buscar uma nova geração de bioinsumos agrícolas. O interesse cresce à medida que o setor produtivo busca alternativas para culturas em regiões com baixa disponibilidade hídrica e solos pobres em nutrientes.

A expedição, organizada pela empresa Apoena Agro (divisão agrícola da Apoena Biotech) visitou a Caatinga em busca desses microorganimos. A iniciativa busca unir biodiversidade brasileira, ciência e agricultura sustentável em um momento em que o setor busca alternativas para produção de alimentos em cenários climáticos cada vez mais desafiadores.

A proposta é transformar adaptações naturais do único bioma exclusivamente brasileiro em soluções sustentáveis para o agro. "Esperamos, por meio dessa expedição, desenvolver especialmente bioestimulantes e biofertilizantes para regiões onde a seca e a baixa fertilidade do solo são os principais desafios da produção agrícola", explica Patrícia Mendes.

A bioprospecção consiste na busca por microrganismos em ambientes naturais, envolvendo a coleta, o isolamento, a caracterização e o mapeamento das suas funções. Com isso, desenvolvem-se novos produtos com aplicações diversas, como os bioinsumos.

Foram coletadas 98 amostras durante a estação chuvosa, entre janeiro e março. Uma nova visita será feita de junho a dezembro, para a coleta de amostras na estação da seca. E a estimativa é coletar e catalogar 200 amostras exclusivas do bioma.

"A alternância de climas, combinada com solos pobres e temperaturas extremas, forçou os microrganismos locais a desenvolver mecanismos de sobrevivência incomuns: alguns conseguem entrar em estado de dormência durante meses e voltar à atividade assim que a umidade retorna, enquanto outros decompõem matéria orgânica de difícil degradação ou contribuem para a fixação de nitrogênio no solo", completa a diretora.

Segundo a Apoena todo o processo é feito com a autorização do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e de acordo com a legislação brasileira de acesso à biodiversidade.
Além do solo a coleta é feita ao redor das raízes, tecidos internos das plantas nativas e fendas de rochas.

O interesse biotecnológico está nas cepas capazes de induzir resistência à seca nas plantas hospedeiras, alternar fontes de energia em condições de escassez e produzir compostos de proteção celular raramente encontrados em outros biomas.  Os estudos serão compartilhados com a comunidade científica para ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade nacional.

A iniciativa representa a expansão de uma plataforma de pesquisa que já explorou ambientes como a Amazônia e o arquipélago de Fernando de Noronha. Com a incorporação das cepas da Caatinga, o banco da Apoena Agro deve superar 1200 microrganismos.

Até o final de 2026, a empresa planeja ampliar ainda mais o acervo, chegando a mais de 2 mil microrganismos, com novas expedições em outros biomas brasileiros.  "O Brasil abriga mais de 20% das espécies conhecidas no planeta, e boa parte desse patrimônio ainda é cientificamente inexplorado. Desenvolver bioinsumos a partir dessa biodiversidade é uma forma de transformar a riqueza biológica do país em soluções reais para um agronegócio mais resiliente, produtivo e em equilíbrio com o meio ambiente", conclui Patrícia Mendes.