Exportações de milho da Argentina devem bater recorde

Compradores buscam alternativas aos suprimentos ucranianos e às safras europeias afetadas pelo clima, elevando demanda pelos grãos da Argentina

Por Maximilian Heath, da Reuters
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As exportações de milho da Argentina devem atingir recorde de 10 milhões de toneladas em agosto e setembro, impulsionadas ​por uma safra excepcional e pela forte demanda internacional, à medida que ​compradores buscam alternativas aos suprimentos ucranianos prejudicados pela guerra e às safras europeias afetadas pelo calor extremo.

O terceiro maior exportador mundial de milho está concluindo a safra 2025/26, estimada em 71,7 milhões de toneladas. Quase 20% acima do recorde anterior estabelecido há cinco anos, segundo dados do governo.

“O milho argentino, neste momento, é muito competitivo em preço e em volume”, disse Gustavo Idigoras, presidente da CIARA-CEC, câmara de exportadores e moedores de grãos, à Reuters. Os volumes normais de exportação para agosto-setembro costumam atingir cerca de 3 milhões de toneladas, acrescentou ele.

Idigoras ⁠afirmou que a demanda dos países do Norte ​da África, que normalmente compram grãos ucranianos, tem sido o principal fator impulsionador.

“Nos últimos meses, tivemos reuniões com vários ​países do norte da África, que desejam estreitar os laços comerciais com os exportadores argentinos”, disse ele, sem citar países específicos.

Dados do ⁠Indec, órgão de estatística da Argentina, mostram que os embarques de ⁠milho para o norte da África aumentaram 45% nos primeiros sete meses de 2026, para 6,5 milhões ​de ‌toneladas, em comparação com um crescimento geral das exportações de 15% no mesmo período.

Marrocos liderou o aumento, com as importações de milho argentino ⁠saltando 133% em relação ao ano anterior, para 1,55 milhão de toneladas. O Egito veio em seguida, com um aumento de 48%, para 2,4 milhões, enquanto as importações da Argélia cresceram 10%, para 2,4 milhões de toneladas.

Gargalo no Mar Negro

Essa mudança no comércio ocorre em momento em que ‌a Rússia ⁠intensificou os ataques à ‌infraestrutura de exportação na região de Odessa, na Ucrânia, onde se encontram os principais portos do país no Mar Negro.

Os ataques bloquearam efetivamente os portos marítimos que antes movimentavam 90% das exportações de grãos da Ucrânia, forçando Kiev a desviar as cargas para portos do rio ⁠Danúbio, de menor capacidade.

Mas a seca e as ondas de calor recordes em ⁠toda a Europa reduziram os níveis de água ao longo do já congestionado Danúbio, restringindo ainda mais os embarques ucranianos, que caíram 52% no mês passado.

“Hoje, a ‌única maneira de a Ucrânia transportar sua produção é por via terrestre. É muito provável que ela acabe na Europa, na França, onde a onda de calor devastou a safra de milho”, disse Javier Preciado Patiño, analista e ex-secretário de Comércio da Argentina. Ele afirmou que os mercados externos da Ucrânia estão em jogo.

Contexto Brasileiro

O aumento nas exportações da Argentina também reflete mudanças na dinâmica do ‌vizinho Brasil, o segundo maior exportador mundial de milho.

Os embarques brasileiros caíram quase 20% em relação ao recorde de 53 milhões de toneladas registrado nos últimos três anos, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Essa queda beneficiou a Argentina, afirmou ⁠Idigoras.

Grande parte do milho que os exportadores teriam embarcado em portos como Santos ou Itaqui está, em vez disso, abastecendo a crescente indústria de etanol do Brasil, composta por mais de 300 unidades de produção que utilizam cana-de-açúcar ou milho como matéria-prima.

Dante Romano, gerente de pesquisa da ​corretora de grãos Max Agro, com sede em Rosário, disse que a demanda interna brasileira por milho é “impressionante” e cresce a cada ano.

​De acordo com o USDA, o consumo de milho no Brasil aumentou 7,1% na safra de 2025/26, chegando a 98 milhões de toneladas em comparação com a safra anterior.

“Isso é importante para a Argentina porque o Brasil é um forte concorrente no mercado de milho, e menos milho lá para exportação significa melhores oportunidades comerciais para os exportadores ‌argentinos”, acrescentou Romano.

(Reportagem de Maximilian Heath)