MBRF reposiciona cargas e adota alternativas logísticas no Oriente Médio
Companhia usa estoques formados desde 2024 e alternativas logísticas para superar restrições em meio ao conflito na região, e afirma que fluxo de embarques e abastecimento está ativo

A MBRF informou nesta quinta-feira (19), durante teleconferência de resultados, que tem conseguido manter o fluxo de exportações e o abastecimento de clientes no Oriente Médio, mesmo diante da escalada do conflito na região e de restrições logísticas, como o fechamento de portos no Estreito de Ormuz.
Segundo o CEO, Miguel Gularte, a companhia vinha adotando, desde 2024, uma estratégia de formação de estoques operacionais nos países de destino, inicialmente motivada por fatores sanitários, como preocupações com a doença de Newcastle e gripe aviária, e de segurança de abastecimento.
De acordo com ele, essa estrutura tem permitido enfrentar o atual cenário sem interrupções relevantes. A companhia tem investido em operações hallal na região.
Gularte afirmou que a empresa reposicionou cargas que estavam em trânsito para portos ainda operacionais e passou a utilizar alternativas logísticas, incluindo transporte marítimo e terrestre dentro da região. “Não interrompemos o fluxo de embarques, está perfeitamente ativo”, disse.
A companhia também destacou que mantém operações no Oriente Médio desde a década de 1970, o que, segundo o executivo, contribuiu para o desenvolvimento de uma malha logística capaz de atender diferentes mercados da região. Ainda de acordo com ele, não houve ruptura no fornecimento a clientes.
No campo comercial, a empresa relatou aumento da demanda por alimentos em função do conflito, acompanhado por elevação de preços. Gularte afirmou que custos adicionais, como taxas de frete associadas ao cenário de guerra, têm sido plenamente absorvidos pelo mercado.
Sobre insumos, o diretor vice-presidente de Finanças, José Ignácio Scoseria Rey, disse que, no curto prazo, a produção de grãos — especialmente milho e soja — segue com perspectiva positiva e semelhante à de 2025. Segundo ele, não há indicação de eventos climáticos que afetem a safra no momento.
Em relação à alta nos preços de fertilizantes, o executivo afirmou que não há impacto imediato esperado, uma vez que a safra de verão já está em andamento e as decisões de compra para a próxima safra devem ocorrer apenas no terceiro trimestre. Ele ressaltou, no entanto, que um eventual prolongamento do conflito pode influenciar decisões futuras dos produtores.
A cotação de fertilizantes afeta a produção de grãos, que chega à cadeia de proteína, uma vez que são utilizados como matéria-prima para a alimentação dos animais.
Sobre custos logísticos, Rey afirmou que ainda é cedo para estimar impactos, destacando a volatilidade do cenário e a possível influência dos preços do petróleo, condicionada à duração e intensidade do conflito.
Rey crescentou que eventuais impactos adicionais podem surgir caso haja aumento generalizado dos custos de frete no cenário global. Segundo ele, esse movimento poderia afetar especialmente empresas que enfrentem dificuldades para redirecionar cargas ao Oriente Médio, diante das restrições logísticas impostas pelo conflito.
Mercado interno
Os executivos destacaram a pressão sobre margens no mercado doméstico ao longo do último trimestre, ao mesmo tempo em que apontaram sinais de recuperação no cenário internacional e perspectivas positivas para 2026.
“Tivemos uma deterioração da margem no Brasil parcialmente compensada por uma boa campanha comemorativa e uma contribuição positiva do segmento internacional”, disse o CEO, Miguel Gularte.
O executivo afirmou que os efeitos de gripe aviária no último ano também contribuíram para uma queda dos produtos in natura e para um consumidor mais retraído. Apesar disso, “o preço do in natura afeta o trimestre, mas não podemos esquecer que processados são dois terços do portfólio da MBRF”, afirmou.
A companhia encerrou 2025 com volume histórico de produção, atingindo 5,2 milhões de toneladas, alta de 4,3% na comparação anual.
No cenário de mercado, Gularte avaliou que há equilíbrio entre oferta e demanda, com destaque para o apetite externo. “Hoje vemos um mercado onde oferta e demanda segue equilibrada. Do ponto de vista de produção, não vemos nenhum desequilíbrio. Vemos um mercado externo muito ávido por produto e o preço internacional subindo”, declarou.
Mercado internacional
No segmento internacional, a empresa destacou a relevância de mercados como China e Estados Unidos, que responderam por 47% e 22% da receita externa, respectivamente, em 2025.
O CEO observou que houve uma compressão de margens no início do ano, mas classificou o movimento como pontual. “Não foi uma [compressão] que preocupe porque não é uma tendência, é um ponto fora da curva”, disse, acrescentando que já há recuperação de preços em andamento.
A companhia ainda destacou o mercado halal, com uma “dinâmica de preços boa na região”. Na Turquia, com tudo, houve “o pior trimestre do ano”, mas já em recuperação no primeiro trimestre de 2026, disse o diretor vice-presidente financeiro.
Sobre a China, apontada como detratora de margem no último ano por analistas na teleconferência, Gularte demonstrou otimismo. “Conseguimos, em tempo recorde, habilitar a fábrica de Henan, que já está operacional e com cronograma adiantado. A China vai atuar como um fator de demanda muito positivo”, disse. Ele destacou ainda oportunidades para proteínas como frango, suínos e ovinos, que já apresentariam uma recuperação.
A MBRF ainda destacou que já tem um plano para redirecionar cargas que excedam a salvaguarda chinesa para a carne bovina brasileira. Segundo os executivos, se trata de um volume de aproximadamente 600 mil toneladas, e que não teria grandes efeitos no mercado interno uma vez que corresponde a cerca de 4% da produção da companhia.
Fusões e aquisições
Em 2025, as operações de fusões e aquisições somaram R$ 1,1 bilhão, incluindo investimentos na China, Arábia Saudita e no segmento de gelatina e colágeno. Entre os projetos, está prevista a construção de uma fábrica de processados em Jeddah, com início esperado para o segundo semestre de 2026, além da ampliação da capacidade de abate de aves e bovinos na América do Sul.
Segundo a empresa, a expansão adicionou 100 mil toneladas anuais de capacidade em 2025 e deve acrescentar mais 60 mil toneladas em 2026, o que representa quase 10% do volume atual no período combinado.
“O capex [despesas de capitais], de fato, teve uma boa parte dos projetos já impactando nosso fluxo de caixa, na faixa de R$ 6,4 bilhões. Mesmo com o pipeline de projetos previstos, esse capex deve cair. Foi um ponto fora da curva no quarto trimestre de 2025”, afirmou o diretor vice-presidente financeiro.
Ele acrescentou que a empresa tem flexibilidade para ajustar investimentos, se necessário. “Eventualmente, em um cenário de estresse, poderíamos reduzir o capex para uma base de R$ 3,5 bilhões”, disse.
Sobre a alavancagem, o executivo atribuiu a alta recente à variação cambial, mas demonstrou confiança na trajetória futura. “Com as perspectivas de negócios e margens para 2026, poderemos manter a alavancagem sob controle”, afirmou, mencionando ainda a expectativa de geração de sinergias de R$ 600 milhões.
A companhia também indicou que antecipou parte de suas aquisições como estratégia para mitigar volatilidades associadas ao calendário eleitoral.


