Mosaic planeja venda de ativos e paralisa operações após impacto do enxofre

Unidade de Araxá será desmobilizada enquanto empresa avalia venda de ativos no município, e empresa anunciou suspensão das atividades de mineração relacionadas ao Complexo de Patrocínio

Gabriella Weiss, da CNN Brasil, São Paulo
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A Mosaic anunciou que iniciará o processo de paralisação e desmobilização do Complexo de Mineração e Químico de Araxá (MG), além da suspensão das atividades de mineração relacionadas ao Complexo de Patrocínio (MG). A medida deve resultar na redução do quadro de funcionários nas duas unidades.

Segundo a empresa, as operações durante o período de paralisação seguirão as normas de segurança, ambientais e de gestão de barragens de rejeitos. A companhia também informou que pretende buscar a venda dos ativos localizados em Araxá.

Paralelamente, a Mosaic continuará o desenvolvimento de projetos relacionados ao nióbio em Patrocínio. De acordo com a empresa, os estudos técnicos sobre o mineral estão em fase final, incluindo etapas de amostragem e análise.

A paralisação das unidades deve reduzir em cerca de 1 milhão de toneladas a produção anual de fosfato da Mosaic Fertilizantes. A empresa estima que o impacto no Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado será limitado, considerando o cenário de preços elevados do enxofre, desconsiderando custos pontuais associados ao fechamento.

Após a possível conclusão da venda dos ativos, a Mosaic projeta redução anual de aproximadamente US$ 20 a US$ 30 milhões em investimentos de capital e de US$ 70 a US$ 80 milhões em despesas operacionais. 

A companhia também prevê registrar, no primeiro trimestre de 2026, um impacto contábil antes de impostos entre US$ 350 milhões e US$ 400 milhões, incluindo perdas por desvalorização de ativos, custos de rescisão contratual e despesas relacionadas à paralisação das operações.

Em comunicado, o presidente e diretor executivo da empresa, Bruce Bodine, afirmou que a decisão está alinhada à estratégia de alocação de capital e à busca por retorno financeiro.

A decisão ocorre após medidas já adotadas pela empresa no fim de 2025. Em dezembro, a Mosaic informou que iniciou a paralisação da produção do fertilizante superfosfato simples (SSP) em suas unidades da Fospar, em Paranaguá (PR), e em Araxá. Segundo a companhia, a medida foi motivada pelo aumento recente e significativo nos preços do enxofre, insumo utilizado no processo produtivo. Na ocasião, a empresa também comunicou a suspensão de compras futuras do insumo.

Em recente entrevista à CNN, Eduardo Monteiro, country manager da Mosaic Fertilizantes, afirmou que são necessários cerca de 400 quilos de enxofre para produzir uma tonelada de fertilizante fosfatado, o que tornou a produção inviável economicamente. Segundo o executivo, a normalização do mercado tende a se tornar mais distante com a intensificação dos conflitos geopolíticos.

Alta do enxofre

A oferta global de enxofre já vinha sob pressão antes mesmo da escalada recente do conflito no Oriente Médio, e o cenário se agravou com o aumento das tensões na região. 

Essencial para a produção de fertilizantes, especialmente os fosfatados, o mercado consome cerca de 60% do enxofre produzido no mundo. O insumo tem enfrentado uma redução de disponibilidade nos últimos anos, em meio à crescente demanda do setor de metais, em particular da indústria de níquel, segundo a analista de enxofre da Argus, Jasmine Antunes.

Um dos principais vetores dessa mudança é a Indonésia, que tem ampliado significativamente suas importações de enxofre e ácido sulfúrico para abastecer sua produção de níquel, dissociada da dinâmica do mercado de fertilizantes. 

Em 2025, o país importou mais de 5 milhões de toneladas de enxofre, um salto relevante em relação às cerca de 3 milhões de toneladas registradas em 2024. Pagando um prêmio pelo enxofre, o setor de metais passou a competir diretamente com o de fertilizantes, aprofundando a divisão do mercado global.

Agora, esse desequilíbrio estrutural se soma aos impactos geopolíticos. O Oriente Médio responde por quase metade do comércio marítimo global de enxofre, com exportações que giram em torno de 20 milhões de toneladas anuais, segundo Jasmine. 

No entanto, ataques a refinarias e instabilidades operacionais já afetam tanto a logística quanto a produção. “Não é só uma pergunta da passagem dos navios [pelo estreito de Ormuz], mas também é uma pergunta sobre a produção de enxofre árabe a longo prazo”, disse Jasmine.

Como o enxofre é majoritariamente um subproduto do refino de petróleo e gás natural, qualquer redução nessas atividades também limita sua produção. Com isso, o mercado global enfrenta um aperto simultâneo de oferta e demanda, impulsionando os preços a patamares registrados em picos históricos Segundo a analista, os preços já ultrapassam a alta registrada em 2022, com o início da guerra da Rússia, e se aproximam do pico da crise econômica de 2008.

“É muito difícil ver quando a situação na guerra no Oriente Médio vai melhorar. Ninguém sabe. Mas se não melhorar, nós não achamos que vamos ver uma queda nos preços globais no curto prazo”, disse Jasmine.