No oeste dos EUA, fazendas, cidades e indústria na disputam água

Abastecimento de 40 milhões de pessoas é ameaçado, intensificando disputa entre agricultores, cidades e indústrias no oeste dos EUA

Por Rebecca Noble e Andrew Hay, da Reuters

No Arizona, peixes mortos jazem no leito seco de um reservatório. Ao norte, uma pequena cidade de Utah pode ficar sem água em poucos meses. E no Colorado, uma pecuarista ​vendeu um quinto de seu rebanho, já que as lagoas de abastecimento estão vazias.

Essas comunidades estão ligadas pelo sistema ​do rio Colorado, que abastece cerca de 40 milhões de pessoas em sete Estados do oeste dos EUA e no México, além de irrigar milhões de acres de terras agrícolas. Décadas de seca, agravadas pela menor acumulação de neve do inverno deste ano — um recorde negativo — e pelo mês de março mais quente já registrado, intensificaram a escassez em toda a bacia.

A seca está colocando os agricultores em confronto com os moradores das cidades e subúrbios, bem como com consumidores industriais, incluindo data centers, projetos de energia solar e fábricas de chips. Autoridades federais estão considerando cortes drásticos na água destinada do rio Colorado para o Arizona, Califórnia e Nevada.

Perto de Casa Grande, no centro do Arizona, a agricultora Nancy Caywood precisa pagar uma taxa anual de US$21.000 ao distrito hídrico local, mesmo que a água do rio tenha se esgotado em março.

Sua fazenda de alfafa e algodão, ⁠com aproximadamente 250 acres (100 hectares), depende inteiramente da irrigação do Reservatório de San Carlos, no ​rio Gila, um afluente do rio Colorado. Em um ano com neve catastroficamente escassa, a demanda dos agricultores e das cidades esvaziou o reservatório até 1% de sua capacidade, deixando garças ​e pelicanos se banqueteando com robalos e carpas espalhados por seu leito ressecado.

“Nós resistimos por quase 30 anos”, disse Caywood, que arrendou os campos de um vizinho com acesso à água do aquífero. “Há pessoas que ⁠vêm até você e perguntam: ‘Você gostaria de vender sua terra para instalar painéis solares nela?’”.

Jace ⁠Miller, outro agricultor do condado de Pinal, é a quinta geração de sua família a cultivar a terra há mais de 107 anos e espera trazer seu filho ​para ‌o negócio, mesmo que mais da metade de seus campos estejam em pousio devido à seca.

Como muitos agricultores da região, ele perdeu grande parte do acesso à água do rio Colorado em 2022, quando os usuários municipais passaram ⁠a ter prioridade sobre os recursos cada vez mais escassos.

Empresas imobiliárias e de energia solar estão comprando as terras agrícolas que ele arrenda ao sul de Phoenix.

Ele instou o Arizona a impor uma moratória ao crescimento residencial, argumentando que os agricultores são essenciais para a segurança alimentar do país. Miller pediu soluções criativas que vão além da exploração de aquíferos, como dutos de água que atravessem o país, semelhantes aos usados para o petróleo.

“Não dá para ficar ‌tirando água da ⁠agricultura o tempo todo”, disse ele.

Mas ‌Michelle Ugenti-Rita, candidata à Câmara Municipal de Scottsdale, um rico subúrbio de Phoenix, disse que a água historicamente destinada à agricultura poderia suprir as necessidades hídricas da cidade.

Com 70% de sua água proveniente do rio Colorado, Scottsdale, uma cidade com cerca de 250 mil habitantes, está se esforçando para encontrar novas fontes. Ugenti-Rita disse, em entrevista por telefone, que a compra de direitos sobre águas subterrâneas de agricultores e de outras cidades estava entre as possíveis soluções.

“A ⁠comunidade agrícola é uma grande consumidora da nossa água. É para lá que ela deveria ir?”, questionou Ugenti-Rita, ex-senadora estadual ⁠republicana.

O cientista Brad Udall, da Universidade Estadual do Colorado, disse que as enormes reservas de água subterrânea do Arizona, localizadas sob o deserto, são únicas no mundo e permitiram que a população do Estado dobrasse ao longo de quatro décadas. Mas ele afirmou que esse ‌recurso não é renovável e não se deve depender dele.

“Nós meio que criamos esse monstro que você precisa continuar alimentando”, disse ele sobre as necessidades hídricas do Arizona.

Na nascente

O Departamento de Recuperação dos EUA está considerando adotar grande parte de uma proposta apresentada pelo Arizona, pela Califórnia e por Nevada -- conhecidos como os Estados da Bacia Inferior -- para reduzir o uso do rio Colorado em cerca de 21% ao ano até 2028, a fim de manter os níveis críticos dos reservatórios.

A proposta acirrou uma disputa de longa data sobre como dividir os caudais cada vez menores do rio entre esses Estados a jusante e os Estados da ‌Bacia Superior -- Colorado, Novo México, Utah e Wyoming --, onde se encontram as nascentes do rio nas Montanhas Rochosas. Os sete Estados podem acabar indo para a Justiça.

A pecuarista do Colorado Robbie LeValley cultivou apenas um quarto de sua safra normal de feno depois que a água de irrigação proveniente do derretimento da neve se esgotou dois meses antes do previsto. Os preços do feno triplicaram em sua região de Western ⁠Slope, logo a leste de uma das maiores áreas de seca do país classificada como “excepcional”, o pior nível.

LeValley, cuja família do marido mantém uma fazenda perto de Hotchkiss, no Colorado, desde 1910, enfrentou problemas semelhantes em 2010 e 2012.

Ela rejeitou as sugestões de que a agricultura seja a culpada pelos problemas hídricos do rio Colorado. “Nós trazemos benefícios. Não somos o problema”, disse LeValley.

Em Emery, Utah, a 306 km a oeste da fazenda de LeValley, o Muddy Creek -- ​que alimenta o rio Colorado em anos bons -- é a única fonte de água potável para os 330 moradores da cidade. Ele está fluindo a 6% do volume normal após uma acumulação de neve extremamente baixa em suas nascentes ​nas Montanhas Wasatch.

A rega externa está proibida, e os moradores usam água do banho e da lavagem de louça para manter árvores e jardins vivos.

A cidade dispõe de água em reservatórios que deve durar de seis a nove meses, disse o prefeito Jack Funk, de 61 anos, que está testando poços antigos e nascentes para possível uso. Depois disso, será necessário começar a trazer água por caminhão, a menos que sejam encontradas alternativas ou que chova.

“Todo mundo achava que nunca ficaríamos sem água em Emery, porque não somos uma cidade muito grande, mas aqui ‌estamos”, disse Funk.