ONU prevê aquecimento superior a 1,5°C e riscos maiores no agro

Para o setor agropecuário, o avanço de cada fração de grau representa aumento dos riscos associados a eventos climáticos extremos, perda de produtividade e maior pressão sobre recursos naturais

Luciana Franco, da CNN Brasil, São Paulo
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O mundo deve ultrapassar nos próximos anos o limite de 1,5°C de aquecimento global estabelecido pelo Acordo de Paris, aumentando os riscos para a produção de alimentos, a disponibilidade de água e as economias rurais. O alerta está em um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), divulgado nesta quarta-feira (2).

Segundo o estudo, mesmo no cenário mais otimista, a temperatura média global deverá atingir um pico de 1,8°C acima dos níveis pré-industriais. A maioria dos outros cenários prevê um aquecimento ainda maior.

"O calor abrasador, os incêndios florestais intensos e as inundações mortais deste verão são um alerta para o que está por vir. Devemos tornar a ultrapassagem acima de 1,5 graus a menor e mais breve possível", avalia o Secretário-Geral da ONU, António Guterres.

Para o setor agropecuário, o avanço de cada fração de grau representa aumento dos riscos associados a eventos climáticos extremos, perda de produtividade e maior pressão sobre recursos naturais.

A agricultura está entre os setores mais expostos ao avanço das temperaturas porque depende diretamente do comportamento do clima, da disponibilidade de água e das condições do solo.

O aumento de eventos extremos pode afetar desde o calendário de plantio e colheita até a produtividade das lavouras e a criação de animais. Secas prolongadas podem reduzir a disponibilidade de água para irrigação e dessedentação, enquanto chuvas intensas podem provocar erosão, perdas de solo e destruição de lavouras e infraestrutura.

O aquecimento também aumenta a pressão sobre os ecossistemas e pode alterar a distribuição de pragas e doenças agrícolas.

Para o setor, portanto, a adaptação passa a ter importância crescente. O PNUMA defende que medidas de adaptação e mitigação avancem de forma conjunta, priorizando iniciativas capazes de reduzir emissões e, ao mesmo tempo, aumentar a resiliência das comunidades e das economias.

Amazônia entre os pontos de risco

O relatório também chama atenção para a possibilidade de ultrapassagem de pontos de não retorno, ou seja, eventos que podem provocar mudanças irreversíveis ou de difícil reversão no sistema climático.

Entre os riscos citados estão a desestabilização de grandes mantos de gelo, alterações na circulação oceânica do Atlântico e a degradação da Floresta Amazônica.

A Amazônia tem importância direta para o Brasil e para o agronegócio. Alterações no funcionamento da floresta podem afetar o regime de chuvas e, consequentemente, as condições de produção agrícola em diferentes regiões.

O PNUMA destaca que a probabilidade de atingir esses pontos críticos aumenta quanto maior for a temperatura e quanto mais tempo o planeta permanecer em níveis elevados de aquecimento.

Adaptação será cada vez mais necessária

Mesmo que o mundo consiga reduzir as temperaturas posteriormente, o relatório alerta que parte das perdas provocadas pelo aquecimento será irreversível.

Comunidades poderão precisar se deslocar, atividades econômicas terão de ser adaptadas e sistemas de produção precisarão responder a condições climáticas diferentes das atuais.

Para o campo, isso significa ampliar investimentos em resiliência, manejo de água, tecnologias de adaptação, sistemas produtivos mais resistentes e recuperação de áreas degradadas, enquanto as emissões continuam sendo reduzidas.

O relatório defende que as ações sejam tomadas agora. Quanto menor e mais curta for a ultrapassagem de 1,5°C, menores tendem a ser os riscos, os custos de adaptação e as perdas associadas às mudanças climáticas.