Pesquisa da UFG mostra desempenho positivo de DDGS de sorgo em bovinos
Estudo com 200 animais avalia níveis de inclusão do coproduto do etanol e aponta desempenho promissor no consumo e na adaptação dos animais

Uma pesquisa conduzida pela Universidade Federal de Goiás em parceria com a Inpasa avalia o uso do DDGS de sorgo, coproduto da produção de etanol, na alimentação de bovinos confinados. Os resultados preliminares indicam que os animais apresentam desempenho positivo com a utilização do produto, inclusive em níveis elevados de inclusão na dieta.
O estudo envolve 200 animais divididos em 25 baias e busca identificar qual é o nível mais adequado de utilização do DDGS de sorgo na dieta de bovinos em terminação. Os pesquisadores trabalham com cinco níveis de inclusão, de zero a 50% do produto em matéria seca, substituindo gradualmente o milho. A dieta também conta com bagaço de cana como volumoso, que representa 8,5% da alimentação.
Segundo o professor Juliano Fernandes, da UFG, a pesquisa surgiu a partir da entrada do DDGS de sorgo no mercado brasileiro. A universidade já possui experiência com estudos envolvendo DDGS de milho e passou a avaliar o novo coproduto produzido a partir do sorgo.
"Quando surgiu a oportunidade, o DDGS de sorgo não era produzido no Brasil. Quando a Inpasa colocou isso no mercado, nós fomos demandados a fazer essa pesquisa. Qual é o nível de inclusão do DDGS de sorgo na dieta de animais em terminação em confinamento?", explicou o pesquisador.
O objetivo é determinar até que ponto o DDGS de sorgo pode ser incluído na alimentação sem comprometer o desempenho dos animais. Para isso, os pesquisadores acompanham consumo de matéria seca, ganho de peso diário, ganho de carcaça, rendimento de carcaça e conversão alimentar.
Embora o experimento ainda estivesse em fase de conclusão no momento da entrevista, Fernandes afirmou que o comportamento dos animais vinha chamando a atenção da equipe.
"O experimento está terminando. A gente vai abater os animais na semana que vem. Então a gente não tem esse número fechado. Mas o que a gente percebe em consumo é muito claro, que os animais estão desempenhando muito bem como é no DDGS de milho", afirmou.
O professor destacou que, pelos dados de consumo observados até então, a expectativa era de que não houvesse diferença relevante entre os dois produtos, embora a conclusão dependesse das análises estatísticas.
"A minha percepção hoje, pelos consumos que nós temos, é que não vai ter diferença nenhuma a gente usar o DDGS de milho ou usar o DDGS de sorgo. É lógico que são dados que nós temos que fazer as análises estatísticas, analisar os números, para a gente chegar nesse finalmente", disse.
Um dos resultados que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi o comportamento dos animais submetidos à maior concentração do DDGS de sorgo. Com inclusão de 50% do produto na dieta, em base de matéria seca, os bovinos chegaram a consumir entre 2,6% e 2,7% do peso vivo em apenas seis ou sete dias de confinamento.
"Com 50% de inclusão do FortiPro de sorgo no sistema, a gente tem uma rampa de consumo, ou uma evolução do consumo desse animal, que é a coisa surreal que acontece. O animal chegar a 2,6%, 2,7% do peso vivo em consumo com sete dias, seis dias de confinamento", afirmou Fernandes.
Para o pesquisador, a velocidade de adaptação ao consumo pode representar uma vantagem durante o período de terminação, já que o animal consegue atingir rapidamente níveis elevados de ingestão.
"Quanto mais rápido o animal consumir, mais resultado ele vai entregar para nós durante a vida dele, dos 100 dias, 105 dias que a gente tem de confinamento", disse.
Outro ponto observado foi a estabilidade do consumo. De acordo com Fernandes, os animais submetidos à maior inclusão de DDGS de sorgo apresentaram menor oscilação entre um dia e outro.
"Quando você tem alta inclusão do DDGS de sorgo, nós encontramos aqui que essa curva de consumo desse animal tem menos variação. A gente chama do efeito serrote. A gente tem menos na curva de consumo desse animal", explicou.
A pesquisa também ganha relevância diante da expansão da produção de sorgo no Brasil e do crescimento das usinas que utilizam o cereal para a fabricação de etanol. Goiás é o maior produtor brasileiro de sorgo e, com o aumento do processamento do grão, cresce também a disponibilidade de coprodutos que podem ser destinados à alimentação animal.
Para Fernandes, a geração de dados nacionais é importante porque as condições brasileiras são diferentes das encontradas em outros grandes produtores de etanol e carne.
"Eu acho que nós da universidade, o nosso papel é mostrar para a sociedade que esse produto tem bom desempenho e ele vai entregar bons resultados para o produtor de bovinos de corte confinado", afirmou.
O professor também destaca que ainda existem poucas pesquisas específicas com DDGS produzido exclusivamente a partir do sorgo. Nos Estados Unidos, segundo ele, é comum a utilização de blends, o que torna o estudo brasileiro relevante para avaliar o desempenho de um produto baseado no sorgo.
"Nós tínhamos a dúvida. Ninguém trabalhava somente com DDGS de sorgo. Nem os Estados Unidos, que é um país que mais produz DDG no mundo, tem um DDGS de sorgo tão puro, tão somente ele. Geralmente eles trabalham com blend. Então a gente tinha essa dúvida", explicou.
Depois do abate, os pesquisadores vão avaliar características como rendimento de carcaça, gordura e produção de carcaça. Uma etapa posterior deverá analisar a digestibilidade do produto, ou seja, como os nutrientes são aproveitados pelo organismo dos animais.
A parceria entre a UFG e a Inpasa também deve continuar com novos experimentos. A intenção é testar diferentes dietas, níveis de inclusão e formas de fornecimento do DDGS de sorgo, além de ampliar os estudos para animais Nelore e cruzamentos com Angus.
Fernandes afirma que os resultados obtidos com o Nelore também podem servir como referência para animais cruzados.
"O que a gente está desenvolvendo com o Nelore aqui na universidade, a gente não tem medo nenhum que a gente vai passar isso para o meio-sangue Angus, sem problema algum. E são áreas do conhecimento que andam juntas", afirmou.
Apesar dos resultados promissores, o pesquisador não acredita que o principal efeito da tecnologia será necessariamente reduzir o número de dias de confinamento. A tendência, segundo ele, é utilizar os ganhos de eficiência para produzir animais mais pesados ao abate.
"Eu não acredito que a gente vá diminuir dias de cocho. Eu acredito que a gente vai abater o animal mais pesado", afirmou.
A expectativa agora é que as análises finais confirmem qual é o nível de inclusão mais eficiente do DDGS de sorgo e como o produto impacta o desempenho e as características de carcaça. Os resultados podem ampliar as alternativas de alimentação para a pecuária de corte e, ao mesmo tempo, criar um novo mercado para o coproduto gerado pela expansão da produção de etanol de sorgo no Brasil.


