Petrobras já vende fertilizantes e mitiga riscos com guerra

Produção de fábricas na Bahia e Sergipe atinge 90% da capacidade e mitiga riscos de oferta em meio a conflitos no Oriente Médio

Por Marta Nogueira, da Reuters
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Com a retomada recente da produção, a Petrobras já vende fertilizantes nitrogenados de suas fábricas do Nordeste para clientes em diversos Estados, reduzindo ​riscos de oferta ao Brasil em momento de uma nova guerra no Oriente Médio, ​uma região que supriu cerca de 35% da demanda externa brasileira de ureia em 2025.

A unidades da Bahia e Sergipe voltaram a operar nos últimos meses e já atingiram 90% da capacidade, disse a companhia em email à Reuters. Juntas, as fábricas têm capacidade de produzir 12% da demanda de ureia no Brasil, uma potência agrícola que importa a maior parte de suas necessidades.

A venda de ureia da Petrobras está sendo realizada a granel e em "big bags" para clientes da Bahia, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo.

Já a venda de amônia atende principalmente ao polo petroquímico de Camaçari, ⁠na Bahia, e a clientes da região, explicou.

Antes de voltar ​ao controle da estatal no ano passado, as fábricas estavam arrendadas pela Unigel e ficaram hibernadas desde 2023 por dificuldades financeiras.

"O aumento ​da produção de ureia no Brasil pode ajudar a amortecer choques externos, e reduzir um pouco das incertezas que existem no mercado de nitrogenados, ⁠dada a nossa dependência das importações", disse o analista de inteligência de ⁠mercado da StoneX Tomás Pernias, à Reuters.

Entretanto, o especialista ponderou que o país continuará dependente das importações de nitrogenados, ​e, ‌portanto, eventos que impactem o fluxo comercial internacional de fertilizantes provavelmente continuarão a ser determinantes para os preços dos adubos no Brasil.

A retomada da Petrobras ajuda ⁠a mitigar riscos de suprimento de fertilizantes após ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã que começaram no fim de semana e perturbam fluxos de comércio globais.

No ano passado, o Brasil importou aproximadamente 7,7 milhões de toneladas de ureia, segundo dados oficiais do governo, sendo apenas cerca de 2% do Irã.

Em contrapartida, ‌quando somados ⁠volumes vindos do Oriente ‌Médio como um todo, o país comprou cerca de 2,7 milhões de toneladas de ureia de Omã, Catar, Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos e Bahrein.

O analista de inteligência de mercado da Agrinvest Commodities Jeferson Souza apontou incertezas, pontuando que o poder de compra do produtor agrícola já estava fragilizado antes mesmo do ⁠novo conflito, devido a uma relação de troca desfavorável entre o milho e fertilizantes, ⁠como a ureia.

"O poder de compra do produtor já não era bom antes de tudo isso. Agora, as dúvidas aumentam", disse, ressaltando que o cenário atual é more desafiador que o ‌de 2022, quando começou a guerra da Ucrânia e os preços das commodities agrícolas estavam mais altos e o crédito era mais abundante.

Em Sergipe, a fábrica iniciou a produção em dezembro de 2025 e já produz com 90% da sua capacidade máxima, que é de 1.250 toneladas por dia (t/d) de amônia e 1.800 t/d de ureia.

Na Bahia, a planta retomou atividades em meados de janeiro e já superou o patamar de 95% da capacidade de ‌produção de ureia, equivalendo a aproximadamente 1.300 t/d do produto.

A retomada das plantas foi uma demanda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como forma de reduzir a dependência externa do Brasil.

Outras unidades

A Petrobras planeja ainda elevar a produção para suprir um total de 20% da demanda de ⁠ureia no Brasil com a retomada da Araucária Nitrogenados S.A. (Ansa), no Paraná, e chegar a 35% con a entrada em operação da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados 3 (UFN-3), em Mato Grosso do Sul, nos próximos anos.

A Ansa, que deve retomar suas operações no primeiro trimestre de 2026, abriu nesta semana concurso para preencher 126 ​vagas de níveis superior e médio, reforçando o quadro de funcionários e avançando no plano de retomada operacional, de acordo com a Petrobras. A unidade paranaense possui ​capacidade instalada para produzir 720 mil toneladas de ureia e 475 mil toneladas de amônia por ano.

No Mato Grosso do Sul, o projeto da UFN-3, em Três Lagoas, está na fase de contratação para conclusão da fábrica. A aprovação final dos investimentos está prevista para o primeiro semestre de 2026, o que permitirá a retomada das obras ainda este ano, segundo a Petrobras.