Plano Safra 26/27 deve avançar com mais crédito privado e menos Tesouro

Com Selic alta e espaço fiscal restrito, mercado de capitais e cooperativas ganham peso no financiamento da safra

Cristiane Noberto, da CNN Brasil, Brasília
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O próximo Plano Safra deve consolidar uma mudança no perfil do crédito rural no Brasil, com maior participação do mercado financeiro e das cooperativas, em um cenário de juros elevados e limitação fiscal.

A avaliação de técnicos da equipe econômica envolvidos na elaboração do programa é de que o crescimento do crédito público será mais restrito, o que deve ampliar o peso de instrumentos privados no financiamento da safra.

A mudança tem um ponto de virada claro. Com a abertura do modelo de distribuição dos recursos equalizados do Plano Safra para um formato concorrencial, o sistema saiu de uma concentração quase absoluta no Banco do Brasil para operar hoje com 25 instituições.

Com isso, o spread das operações despencou — de 4,81% para 2,90% — e o movimento abriu caminho para a entrada das cooperativas de crédito em escala.

De acordo com técnicos da equipe econômica, Sicredi, Sicoob e Cresol foram as que mais cresceram nesse processo. A Cresol, por exemplo, saiu de menos de R$ 10 bilhões em ativos para mais de R$ 50 bilhões em poucos anos — um salto que foi acompanhado pelo governo de perto.

A explicação para a inadimplência baixa dessas instituições está no modelo: atendimento individualizado, acompanhamento próximo do produtor e capacidade de renegociar antes que a dívida vire problema.

O contraste com os grandes bancos é direto. Relatos feitos à reportagem, remontam a época em que a Caixa Econômica Federal tentou avançar no agro e acabou com uma inadimplência chegando a 30% em algumas linhas — resultado de uma concessão em massa sem estrutura de acompanhamento.

Os bancos privados, por sua vez, ficaram mais seletivos depois que a Resolução 4.966 do Banco Central, publicada em 2021, passou a exigir o reconhecimento antecipado de perdas esperadas nas carteiras de crédito e forçou um ajuste nos balanços. Quem estava "empurrando com a barriga", se deparou com a conta.

Esse aperto chegou num momento em que parte do setor já carregava endividamento elevado — especialmente para os grandes produtores, com dívidas bilionárias.

A onda de recuperações judiciais que se seguiu poluiu o ambiente de crédito: à medida que distribuidores e outros elos da cadeia foram aderindo ao mecanismo, os bancos fecharam ainda mais o cerco, e sem crédito, o ciclo de quebras se retroalimentou.

É nesse cenário que o mercado de capitais passou a ter papel crescente. O financiamento privado do agronegócio se manteve na casa de R$ 1,4 trilhão em março, com leve oscilação em relação a fevereiro, segundo o Boletim de Finanças Privadas do Agro, divulgado na última sexta-feira (17) pelo Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária).

Na comparação anual, os principais instrumentos seguem em expansão: a CPR (Cédula de Produto Rural) cresceu 17% em relação a março de 2025 e acumula alta de 72% frente a 2024; a LCA (Letra de Crédito do Agronegócio) avançou 6% em um ano, enquanto os CRA (Certificados de Recebíveis do Agronegócio) subiram 15% no mesmo período.

O crédito rural empresarial soma R$ 404 bilhões concedidos na safra atual, sustentado principalmente por esses instrumentos de mercado, mesmo diante da retração nas modalidades tradicionais de custeio, investimento e comercialização.

É nesse contexto que as cooperativas chegam às negociações do próximo Plano Safra com uma proposta ambiciosa.

O Sistema OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras) defende um programa de R$ 674 bilhões para a safra 2026/2027 — ante os cerca de R$ 594 bilhões da safra atual —, com R$ 520 bilhões para custeio e comercialização, R$ 154 bilhões para investimento e agroindustrialização. Além disso, R$ 27 bilhões para equalização de juros.

O desafio central do próximo Plano Safra então é equilibrar essa equação com a Selic ainda elevada. A prioridade do Tesouro é ampliar o volume de recursos na ponta sem elevar na mesma proporção o gasto público.

Na prática, o programa deve crescer de forma mais moderada, próximo à correção pela inflação. A tendência, segundo técnicos, é de continuidade desse processo de transição — um sistema mais pulverizado, competitivo e menos dependente de recursos diretos do Tesouro.