Plant Armor: tecido pode aumentar produção de morangos em 256%
Tecnologia desenvolvida nos EUA a partir de roupas militares bloqueia insetos e permite a passagem de luz, água e ar; estudo identificou produção 3,56 vezes maior em experimento.

Um tecido tridimensional desenvolvido nos Estados Unidos elevou em 3,56 vezes a quantidade de morangos colhidos em experimentos agrícolas, em comparação com plantas sem cobertura. Batizada de Plant Armor, a tecnologia cria uma barreira física contra insetos e mantém a passagem de luz, água e ar, combinação que pode ajudar a proteger as lavouras e reduzir a necessidade de defensivos agrícolas.
O resultado foi obtido em testes conduzidos por pesquisadores da North Carolina State University (NC State), nos Estados Unidos, e publicado em 24 de setembro de 2026 na revista científica Agriculture, no estudo “Knitted 3-D, Porous Textile Cover to Enhance Strawberry Fruit Production and Prevent Insect Feeding”. A universidade divulgou os resultados cinco dias depois, em 29 de setembro.
O aumento de produtividade, porém, ainda precisa ser confirmado em condições comerciais. Os autores destacam que são necessários testes em propriedades rurais, com diferentes culturas e condições geográficas, antes de concluir qual pode ser o alcance da tecnologia na produção agrícola.
Como funciona o Plant Armor
O Plant Armor é feito de um tecido de malha com estrutura tridimensional, formado por camadas externas conectadas por uma camada interna. Essa arquitetura dificulta a passagem de insetos até as plantas, mas permite a circulação de ar e a entrada de água e luz solar.
A proposta é proteger as culturas sem depender exclusivamente de aplicações de inseticidas. O material também pode criar condições térmicas favoráveis ao desenvolvimento das plantas.
No experimento com morangos, a cobertura elevou consistentemente a temperatura em relação às áreas descobertas, sem diferenças na umidade relativa do ar. Segundo os pesquisadores, o aquecimento ajudou as plantas a atingir mais cedo as etapas de desenvolvimento necessárias à frutificação.
O tecido também impediu a passagem de pulgões nos testes de laboratório. Isso não significa, entretanto, que a cobertura elimine todas as pragas ou dispense o manejo fitossanitário em uma lavoura comercial.
Quem desenvolveu a tecnologia e quando começaram as pesquisas
A origem do Plant Armor está em pesquisas da própria North Carolina State University sobre materiais têxteis para aplicações militares. A ideia inicial era produzir um tecido que ajudasse a tornar o uso de coletes balísticos mais confortável e reduzisse a exposição dos militares a picadas de mosquitos.
O professor R. Michael Roe, especialista em entomologia e patologia de plantas da universidade, participou do desenvolvimento da tecnologia e é um dos autores dos estudos. A pesquisa começou com a tentativa de criar um tecido para a região do peito dos soldados, mas acabou levando, após sucessivos testes, a uma aplicação agrícola.
A primeira publicação científica identificada nessa linha de pesquisa foi divulgada em março de 2022, na revista Agriculture, com o título “Novel 3-D Spacer Textiles to Protect Crops from Insect Infestation and That Enhance Plant Growth”. O trabalho avaliou se o tecido tridimensional poderia proteger plantas contra insetos e favorecer o crescimento sem o uso de pesticidas.
Entre os autores estavam Grayson L. Cave, Andre J. West, Kun Luan e R. Michael Roe, além de outros pesquisadores. O projeto reuniu competências das áreas de têxteis, recursos naturais e entomologia da universidade.
Naquele estudo, os experimentos foram realizados com repolho. Em pequenos canteiros acompanhados durante três meses no verão, as plantas cobertas com o tecido apresentaram crescimento vegetativo aproximadamente duas vezes mais rápido que as plantas sem cobertura. Em outro resultado, a versão mais recente do material impediu a entrada de lagartas jovens nos testes em gaiolas durante os dez dias de observação.
Os autores ressaltaram que se tratava de uma prova de conceito, e não de uma demonstração de ganhos comerciais em escala.
O que o estudo com morangos descobriu
A pesquisa mais recente procurou verificar se os efeitos observados no crescimento vegetativo também poderiam resultar em mais frutos. Para isso, os cientistas testaram a segunda geração do tecido, chamada Plant Armor Generation 2, em plantas de morango.
O resultado foi um aumento de 3,56 vezes na quantidade de frutos colhidos e considerados aproveitáveis. Tanto o número quanto o peso dos frutos foram significativamente maiores nas plantas cobertas. Diferentemente do estudo com repolho, não houve diferença na biomassa vegetativa das plantas de morango, indicando que o ganho de produção não foi acompanhado simplesmente por um crescimento maior de folhas e caules.
Os pesquisadores também observaram que as plantas cobertas produziram frutos uma semana antes das plantas descobertas, que ainda não apresentavam frutos colhíveis naquele momento inicial da avaliação.
A hipótese é que a elevação consistente da temperatura tenha favorecido o acúmulo de calor necessário às diferentes etapas do desenvolvimento da cultura. O estudo também avaliou a disponibilidade de luz e não encontrou evidências de que o tecido tenha prejudicado a frutificação por provocar uma resposta de adaptação à sombra.
Esses resultados indicam potencial para combinar proteção física contra insetos e melhoria das condições de cultivo. Ainda assim, o ganho observado em um experimento não deve ser tratado como uma estimativa automática de produtividade para produtores comerciais.
O Plant Armor pode reduzir o uso de defensivos agrícolas?
Uma das aplicações potenciais do tecido é reduzir a exposição das plantas a insetos-praga e, consequentemente, a necessidade de algumas aplicações de inseticidas. Ao funcionar como uma barreira física, o material pode complementar estratégias de manejo integrado de pragas e sistemas de produção que buscam diminuir o uso de produtos químicos.
A tecnologia também pode ser relevante para culturas nas quais a proteção das flores e dos frutos é importante para a qualidade comercial e para o volume colhido. Mas o desempenho dependerá da cultura, das espécies de pragas presentes, do clima, do sistema de cultivo e da viabilidade de instalar e manejar a cobertura.
Os pesquisadores não demonstraram que o Plant Armor substitui integralmente os defensivos ou que reduz os custos de produção em escala comercial. Esses pontos ainda precisam ser quantificados.
Patente e próximos passos
A segunda geração do tecido estudada na pesquisa foi patenteada pela North Carolina State University em 21 de fevereiro de 2023. A universidade licenciou a tecnologia para desenvolvimento comercial.
O estudo com morangos teve apoio da North Carolina Agricultural Foundation e do programa de pesquisa do Instituto Nacional de Alimentação e Agricultura do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
A próxima etapa é testar o material diretamente em propriedades rurais, em diferentes regiões e culturas. Esses ensaios serão importantes para avaliar a durabilidade do tecido, os custos de instalação e manutenção, a resposta das plantas ao longo de diferentes safras e o impacto econômico para o produtor.


