Preço do leite é negociado abaixo do custo de produção
No Rio Grande do Sul cenário tem sido agravado por eventos climáticos extremos registrados nos últimos anos.

Os produtores de leite começaram 2026 sob forte pressão econômica. Nos primeiros meses do ano, o valor pago pelo litro do produto em várias regiões ficou abaixo do custo de produção, cenário que tem levado parte das propriedades a reduzir o rebanho ou buscar crédito para manter a atividade.
De acordo com levantamento do Cepea, os custos de produção da pecuária leiteira aumentaram em janeiro de 2026. Este cenário e a baixa nos preços da matéria-prima deixaram o produtor em alerta, visto que apertam ainda mais as margens e afetam diretamente o poder de compra. Os preços do leite no mercado spot em São Paulo foram negociados em média a R$ 2,41 o litro, em comparação com os R$ 1,95 registrados em janeiro na mesma praça.
Para o presidente da Associação dos Criadores de Gado Holandês do Rio Grande do Sul (Gadolando), Marcos Tang, os meses de janeiro e fevereiro foram um dos períodos mais difíceis para os produtores gaúchos nos últimos anos.
Segundo o dirigente, muitos pecuaristas estão recebendo menos pelo litro entregue aos laticínios do que gastam para produzi-lo. “Isso obriga o produtor a buscar alternativas para manter a atividade, como vender parte do rebanho ou recorrer a empréstimos para cobrir despesas, o que acaba gerando endividamento”, afirma.
Clima agrava custos de produção
Embora a queda na remuneração seja percebida em todo o país, Tang destaca que o cenário no Rio Grande do Sul tem sido agravado por eventos climáticos extremos registrados nos últimos anos.
O estado enfrentou uma sequência de estiagens intercaladas com períodos de enchentes, o que afetou diretamente a produção de alimento para o rebanho. A alimentação das vacas é um dos principais componentes do custo da atividade leiteira.
“Quando o produtor não consegue produzir pastagem ou silagem suficientes, ele precisa comprar insumos no mercado. Isso aumenta os custos e reduz ainda mais a margem de lucro”, explica.
Sinais de reação no mercado
Apesar das dificuldades no início do ano, o setor começa a observar sinais de estabilização nos preços. De acordo com Tang, a queda registrada em fevereiro foi menor do que nos meses anteriores, e já há indícios de leve recuperação no início de março.
A expectativa é de que a reação se consolide entre abril e junho, período em que o mercado costuma registrar aumento gradual na remuneração ao produtor.
Entre os fatores que podem impulsionar essa recuperação está a retomada das aulas, que tende a elevar a demanda por produtos lácteos, além da chegada das temperaturas mais baixas.
“Outono e inverno normalmente favorecem o consumo de leite e derivados, o que ajuda a puxar os preços para cima”, afirma.
Ciclo de preços foi quebrado em 2025
Historicamente, o mercado de leite no Brasil apresenta um comportamento cíclico. Os preços pagos ao produtor costumam ser mais baixos entre novembro e janeiro e passam a reagir ao longo do outono.
No entanto, segundo o presidente da entidade, esse padrão não se confirmou no ano passado.
“Em 2025, mesmo durante o inverno, que tradicionalmente garante melhor remuneração ao produtor, os valores continuaram caindo”, afirma.
A situação comprometeu o equilíbrio financeiro das propriedades. De acordo com Tang, o inverno costuma ser o período em que o produtor forma caixa para enfrentar os meses seguintes.
“Quando isso não acontece, toda a sustentabilidade da atividade fica comprometida”, destaca.
A chegada do outono também pode trazer algum alívio para os custos. Temperaturas mais baixas reduzem o estresse térmico nas vacas, o que tende a melhorar a produtividade.
Além disso, após a colheita de grãos, muitos produtores conseguem implantar pastagens de inverno, o que reduz a necessidade de compra de ração e outros insumos.
Importações preocupam setor
Mesmo com a expectativa de melhora nos preços, o setor segue atento a fatores externos que podem pressionar o mercado interno.
Segundo Tang, o aumento das importações de lácteos, especialmente da Argentina e do Uruguai, tem impactado a competitividade do produtor brasileiro.
“O setor tem pedido medidas do governo para conter temporariamente essas importações e também a aplicação de instrumentos como o antidumping, que está em análise”, afirma.
Para o dirigente, a entrada de leite e derivados estrangeiros em grande volume tem prejudicado a recuperação da renda no campo. “A importação desenfreada acaba pressionando ainda mais os preços pagos ao produtor brasileiro”, conclui.


