Produtor está na pior conta dos últimos 20 anos, avalia presidente da Yara

Em uma análise sobre o momento que vive o agronegócio no Brasil, Marcelo Altieri ressalta a necessidade dos preços dos grãos subirem para reverter a pressão sob agricultor

Gabriella Weiss e Isadora Camargo, da CNN Brasil, São Paulo
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“O produtor está na pior conta dos últimos 20 anos” e, sem uma recuperação nos preços dos grãos, os produtores podem ter dificuldade para recompor suas margens, avalia Marcelo Altieri, presidente da Yara Brasil, em entrevista ao CNN Agro. Segundo ele, o cenário não podia ser pior.

Segundo ele, o maior risco da atividade agropecuária no país é a inadimplência. E a situação atinge toda a agroindústria, entre fabricantes e distribuidoras de insumos também, lembra o executivo.

A pressão da taxa de juros real, que Altieri estima em 24%, faz com que o produtor tenha dificuldades de pagar seus compromissos. O custo do arrendamento de terras, por exemplo, já se aproxima desse percentual, pesando ainda mais para quem não tem área própria.

Além disso, o acesso ao crédito teria se tornado mais restrito, com bancos reduzindo a concessão de financiamentos e revendas limitando operações diante do aumento de casos de recuperação judicial no setor.

O aumento dos custos de produção também contribui para o cenário, especialmente no caso dos fertilizantes, área em que a Yara atua.

Com a restrição da oferta, os preços continuam subindo. Segundo o executivo, a Índia realizou um processo de compra nesta semana em que a oferta mais baixa de ureia foi de US$ 943 por tonelada. Antes do início do conflito no Oriente Médio, as propostas estavam em torno de US$ 505 por tonelada.

Além disso, a China permanece sem realizar vendas de fertilizantes ao exterior, ao menos até agosto.

Segundo Altieri, o cenário atual combina demanda enfraquecida, oferta limitada e preços elevados em uma “tormenta perfeita”. Ele observa ainda que a maior parte da produção global de fertilizantes está concentrada no Hemisfério Norte, enquanto o Brasil é o principal mercado do Hemisfério Sul, com demanda em períodos distintos.

Ele afirma que essa dinâmica dificulta a sustentação do Plano Nacional de Fertilizantes e que “por isso ele não para em pé”. De acordo com o executivo, a ausência de demanda contínua reduz a viabilidade de iniciativas estruturais ao longo do tempo, enquanto, em momentos de conflito que afetam a oferta, a dependência externa passa a ser um fator de preocupação.

Produção nacional

Para Altieri, as incertezas causadas pelas guerras da Rússia e Ucrânia e, agora, do Oriente Médio forçam o debate sobre a produção de fertilizantes no Brasil, exigindo movimentação dos atores públicos e privados. Porém, según ele, o país não possui infraestrutura flexível nem para receber matéria-prima que estimule a fabricação em escala. "Falta capacidade na ponta para abastecer mercados", disse.

A Yara também sente as dificuldades, mas segundo Altieri conseguirá cumprir os contratos feitos até abril e entregar fertilizantes para seus clientes a tempo do plantio da safra de verão. A empresa assimilou uma lição, depois de perder US$ 90 mil perdidos com cancelamentos de pedidos em razão da escalada do conflito bélico entre Rússia e Ucrânia, em 2022.

Desde então, a empresa implementou contratos com seus clientes para não estocar à toa e nem gerar prejuízo no caixa ao trazer matéria prima de seus polos de produção espalhados em 120 países.

No momento, a companhia deve movimentar um volume entre 6 milhões e 7 milhões de toneladas para abastecer os parceiros brasileiros, além das 2 milhões de toneladas que produz em suas três unidades em Cubatão (SP), Rio Grande (RS) e Ponta Grossa (PR).

Segundo Altieri, nas fábricas do Brasil são feitas formulações "premium", cuja aposta estratégica de venda no Brasil é mais certeira do que a venda de fertilizante-commodity, principalmente pela concorrência mais alta quando há múltiplos fatores de pressão.

Mesmo assim, o volume é uma fatia pequena diante do que o país consome. Em 2025, foram cerca de 49 milhões de toneladas de adubo utilizadas no território, segundo a Anda (Associação Nacional para Difusão de Adubos).

Para 2026, fontes do segmento ouvidas pelo CNN Agro não acreditam que este número irá se manter e acreditam que haverá reduções nos compostos utilizados no campo, numa troca de produtos mais potentes por itens mais baratos.

E nas distribuidoras, a preocupação que ronda é o aumento do nível de inadimplência, que deverá ser observado até o dia 30 de abril, o chamado "dia D" dos pagamentos nas revendas agrícolas.