Safra de soja brasileira 2026/27 pode reduzir 2%, prevê Rabobank

Margens apertadas, crédito restrito e custos elevados desmotivam agricultores a aumentar o plantio para a safra 2026/27, diz banco holandês

Por Roberto Samora, da Reuters
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A safra brasileira de soja 2026/27, com plantio no país a partir de meados de ​setembro, pode registrar uma queda de cerca de 2% ​ante o recorde do ciclo anterior, para 178 milhões de toneladas, em meio a difíceis condições de mercado que deverão levar a uma estabilização da área plantada, afirmou o Rabobank nesta quinta-feira (23).

A estimativa inicial do banco holandês considera uma "pausa" no aumento "sustentado" de área plantada, que tem sido visto no país há mais de duas décadas a uma taxa de cerca de 4% ao ano, segundo relatório assinado pela analista sênior de grãos e ⁠oleaginosas, Marcela Marini.

Margens de agricultores comprimidas ​por preços baixos da commodity, condições de crédito mais restritivas, custos de financiamento mais elevados ​e "crescente incerteza" em torno dos mercados de insumos desmotivam agora a expansão de área no maior produtor e ⁠exportador de soja, escreveu Marini.

O recuo esperado na ⁠produção considera uma "normalização" da produtividade média, após resultado no anterior acima da tendência, "em vez ​de ‌queda na área plantada".

Contudo, os riscos de queda maior na produtividade são elevados, "particularmente devido a potenciais impactos do ⁠El Niño e aos custos mais elevados de fertilizantes associados a tensões geopolíticas" geradas pela guerra no Irã.

"Nesta fase, a estimativa não incorpora potenciais impactos climáticos adversos associados ao El Niño", disse o Rabobank, lembrando que episódios recentes ‌do ⁠fenômeno climático tiveram impactos ‌negativos na produção em regiões importantes, notadamente na safra 2023/24.

O ambiente mais restritivo também está aumentando a disponibilidade de terras agrícolas para venda ou arrendamento, à medida que os produtores buscam liquidez e ajustes em seus balanços, ⁠apontou o relatório.

"O consequente aumento na oferta de terras deve ⁠desacelerar a expansão da área cultivada -- particularmente aquela decorrente da conversão de pastagens --, ao mesmo tempo em que redireciona o modelo de ‌crescimento da soja no Brasil para a otimização e a realocação de áreas agrícolas já existentes", concluiu.

Fase de transição

A especialista classificou a expectativa de estagnação da área como uma "mudança chave" e um "ponto de inflexão" no foco estratégico de produtores.

Mas a mudança não significa uma "contração estrutural" na produção de soja do Brasil, que, ‌com o crescimento contínuo da safra, expandiu sua participação na produção global de 28% em 2010 para 42% em 2026.

"Trata-se, na verdade, de uma moderação no ritmo de expansão, refletindo tanto condições econômicas mais ⁠restritivas para os produtores quanto um crescimento mais lento da demanda global", apontou Marini.

Ela lembrou que a terra continua sendo o principal ativo do produtor, "o que limita a probabilidade de uma redução significativa da área".

"No entanto, espera-se ​que a expansão futura se torne mais seletiva, cada vez mais condicionada à rentabilidade, ao acesso ao crédito e ​a considerações sobre gestão de riscos".

Em 2026/27, se confirmada a projeção de safra menor, ela poderia contribuir para um cenário global de oferta e demanda mais equilibrado, fluxos de exportação mais estáveis e um suporte moderado aos níveis de "basis" da soja no mercado interno.

(Por Roberto ‌Samora; edição de Marta Nogueira)