Bateria do carro falhando no frio? Saiba o que fazer

A temperatura baixa altera as reações químicas e exige um esforço dobrado do motor; entenda os sinais de falha e os truques de oficina para garantir o funcionamento do carro

Lucas Machado, colaboração para a CNN Brasil
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Um problema muito comum para diversos motoristas, quando as temperaturas começam a cair, é o motor do carro simplesmente se recusar a funcionar: você gira a chave, o painel acende, mas o motor não tem força para ligar.

Isso acontece porque, nas manhãs geladas, o sistema elétrico dos veículos é levado ao extremo, e a falta de precaução na noite anterior cobra um preço alto. Mas, afinal, o frio é realmente capaz de roubar a carga de um veículo da noite para o dia?

Para entender o que acontece debaixo do capô e descobrir como prevenir essa dor de cabeça, a CNN Brasil conversou com o mecânico Renê Rubbo Jr. Ele esclarece que o clima gelado ataca o sistema em duas frentes simultâneas: prejudica o funcionamento do motor e enfraquece a fonte de energia.

O especialista detalha os erros mais comuns cometidos pelos condutores em dias frios, os cuidados no trânsito e o que deve ser feito para prolongar a vida útil do equipamento.

O impacto térmico: por que o frio é o maior vilão?

A crença de que o clima afeta a parte elétrica não é um mito urbano. A temperatura influencia diretamente a química interna dos componentes automotivos. “Um dos motivos é que todo veículo a combustão, seja gasolina ou álcool, tem dificuldade em funcionar em baixas temperaturas; desta forma, a bateria tem que se esforçar mais para o motor funcionar”, explica Rubbo.

Além do esforço extra exigido pelo motor, a própria fonte de energia sofre uma queda brusca de rendimento. O mecânico destaca que "a reação elétrica gerada pela bateria por seus componentes tende a perder eficiência tanto em baixas temperaturas quanto em altas". O impacto é mensurável: "Em temperaturas muito baixas, próximas do 0°C, pode haver uma perda de potência de 20% a 30%, sendo essa perda um pouco menor a temperaturas superiores a 40°C, aproximadamente 15%".

É exatamente por essa sensibilidade térmica que a indústria automotiva mudou o design de vários modelos. “Por essa razão que muitos carros não têm mais a bateria no compartimento do motor. E sim na mala, debaixo do banco, para manter mais constante a temperatura”, pontua.

Os sinais de socorro e o truque dos 2 minutos

O carro raramente para de funcionar sem antes dar algum tipo de aviso. O segredo é prestar atenção aos detalhes na hora de dar a partida. “Normalmente dá para notar que o motor, na hora da partida, gira mais lento. Em determinados casos, numa segunda tentativa, ela já não consegue mais girar o motor”, alerta o mecânico.

Se o motorista perceber essa lentidão ao chegar em casa no fim do dia, existe um truque de oficina para evitar o apagão na manhã seguinte. Mas existe uma forma de tentar driblar isso.

“Antes de desligar o carro, desligar todos os componentes consumidores de energia, tais como faróis e lanternas, ar-condicionado e outros, a ideia é manter o carro acelerado em torno de 1500 rotações por um período de aproximadamente uns 2 minutos, para que o alternador possa dar uma sobrevida para a partida no dia seguinte”.

O consumo fantasma e o risco da "torneira aberta"

Deixar acessórios ligados com o motor desligado é um erro primário, mas muito frequente. O especialista faz a seguinte analogia: "Utilizar os consumidores de energia é o equivalente a deixar a torneira aberta: uma hora a água vai acabar”, compara.

No entanto, o perigo também mora nos carros que ficam muitos dias parados na garagem, especialmente os modelos mais tecnológicos. “Isso depende de cada carro. Os carros mais antigos, com menos eletrônica, sofrem menos esse problema, mas já os carros mais novos, em que a eletrônica embarcada é muito grande, há até o caso de alguns já terem uma bateria auxiliar”, explica Renê. Isso ocorre porque “alguns componentes não se desligam totalmente, gerando assim um pequeno consumo de repouso”.

Para quem roda pouco, ligar o carro alguns minutos na garagem ajuda, desde que tudo esteja desligado. Contudo, o mecânico sugere uma solução mais definitiva: “O que recomendo a clientes que andam pouco é comprar um aparelho que é muito comum para os motociclistas, um ‘battery saver’, que mantém, em casos de aparelhos de boa qualidade, quase que uma simulação do uso da bateria”.

Trânsito pesado e os perigos no alternador

A vida útil do sistema elétrico não depende apenas do armazenamento de energia, mas da capacidade do carro de repor essa carga através do alternador. O problema é que, no anda e para das cidades, essa conta muitas vezes não fecha.

“Em caso de engarrafamentos, recomendo desligar os faróis e manter somente as lanternas, em casos extremos desligar até o ar-condicionado. Com o motor em marcha lenta você acaba consumindo mais energia do que o alternador consegue gerar. Afinal, ele depende da rotação do motor para gerar energia”, adverte o especialista.

"Veículos que andam em trânsito pesado todos os dias tendem a ter uma vida útil da bateria menor do que os que circulam mais em estradas”.

A relação entre os componentes exige atenção aos avisos do painel, que muitas vezes passam despercebidos. “Um cuidado que poucos tomam é, quando ligam a chave do carro, verificar se a luz da bateria no painel está acesa. Muitos carros dão problema no alternador e a luz não acende; você liga o carro e acaba enguiçando no meio do caminho”, alerta o especialista.

Em alguns casos, um alternador defeituoso pode gerar corrente excessiva e danificar o armazenamento, ou o inverso: uma peça em curto pode exigir tanta corrente que acaba superaquecendo e queimando o alternador.

Afinal, dar carga resolve ou é hora de trocar?

Quando o carro finalmente "morre", surge o dilema clássico: chamar um socorro para fazer uma recarga (a famosa chupeta) ou comprar uma peça nova? A resposta depende do histórico do equipamento.

“Quando a bateria é relativamente nova e descarregou por algum componente que ficou ligado, a recarga é correta. Mas quando já está fora do período coberto pela garantia, o mais correto é substituir”, orienta o mecânico.

Embora as versões modernas sejam majoritariamente seladas, Renê lembra que em modelos onde ainda é possível verificar o nível da solução e completar com água destilada, “é muito comum ter-se uma sobrevida com a recarga”.